Os falsários

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counterfeiters

Die fälscher/The counterfeiters, 2007. De Stefan Ruzowitzky. Com Karl Markovics, August Diehl e David Striesow. 98min. 5.5/10

Vi Os falsários ontem pela manhã acompanhado de três adoráveis senhoras que frequentam religiosamente as sessões de cinema organizadas para a imprensa.

Conheço o trio de sexagenárias suficientemente bem: elas gostam de 90% dos filmes a que assistem. Rejeitam furiosamente os 10% que contêm sexo explícito ou cenas grotescas de violência — mas fazem questão de ver até esses, sabe-se lá por que razão misteriosa.

Uma delas fazia 61 anos naquela segunda-feira. O clima estava especialmente agradável. Levaram bolo e, numa garrafa térmica, chá de camomila. “Cinema até no dia do aniversário, é?”, perguntei, irritadiço. “Cinema é meu maior presente”, ela respondeu, delicadamente. Fiquei desconcertado.

Nós costumamos discutir muito sobre filmes. Eu interpreto o papel do rapazinho imaturo e emburrado, que encontra defeito em tudo. Elas atuam como as generosas espectadoras que (coração do tamanho de um balão!) encontram comoventes lições de vida nos filmes do Moacyr Góes. Nos damos bem — quando não estamos nos mordendo feito cachorros. Quando com sono, sou insuportável. As sessões geralmente ocorrem às dez da manhã.

Os falsários, que não contém sexo explícito nem cenas grotescas de violência, agradou ao trio. Elas saíram felizes da sala de exibição. Satisfeitas, como costuma acontecer. Eu, ainda metido numa espécie de bloqueio que me impede de escrever decentemente sobre filmes, sugeri que elas criassem três textos para este blog sobre o longa-metragem que venceu o Oscar de filme estrangeiro em 2008. Blogs não devem ficar parados por muito tempo.

Elas rejeitaram a proposta.

— Não sei escrever nem receita de bolo, meu filho — a mais sincera comentou.

Teimoso, pedi então que elas simplesmente falassem sobre o filme. Eu gravaria a nossa conversa e transcreveria os comentários em forma de parágrafos. Novamente, elas não aceitaram. Tinham medo de passar vergonha num mundo virtual complicado, uma rede de computadores malvados e frios. “Já me basta bater boca com minha neta sobre tecnologia”, ouvi dizerem. Pronunciaram a palavra “tecnologia” como quem diz “astrofísica” ou “paralelepípedo”. Um palavrão. Ficamos assim. Nada de gravação. “Mas posso escrever sobre nosso debate?”

Concordaram.

E aqui transcrevo trechos embaçados daquilo que talvez tenha sido dito no fim da sessão (já se passou um dia e minha memória é curta). Antes, uma breve sinopse do filme: Os falsários, produção alemã dirigida por um austríaco, resgata um episódio histórico inusitado que ocorreu no final da Segunda Guerra Mundial. Com a intenção de salvar uma economia em colapso, oficiais nazistas convocaram judeus talentosos para fabricar notas falsas de dinheiro. O plano funcionou por poucos anos, mas foi o suficiente para entrar na história como o maior esquema de falsificação de todos os tempos. O ator principal, Karl Markovics, interpreta o maior falsário judeu do planeta — ou algo do gênero.

VOVÓ 1: O Oscar escolhe filmes com histórias bonitas e eu já sabia que esse –

VOVÓ 2 (interrompendo): Filmes sensíveis.

VOVÓ 1: É. Sensíveis.

VOVÓ 2: E importantes.

(30 ou 40 segundos de silêncio)

VOVÓ 1: Eu sei que você quer ver arte, Tiago. Você quer ver arte, essas coisas que você escreve no jornal. Mas não é. Não é o –

VOVÓ 2 (interrompendo): Não é o mais importante.

VOVÓ 1: É importante, mas a história vem na frente. Você às vezes passa por cima disso.

VOVÓ 3 (que estava quieta até então): Você vê o cinema de uma forma diferente e eu sei bem o que você está pensando.

EU: No que estou pensando?

VOVÓ 3: Que somos um bando de velhinhas ignorantes.

EU: Isso não passou pela minha cabeça. Quero saber o que vocês acharam do filme.

VOVÓ 3: O filme é isso aí que você viu, meu filho.

EU: Eu sei. Sejam mais específicas.

VOVÓ 1: É um drama histórico, um filme de época, sobre uma coisa importante. Um filme sobre o nazismo. Sobre judeus que foram obrigados a colaborar com o nazismo. Imagina isso.

VOVÓ 2: É impressionante, né não?

VOVÓ 1: É uma coisa!

EU: Eu sei, mas isso é o suficiente? A trama do filme?

VOVÓ 1: É.

VOVÓ 2: É.

VOVÓ 3: No caso, é.

EU: Então tudo bem.

VOVÓ 1: Não somos burras.

EU: Eu sei.

VOVÓ 3: Meu filho, você cobra demais dos filmes. Um filme é um filme. Um filme às vezes não quer muita coisa. Esse aí quer contar uma história que aconteceu e pouca gente conhece. Não é aquela cooooisa que você chama de arte. Não é David Lynch, entende?

EU: Não é David Lynch.

VOVÓ 3: Não é arte! Eu vejo filme há uns cinquenta anos e sei a diferença.

