Superoito express (12)

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jay

Devo admitir que ando ouvindo menos discos do que eu gostaria. Não sei o que acontece: se o problema é dos álbuns ou meu, mas o desinteresse existe, me consome e é quase total. Mantenho uma distância segura do meu iPod e, nos momentos em que não sou obrigado, ouço música numa única ocasião: quando estou dirigindo. Até a casa da minha namorada, levo uns 20 minutos. Para ver minha mãe, uns 35. Ao trabalho, 15. Gravei um CD-R com uns oito disquinhos e ele roda incessantemente, há algumas semanas, no CD player do meu carro.

Minto: ouço música também quando estou no apê e o silêncio pesa novecentas toneladas. Mas aí são os meus standards, os-da-ilha-deserta, selecionados rigorosamente (ou, explicando melhor, os 15 CDs que cabem na única estante da sala). Neste exato momento, ouço XO, do Elliott Smith, e depois dele virá Oh inverted world, do Shins. Ontem foi Sea change, do Beck – e tai um disquinho duro, que sempre, sempre me emociona da primeira à última faixa.

Bem. Mas, como o jogo aqui é comentar discos relativamente novos, vamos aos que rodam no meu carrinho arranhado, encardido e fedorento.

Watch me fall | Jay Reatard | 8 | Um sujeito que é conhecido há mais de uma década como uma espécie de Julian Casablancas podre, um garoto-problema do underground, não tem o direito de lançar um álbum assim (e pela Matador Records!): doce, transpirando uma loucura tenra, encantado por new wave e bubblegum. Como aconteceu com o mais recente do Against Me! (e, vejam que coincidência, com XO, do Elliott Smith), Watch me fall tenta negociar chamegos com um público mais amplo sem abandonar a integridade. E consegue. Os fãs mais antigos podem até se incomodar com uma certa polidez recém-adquirida, mas Reatard é daqueles que soam espontâneos (e anárquicos, ainda que por linhas tortas – e que acabam lembrando o Frank Black de Teenager of the year) mesmo quando interpretam uma espécie de canção de amor com aparência de hit de seriado de tevê. No caso, se chama I’m watching you, e é uma das melhores do disco. Reatard tem 29 anos e, cá entre nós, a carreira dele começa de verdade aqui.

Farm | Dinosaur Jr | 7.5 | É bem verdade que o Dinosaur Jr praticamente renasceu há dois anos graças às bênçãos da Pitchfork (e a um bom disco, Beyond, que dava um brilho na sonoridade garageira do início dos anos 90 com letras menos ingênuas), mas é com este Farm que essa nova fase começa a ficar interessante. Além de mais confiante que o anterior (repare a duração das canções, muitas delas pra lá dos cinco minutos), o disco mostra uma banda disposta a se surpreender, por isso jovem – mesmo quando repete aquela receita de bolo que conhecemos tão bem. Talvez sob influência do selo Jagjaguwar, que adora uma distorção sem rédeas (vide Sunset Rubdown), eles se soltam e saem com algumas das jams mais sólidas que já criaram. Isso sem contar que é o álbum mais melodioso deles – e há canções de franqueza verdadeiramente tocante, como Plans e Over it, perigosíssimas para quem tem por volta de 30, 35 anos.

Lungs | Florence and the Machine | 6.5 | No início soou criminosamente estridente, e juro que tive que tentar várias vezes antes de desistir e jogar meu carro contra o poste. Sobrevivi, estou de pé (firme e forte) e, por isso, tenho cacife para afirmar seguramente que este disco fica cada vez menos irritante – e que Florence Welch não vive apenas de tributos a Dolores O’Riordan (e, quando a terceira pessoa fez a comparação, jurei que colocaria neste blog – é uma sacanagem, ok, é uma sacanagem óbvia, tá, mas não deixa de fazer algum sentido). O bacana, no fim das contas, é notar como Florence consegue segurar um disco que tinha tudo para soar como uma colcha de retalhos de clichês de rock-fêmea, já que foi confeccionado por três superprodutores e lançado pela Island Records. De alguma forma, ela se sobressai e vence o furacão. Tem pulso, a moça.

Horehound | The Dead Weather | 6 | Jack White parece estar numa berlinda: depois de um disco do Raconteurs que soava como uma versão superproduzido do White Stripes, agora ele apresenta um projeto que parece uma fita demo do White Stripes interpretada por uma banda de bar depois das três da matina. Moral da história: por mais que tente, White não é nem nunca vai ser David Bowie. O Dead Weather tem integrantes do The Kills (Alison Mosshart), do Queens of the Stone Age (Dean Fertita) e do Raconteurs (Jack Lawrence), mas adivinha quem dá as cartas? O mais curioso é que as duas primeiras faixas, que não foram compostas por White, soam como hits perdidos do White Stripes (ou sobras inacabadas dos primeiros discos do Led Zeppelin, o que dá na mesma). O caneco de ouro vai para Hang you from the heavens, a única que decola.

