Hombre lobo | Eels

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eelsEntendo Mark Oliver Everett. Depois de virar a alma pelo avesso em álbuns tortuosos de tão confessionais, escrever ficção pode funcionar como uma excelente válvula de escape. Hombre lobo, numa primeira audição, soa como uma colônia de férias para Mr. Eels.

O álbum é a biografia de um personagem criado por Everett na canção Dog faced boy, do álbum Souljacker. Um homem excêntrico, escondido em tufos de barba, que provoca estranheza por onde passa. Um lobisomem americano, um monstro do cotidiano. Uma besta humana. Um outsider.

Em torno do protagonista, há o conceito do disco: 12 canções sobre o desejo. “Eu não queria escrever sobre um velho roqueiro indie resmungão. Pensei que seria mais interessante criar um personagem”, escreveu Everett.

Quem conhece o Eels sabe que esse distanciamento nada mais é que uma reação aos melhores álbuns que Everett gravou: Beautiful freak, Electro-shock blues e Blinking lights and other revelations. Todos eles narrados radicalmente em primeira pessoa. É como se, com as regrinhas conceituais de Hombre lobo, o compositor se desafiasse a abandonar as barras de segurança. Novas aventuras.

Nas melodias, o que noto é uma relação de contraste entre a sonoridade predominante do disco (um blues-rock ruidoso, áspero, que nos leva à fase Souljacker) e as canções de ninar doloridas — pesadelos de criança pequena — que costumamos associar à banda. O álbum alterna a seco essas duas facetas de Everett — In my dreams e All the beautiful things, por exemplo, poderiam estar no disco anterior.

Admiro o esforço. Em tese, é um álbum corajoso, que tenta novos caminhos para uma banda que já começava a andar em círculos. Há um desejo de economia no interior de canções como The look you give that guy e Fresh blood que as aproximam de um Spoon, por exemplo. São absolutamente precisas, talvez as mais maduras da discografia da banda.

Na prática, porém, a ficção confunde-se com os dramas de Everett, com contos sobre rejeição, crises de auto-estima, amores platônicos e sonhos agoniados — e o resultado é exatamente o caldo meio-amargo que esperamos de um álbum do Eels. Soa como uma compilação formada por faixas de Blinking lights e Souljacker. E aí prefiro a franqueza dos diários de Everett — desajeitados, sim, mas que graça existe no pop perfeito?

Sétimo álbum do Eels. 12 faixas, com produção de Mark Oliver Everett. E Works/Vagrant Records. 6.5/10

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