Superoito express (10)

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Ou: por que a crise da indústria musical é um tédio.

Lines, vines and trying times | Jonas Brothers | 4 | E a triste história vai assim: Nick, Joe e Kevin eram três adolescentes ingênuos e serelepes que, apesar de bastante satisfeitos com o confinamento numa interminável sitcom do Disney Channel, ouviram os conselhos dos executivos errados e resolveram… bem, resolveram crescer. O resultado dessa jogada comercial meio apressada é um disco que soa como um longo, aborrecido especial da VH1. Eu, que gosto do power pop abertamente juvenil de A little bit longer, não passei da terceira audição. O excesso de sopros e teclados nos leva a um canto dos anos 1980 que deveria permanecer (para sempre) pouco iluminado. E não sei ainda o que o rap Don’t charge me for the crime embaça mais: a carreira dos Brothers, a reputação de Common ou todo o staff incompetente da Hollywood Records (um galho da Universal, vale lembrar)? Meu conselho: continuem imaturos.   

Music for men | Gossip | 5.5 | Não vou negar o carisma de Beth Ditto, uma band leader que me parece imensa em absolutamente todos os sentidos. Mas, por aqui, o Gossip continua soando como aquela banda do single espetacular (quando decidirem que você deve pagar mico como DJ, vá por mim e não esqueça de Standing in the way of control) e de álbuns inconsistentes. Este é o mais frágil de todos, e uma típica estréia em grande gravadora: a produção de Rick Rubin lima o descontrole que coloria o som do trio, agora sem as arestas punk e atado a um formato glam dançante e “sensual”  (entre aspas mesmo, já que a coisa toda soa mais fria que a morte). O primeiro single, Heavy cross, é uma diluição de Standing in the way of control — uma estratégia bem comum entre novatos amedrontados com a indústria. Nossa sorte é que a Columbia ainda não conseguiu submeter Ditto a uma dieta radical de carboidratos — ela (e pelo menos ela!) segue em forma.

Love vs. money | The-Dream | 6 | O melhor álbum desta listinha deprimente (e o único que recomendo a vocês, ainda que sem muito entusiasmo) é o novo projeto conceitual do produtor de Umbrella, também conhecido como Terius Hagert Youngdell Nash. Ao lado de convidados como Kanye West e Mariah Carey, The-Dream narra um palpitante melodrama pop sobre as tantas e doloridas maneiras como o dinheiro mata o amor e o amor é maior que o dinheiro e o dinheiro não compra o amor e o amor sem dinheiro vale mais que dinheiro sem amor. Etc. Um tanto monotemático, certo? Mas a crítica mainstream adora (e dá até pena ver revistas que já foram consideradas relevantes transformando o Jonas Brothers ou a Lady Gaga em artistas respeitáveis, mas este é o nosso mundo) e eu entendo o porquê do falatório: se o pop anda em busca de um salvador da pátria (e vamos lembrar que Michael Jackson já havia nos deixado há uns bons 30 anos, ok?), The-Dream parece uma opção até razoável. Ele tem tino para a melodia (Right side of my brain é um baita algodão-doce) e é um romântico incurável. Tem muito dinheiro, certo. Mas canta o amor com certa franqueza (na medida do possível — este é um disco da Def Jam). Meu voto é dele.

The fame | Lady Gaga | 4.5 | Ah, sério?  Quando descobri que a Nova Musa do Pop era aquela que cantava praticamente todos os cinco hits vagabundos que rodam incessantamente nas academias de ginástica e estações FM (e descobri tarde, mas não perdi quase nada), fiquei com saudades dos momentos mais açucarados da Kylie Minogue. Há quem encontre influências de David Bowie e Queen, mas suspeito que elas tenham contribuído mais para a performance da moça e menos para a sonoridade de um disco que dilui a cartilha do electropop (letras sacanas e engraçadinhas sobre celebridades lindas, sujas e ricas) num modelito pop “para pistas” que não machuca ninguém. Provavelmente eu deveria ouvir mais vezes, mas prefiro acreditar que o delírio coletivo vai acabar passando e, em dois anos, todo mundo estará novamente mais interessado no novo da Madonna.

Wait for me | Moby | 5 | Por último, um disco que soa como uma coletânea de bonus tracks. Pobre Moby: hoje em dia, a grande ambição do sujeito é fazer um álbum mais ou menos parecido com Play. Engraçado ler a chamada da Folha de S. Paulo: “no novo disco, Moby mistura eletrônica com soul music”. E não é o que ele sempre fez? Um editor mais honesto pouparia o eufemismo e lascaria logo: “no novo disco, Moby mistura seus discos mais recentes com os discos que gravou há algum tempo”. É mais ou menos por aí: um projeto mais introspectivo e caseiro que os anteriores (ok, melhor que os anteriores), mas tão óbvio e aguado quanto tudo o que ele lançou desde Play. Uma pena, já que o primeiro single (a instrumental e sombria Shot in the back of the head) sugeria um desvio de rota. Não é bem isso. Na verdade, é quase nada.

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5 comentários em “Superoito express (10)

    Felipe Queiroz disse:
    julho 9, 2009 às 4:49 am

    Como você conseguiu sobreviver depois de escutar tudo isso?
    Garanto que você não irá resistir se ouvir o novo do Placebo…

    Tiago Superoito respondido:
    julho 9, 2009 às 12:40 pm

    Meu desânimo com o blog deve ter vindo daí, Felipe.

    daniel pilon disse:
    julho 9, 2009 às 9:40 pm

    Comente discos antigos, quem sabe você volta a se animar.

    Eu parei de ouvir todo e qualquer lançamento e estou tirando (várias) pendências passadas. Tô preferindo assim.

    Ah, quanto aos discos do post, não escutei nenhum. E nem devo, hehe.

    Alê Marucci disse:
    julho 11, 2009 às 3:48 pm

    É, nada dessa lista me entusiasma a dar uma conferida, não. Prefiro continuar na contra-mão e bater no peito ao dizer que nem sei quem é Lady Gaga.
    Em compensação, graças a um texto seu, baixei o “I’m Going Away”, do The Fiery Furnaces, e estou amando.

    Pedro K. disse:
    maio 23, 2010 às 10:05 pm

    Adorei o seu blog, acabei de conhece-lo e achei bem interessante. Não consigo parar de ler as suas resenhas.

    E, by the way, gosto de Lady Gaga. Acho uma artista curiosa que ainda vai render bons frutos.

    Abraços!

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