Discovery LP | Discovery | 6 | É uma piada e deve ser encarada como tal: Rostam Batmanglij (Vampire Weekend) e Wes Miles (Ra Ra Riot) brincam de gravar hits de FM, com bitocas para Mariah Carey (So insane), os vocais frágeis (no bom sentido) do Postal Service (Orange shirt) e uma versão robótica e desmiolada, mas muito engraçada, para I want you back, do Jackson 5, que acaba ecoando o Daft Punk de… Discovery. E tem auto-tune. Os indies só querem se divertir.

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14 comentários em “Superoito express (12)

    Felipe Queiroz disse:
    agosto 28, 2009 às 2:12 am

    Também sempre recorro ao Sea Change quando estou nesses momentos, e aos desabafos de Blood On The Tracks do Bob Dylan.

    Também encarei o Discovery como uma piada, mas é uma das mais sem graça. Já Jay Reatard e Dinosaur Jr. me agradaram bastante!

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 28, 2009 às 2:20 am

    Sea change e qualquer um do Elliott Smith: tiro e queda.

    Pô, Discovery é legalzinho, vai. Bobo pra burro, mas legalzinho.

    Bruno Amato disse:
    agosto 28, 2009 às 1:15 pm

    Eu tava ouvindo Blood On The Tracks esses dias.

    Preciso escutar de novo Horehound, mas acho que é isso aí mesmo que vc escreveu.

    Acho que to um pouco como vc, Tiago, esse ano tá um pouco decepcionante de discos . Claro, Animal Collective, Bob Dylan, talvez The Eternal (e bota talvez). O resto, mesmo quando gosto, não tá me entusiasmando não.

    jv disse:
    agosto 28, 2009 às 1:21 pm

    se tiago escrevesse um livro, seria o nick hornby brasileiro. quem me dera saber escrever assim tão bem.

    Blood on the Tracks e Elliott Smith é praticamente uma constante em meu player. felizmente ou infelizmente.

    jv disse:
    agosto 28, 2009 às 1:24 pm

    e não acho q 2009 tá fraco de discos. pelo menos tá rolando muita coisa nova das bandas que gosto: novo da Móveis, Superguidis (tá pra sair), Ronei Jorge (pra sair), Lucas Santanna, Arctic Monkeys, Wilco…

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 28, 2009 às 1:55 pm

    Blood on the tracks é obra-prima, né. Nem tem discussão.

    Bruno, o ano tá bom sim. Eu conseguiria fazer fácil-fácil uma lista de 20 belos discos: tem Animal Collective, Dirty Projectors, Grizzly Bear, Dan Deacon, Fiery Furnaces, Fever Ray, Bob Dylan, Jay Reatard e um punhado de outros. Mas noto que este início de semestre está fraco sim. Tá uma dificuldade ouvir alguma coisa empolgante.

    Mas tem uma fila de discos pra eu ouvir, então tudo pode mudar…

    JV, escrever um livro está quase totalmente fora dos meus planos, hehe. Mas valeu pela comparação. O Hornby parece ser um cara bacana, e, se não me engano, está rico. Enfim.

    Diego disse:
    agosto 28, 2009 às 3:34 pm

    Eu não entendo o apelo de Jay Reatard, Dan Deacon e companhia. Me explica. O ex é fã e nunca entendi.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 28, 2009 às 4:42 pm

    Diego, um não tem muito a ver com o outro. Até tinham um pouco, mas o Reatard tá cada vez menos extremo. Ouça o disco dele, você vai curtir.

    Bruno Amato disse:
    agosto 28, 2009 às 5:06 pm

    Já ouvi a maioria desse que vc citou… talvez eu esteja numa fase chata pra música.

    Bruno Amato disse:
    agosto 29, 2009 às 2:12 am

    Bom, não me entenda mal tb, não acho que estamos num ano desastroso. Digamos que ouvi discos nota 7 em excesso.

    Filipe Furtado disse:
    agosto 29, 2009 às 11:38 am

    Eu também não tenho o que reclamar do ano em discos, apesar de no ultimo mes e meio não ter vazado nada muito marcante.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 29, 2009 às 5:43 pm

    Vários discos nota 7, Bruno, vc tem razão.

    Felipe Queiroz disse:
    agosto 30, 2009 às 1:18 am

    Tiago, tem um disco no “best new music” da Pitchfork, trata-se de “Hospice”, da banda The Antlers.

    Não diria que se trata de uma obra-prima, mas é um disco que se encaixa com esse seu momento. Extremamente depressivo e emocionante, e também um álbum conceitual que tem como tema a morte. Conta a história de um homem que acompanha os últimos minutos de vida de uma pessoa em estado terminal em um hospital. Pesado!

    Pelos seus últimos textos, e essa sua escolha por músicas depressivas, lembrei de você na hora. ehehe

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 30, 2009 às 8:01 pm

    Estou com ele aqui, Felipe, mas sem muita coragem de ouvir.

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