Superoito e a questão do estacionamento

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O apartamento onde moro fica no final de um corredor longo e estreito. Hoje fiz o cálculo: do elevador à porta são quase 60 passos. Parece uma eternidade, um martírio, mas prefiro encarar a localização com algum otimismo. Meu quarto-e-sala fica grudado à lixeira do prédio (isto é: desovo minha bagunça quando e como bem entendo, de cueca amarela furada às três da madrugada, e tudo isso me dá uma sensação refrescante de liberdade), bem perto da saída de emergência (sou dos que preferem ficar bem perto das saídas de emergência) e, no mais, a caminhada até o elevador dá um belo de um exercício físico.

Gosto dele. Do corredor.

Morar no fundilho do prédio também traz outra vantagem: a janela da sala não dá para uma parede acinzentada, mas para a rua, para o horizonte, para o mais extraordinário e terrível vazio. Quando bato de frente com o cenário (tão plácido!), às vezes esqueço que vivo num cubículo. E isso melhora o meu dia, de alguma forma.

Quando me mudei para o apê, sem lenço e sem documento, pensei que seria só isso: eu e o apê, o apê e eu. Logo fui surpreendido por um elemento estranho: o vizinho.

Descobri num susto. Era sexta-feira, quase oito da manhã. O interfone tocou. E foi também aí quando descobri que eu tinha um interfone e, repare!, ele fazia barulho.

– É o Tiago?

– É. O Tiago.

– Está acordado?

– Um pouco.

– É da portaria. Parece que você bateu no carro do seu vizinho.

– Meu vizinho?

– O da frente. O seu vizinho da frente. Ele tem um carro preto. Parece que você bateu no carro preto do seu vizinho.

– Impossível.

E bati o interfone. Eu estava assustado. Meus sonhos são muito vívidos. Eu estava sonhando. Nada daquilo parecia real. Primeiro, um interfone. Depois, um vizinho. E um carro preto. Uma batida. Eu era o culpado. Eu era o culpado? A situação toda parecia extremamente irreal.

O interfone tocou novamente.

– Tiago, seu vizinho está na garagem. Ele mediu a batida com uma fita métrica e parece que foi você mesmo. Você bateu. Mesmo.

– Não lembro de ter batido em ninguém. Falo a verdade.

– Mas foi você. Eu desci até a garagem, eu vi a batida. Desci duas vezes. Foi você.

Em vez de prolongar a discussão, decidi vestir um trapo e ir à cena do crime. Eu realmente não lembrava de ter batido no carro de ninguém. As vagas da garagem são todas muito apertadas, mas sou cuidadoso.

Foi ali, naquela situação meio esdrúxula, que vi meu vizinho pela primeira vez. Um sujeito baixo, de rosto redondo, devia ter uns 28 anos, cabelo rigorosamente aparado e penteado para a direita. Usava uma camisa branca sem mangas por dentro da calça – e na camisa havia letras coloridas que formavam as palavras “Engenharia Mecânica”. Lembrei que eu nunca me dei bem com pessoas que usam camisa branca sem mangas por dentro da calça. Tomei aquele estranho como um inimigo e fui me irritando com ele pouco a pouco.

– Desculpe o incômodo, mas você bateu no meu carro.

– Eu bati no seu carro? Ontem é que não foi.

– Se não foi ontem, foi anteontem. Mas que bateu, bateu.

– E você vai provar?

– Veja. Aqui, uma fita métrica.

– Eu sei. Uma fita métrica.

– Então observe. A altura da batida no meu carro é exatamente a mesma desse arranhão aqui no seu carro (e, enquanto o sujeitinho explicava, eu só conseguia ler as palavras “Engenharia Mecânica”).

– Pode ter sido coincidência.

– Não pode. Olhe bem. O formato da batida. É redonda e pequena. Agora veja o arranhão no seu carro. É redondo e pequeno.

– Certo. Mas isso prova tudo?

– Isso prova tudo. A fita métrica. Você quer chamar a polícia?

– Não, óbvio que não. Polícia, meu deus. Entenda isso: eu não lembro de ter batido no seu carro. Não lembro. E você não me conhece. Não me conhece. Se você me conhecesse, saberia que não saio batendo nos carros dos meus vizinhos. Não sou desse tipo.

– Sei.

– É verdade.

– E então?

Decidi desistir da briga. Era manhã de sexta-feira, eu precisava vestir uma roupa decente e ir trabalhar.

– Olha… Você tem a prova de que eu bati. Eu não tenho provas de que não bati. Você venceu. Ponto seu. Leve o carro ao mecânico e veja o preço do conserto. Depois me ligue. No interfone. E é uma batida tão pequena que ninguém nem vê.

– É que comprei o carro mês passado e –

– Então faça o orçamento. Tem outra forma?

Ele guardou a fita métrica, provou o gostinho de uma vitória tola, deu um sorrisinho cruel e tudo o mais. Nesse momento, no entanto, notei que ele estava um pouco constrangido com a situação toda. Uma batida de nada, quase invisível, havia rendido uma discussão capaz de arruinar a relação entre dois vizinhos. Ficamos parados ali na garagem por alguns desconfortáveis minutos. Ele resolveu mudar de assunto. Mudar o tom. De thriller sanguinolento para um ameno buddy movie.

– Você mora aqui há muito tempo?

– Não. Poucos meses. Você?

– Dou aula. Engenharia.

– Certo. Certo.

– Que situação, hem?

– Pois é.

– Desculpe por ter ligado tão cedo, é que meu carro, o carro é novo, é meu, o meu carro, sabe como é…

– Sei como é. Tudo bem. Eu é que tenho que pedir desculpas. Bati no carro. Bati sem saber, mas bati. Acontece. Vivendo e aprendendo. E agora tenho que correr pro trabalho está tarde e outro dia a gente resolve tudo vai terminar bem vão consertar é só uma batidinha de nada você vai ver tchau e até mais prazer em conhecer abraço adeus.

Passei uns três meses sem falar com o meu vizinho. Falei com meus amigos sobre o vizinho, a camisa sem manga por dentro da calça, a fita métrica, a batida estupidamente minúscula, e eles acharam graça, que coisa, Tiago, que azar, que coisa, logo você, ninguém merece. Ele nunca comentou sobre o orçamento do conserto. Eu nunca perguntei. Ficamos assim. Outro dia, notei que ele recebia visita. Quando entrei no corredor, vi uma cena inusitada: o vizinho estava ao lado da lixeira, posando para uma foto, com a mãe e o pai e possivelmente a irmã de uns 16 anos. Notei que ele ficou envergonhado com a situação e tomei aquilo como uma espécie de vingança. Entrei no meu apê com um sorriso sádico pregado no meu rostinho diabólico.

O tempo passou. E, durante esse tempo, tentei contato com outros vizinhos. Mas é complicado. Não sei se isso acontece em outras cidades, mas existe em Brasília uma espécie de código social que dificulta as relações de vizinhança. É um estereótipo, sim, mas que sempre cercou a minha experiência brasiliense. Eu vivi o lugar-comum. Na pele. Desde que cheguei à cidade, aos 12, fiz amizade com pouquíssimos vizinhos. Um deles era um fã de heavy metal que me pedia para traduzir os versos do Iron Maiden. Ainda assim, era uma amizade apenas protocolar. Ele tentava me convencer de que a obra do Iron Maiden era uma forma superior de arte (eu fazia de conta que acreditava), eu tentava convencê-lo de que Billy Corgan era o messias (e ele fazia de conta que acreditava), e era isso.

Noto que, nesse ponto, nada mudou. Quando nos cruzamos no corredor, eu e meus vizinhos desviamos olhares, trocamos preguiçosos “ois” e respiramos fundo na torcida para que o elevador chegue rápido e nos livre do encontro incômodo com o desconhecido. Com o desconhecido que mora no apartamento ao lado. No prédio onde moro, não somos muito sociáveis. Não queremos ser incomodados. Somos terrivelmente individualistas e auto-suficientes. E estamos muito bem desse jeito, obrigado.

E poderia ser diferente?

Anteontem, por uma dessas coincidências que não significam coisa alguma, encontrei meu vizinho na garagem. Eu estava chegando de carro, ele também. O encontro seria inevitável. Pensei até em fazer um desvio, sair do prédio, tomar um sorvete e retornar em cinco, dez minutos. Mas decidi encarar a vida como ela é. Estacionei cuidadosamente o carro. Ele fez o mesmo. Acenei e ele, assustado, respondeu com um aceno desajeitado. Estávamos, veja isso!, nos comunicando – e desconfio que, com aqueles acenos típicos de uma vida social saudável, quebramos duas ou três regras definidas pela reunião do condomínio.

Eu tentei encerrar a aproximação ali. Saí do carro discretamente, abri a mala, tirei minha mochila e duas sacolas de supermercado. Notei que meu vizinho estava tirando do carro dele uma mochila e duas sacolas de supermercado. Percebi que a imagem do meu vizinho com uma mochila e duas sacolas de supermercado era um tanto patética, mas logo reparei que eu talvez parecesse igualmente patético. Fiquei um pouco perturbado com a comparação e apressei o passo para o elevador. Ele veio atrás. Apertei o botão do elevador com ansiedade. Mas o elevador não chegou e acabamos nós dois ali, eu e meu vizinho. Eu e o desconhecido. E o silêncio.

Eu devia ter feito um comentário engraçadinho. Mas não havia nada a comentar com o panaca que me acordou às oito da manhã por causa de uma batida idiota.

Para minha surpresa, ele resolveu puxar assunto.

– E então, está gostando de morar aqui?

– Sim, sim. Mais ou menos. Enfim. E você?

– É. Até que sim. É bom. É silencioso. É até muito bom.

– Mas aí vão construir o shopping e daqui a pouco…

– É. Vão construir o shopping e daqui a pouco…

O elevador chegou. Entramos.

– Dizem que o shopping fica pronto em novembro ou dezembro.

– Ouvi falar que é dezembro.

– Já disseram novembro.

– Vai ser um inferno.

E o corredor, longo que só ele. 60 passos.

– Vai ser um inferno.

– É. Vai ser um inferno.

– Vai ser um inferno.

20 passos. Na sacola de supermercado, ele levava alface e consegui notar umas latas amarelas de não-sei-o-que (talvez milho, ou mostarda).

– Só espero que resolvam a questão do estacionamento.

– A questão do estacionamento é importante. Espero que resolvam.

– Espero sim. A questão do estacionamento.

– Que resolvam a questão do estacionamento logo.

– É a mais importante.

Então chegamos. Nos despedimos sem deixar ganchos para próximos episódios. Com alívio. Estava encerrado o encontro. Um confronto difícil. Um épico de Hollywood. Mas nos saímos razoavelmente bem. Com palavras educadas e ocas, provamos para nós mesmos que podemos ser vizinhos até bastante civilizados. Em dois meses, estaremos jogando cartas e abrindo garrafas com os dentes na companhia de outros vizinhos educados e civilizados e tão ocos e tão desajeitados e tão trancados por dentro quanto eu e o desconhecido da porta à frente. Desmentimos a lenda urbana e fizemos de Brasília uma cidade calorosa, simpática e cortês. Viu só? Não é impossível.

No dia seguinte, quando eu estava prestes a sair para o trabalho, o interfone tocou. E tocou de novo. O barulho era mais estridente do que eu imaginava. Deixei tocar. Tocou de novo. Pensei em atender. Pensei duas vezes. O danado gritava. Num salto de dois metros, peguei minha mochila, arrumei meu cabelo, molhei as plantas, abri a janela (tão plácido!), meti a chave na porta. O bicho barulhento ficou gemendo na sala. Eu, que não sou bobo, parti.

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10 comentários em “Superoito e a questão do estacionamento

    guilherme disse:
    agosto 7, 2009 às 8:26 am

    digo isso de coração, mas acho difícil acreditar que alguém como você dirige por aí. não sei o porquê. na verdade, não é questão de dirigir bem ou mal, eu não acredito que v. dirija at all. isso não é demérito (eu não dirijo, eu me amo, faça as contas). só não te imagino guiando um volante. imagino o diego guiando um volante. ok, essa é a 1a vez que imagino o diego guiando o volante, ele parece bom motorista, agora deu vontade de apagar tudo isso.

    seu porteiro é uma boa criação (“Parece que você bateu no carro do seu vizinho.”)

    e, i’m stupid, mas não entendi. por que você confessou que bateu no carro? impaciência porque tinha que trabalhar, simpatia ao inimigo? decepcionante. você baixou a guarda cedo demais. aliás, esse é o clássico texto baixa-guarda, todo cinza. pelo menos você teve colhões pra encarar seu vizinho 3 meses depois. que confronto.

    adoro a repetição circular dos diálogos. você escreve bem. é bom atender ao interfone, o porteiro pode te trazer notícias como “tá vazando gás” ou “seu vizinho tá saindo de casa, espere 5 minutos”.

    comprei franny. abraço.

    Renan disse:
    agosto 7, 2009 às 9:51 am

    O “longo e estreito corredor” de um andar de apartamentos… As vidas, os pequenos-grandes mundos em seus apês compactos (ou espaçosos). O vizinho…Que personagem, Tiago!

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 7, 2009 às 10:38 am

    Guilherme, é muito complicado viver nesta cidade sem dirigir. Não é como no Rio ou em SP. O sistema de transporte público é um lixo e há lugares onde os ônibus simplesmente não chegam. O jeito é tirar carteira (e não sou tão favorável à ideia de gastar uma fortuna com meu carro). E sim, este é um texto baixa-guarda. Acho que você entendeu o que eu queria dizer.

    Renan, pois é. A ideia do texto era contar como esse vizinho está me inspirando a escrever um personagem de ficção (ainda que a história narrada no post seja toda real). Mas ficou grande demais, não deu espaço pra chegar até lá.

    rafagoom disse:
    agosto 8, 2009 às 3:17 am

    Você tem a capacidade de externar o que tenho preguiça de! Passo um certo tempo em trens e metrôs e há no mínimo duas pessoas que acompanho a vida. Uma um desafeto (e sim, não sei nem o nome, mas pelas características físicas já é meu inimigo… além de ter furado a fila do bilhete. inadmissível), e a outra é uma garota linda, mas com um rosto meio sofrido. Já fiz alguns rascunhos sobre as vidas deles, lógico, inventadas, mas prefiro guardar pra mim. Um erro.
    Continue a escrever sobre o vizinho!

    Tiago respondido:
    agosto 8, 2009 às 6:34 pm

    Rafael, você devia escrever sobre eles.

    No meu caso, o texto é mais sobre mim que sobre o vizinho. Bottom line: o estranho sou eu.

    Alê Marucci disse:
    agosto 9, 2009 às 11:12 pm

    Vizinhos rendem boas histórias. Evito a maioria dos meus sempre que posso. Principalmente a vizinha ao lado, que é aquele tipo de gente que chamamos de boa, mas que adora se meter na minha vida, como quando observa que eu não estou regando as plantas da varanda como deveria.
    Beijo.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 10, 2009 às 2:46 am

    Meus vizinhos até dizem “oi”, mas muito a contragosto.

    riquemiura disse:
    agosto 12, 2009 às 7:19 pm

    Sorte que não moro mais em apartamento e agora não preciso passar por esses tipos de situações.

    O máximo agora é estar saindo de casa, a vizinha idosa estar no portão e dizer um bom dia ou um oi e alegrar a senhorinha pelo resto do dia.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 12, 2009 às 7:48 pm

    Um comentário do Henrique. Isso é raro. Vou imprimir.

    Leo disse:
    agosto 29, 2009 às 4:10 am

    Só tenho que dizer que vc escreve bem para cara*…

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