EU: E por que você vê filmes?

VOVÓ 3: Não dá pra explicar.

EU: Não quer tentar?

VOVÓ 3: Tem a ver com a história, eu acho. Essas coisas. Cada filme é diferente. E discutir filme é que nem discutir religião. Não dá em nada. Nunca deu em nada.

VOVÓ 1: O que você achou do filme, Tiago?

EU: Não sei ainda. Tenho que pensar.

VOVÓ 1: Sem pensar, o que você achou?

EU: Eu gostei. Um pouco. (Silêncio) É um caso bastante curioso, e nisso concordo com vocês. É um episódio de Além da imaginação no holocausto. Mas… Muitas vezes, quando vou ao cinema, me sinto soterrado por filmes medíocres sobre temas importantes. Filmes que poderiam ser panfletos ou programas de rádio ou canções de protesto porcamente produzidas. O tema me interessa. O filme não me interessa tanto assim.

VOVÓ 1: Não é um filme medíocre, Tiago.

EU: É medíocre. A câmera treme gratuitamente o tempo todo, a fotografia é aquele cinza banal, o diretor se faz refém de um roteiro que é, no máximo, correto, convencional. O filme tem personagens ambíguos, sim, talvez isso conte como um acerto. Trata de dilemas morais. O ator é muito bom. Mas, pra mim, só prova que o Oscar está interessado em episódios históricos obscuros, de preferência ambientados na Segunda Guerra Mundial. Nada além disso. Fico impressionado como vocês, que assistem filmes há meio século ou algo assim, não conseguem se sentir irritadas com isso. Eu comecei há uns 18 anos e já me sinto um velho!

(Silêncio profundo)

VOVÓ 1: Vamos cortar o bolo?

EU: Eu não queria incom –

VOVÓ 3 (interrompendo): Não incomodou, Tiago.

VOVÓ 1: Vamos cortar o bolo.

VOVÓ 2: É de chocolate amargo. O recheio é de morango.

Cortamos o bolo. Nesse caso, concordamos: estava delicioso. Nos despedimos com sorrisos: muitos anos de vida! Fiquei sozinho por um tempo. Quantos filmes elas já assistiram? Será que elas fazem a conta? Do que elas verdadeiramente gostam quando vão ao cinema? No caminho de volta, eu era um menino com as bochechas sujas de glacê.

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9 comentários em “Os falsários

    guilherme disse:
    maio 27, 2009 às 3:04 pm

    delightful, meu caro. se mais bloqueios criativos fossem assim, maoê, que felicidade.

    Diego disse:
    maio 27, 2009 às 4:02 pm

    Um dos seus melhores textos, hands down.

    Ri alto com isso:

    “VOVÓ 3: O filme é isso aí que você viu, meu filho.”

    Arruda disse:
    maio 27, 2009 às 4:38 pm

    Depois de um post destes, só há uma palavra possível: obrigado!

    (e nem vou falar das tags do passado recente deste blogue, todas sensacionais)

    Tiago Superoito respondido:
    maio 27, 2009 às 6:52 pm

    Obrigado digo eu, Arruda. Nessa altura, é muito legal saber que há quem leia esses textos confusos. O blog está se transformando num bloco de rascunhos meio bagunçado. Que ninguém leve muito a sério…

    Diego, valeu. Mas, se esse post é dos melhores, estou perdido, haha.

    Guilherme, obrigado.

    Carmen disse:
    maio 27, 2009 às 9:53 pm

    Houve uma época em que as pessoas gostavam de bater-papo, ouvir rádio, ir ao cinema e ao teatro, além de ler livros e revistas (poucas existiam). O cinema era uma coisa especial e cada progresso técnico era comemorado com longas filas para compra de ingresso. Imaginem o primeiro filme em tecnicolor, cinemascope, e outros avanços. Quem tem mais idade, pôde acompanhar tudo isso e curtir muito a evolução. É a própria história do cinema que vem de uma época em que saber contar uma história, em palavras ou imagens e até em sons (rádio) era o que havia de melhor. Portanto, o cinema é isso: contar (de preferência bem) uma história. Se arte, inovação, talentos especiais, diretores, atores excelentes estiverem junto, que belo bolo de chocolate com morango….
    Recado para as avós: elas também podem curtir um computador…

    Tiago Superoito respondido:
    maio 27, 2009 às 9:56 pm

    (E viva a inclusão digital)

    Henrique disse:
    maio 28, 2009 às 3:13 pm

    Tradução perfeita do que é gostar de cinema e ter que ver gente dizendo que Se eu fosse você 2 é o melhor filme do ano porque é “engraçado e divertido”.

    Aí você pega, diz que é uma bosta, fala meia dúzia de palavras que ninguém dá bola, e pega a fama de chato da história.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 28, 2009 às 3:18 pm

    TAMBÉM pode ser interpretado dessa forma, Henrique. Mas espero que o post tenha parecido um pouco mais confuso que isso.

    O que me interessa, cada vez mais, é observar como as pessoas percebem o cinema. Conheço uma garota que escolhe os filmes pelo cartaz – só vê os filmes que têm pôsteres coloridíssimos. Pra mim, esse tipo de coisa é impressionante.

    Carlos disse:
    dezembro 2, 2011 às 10:25 pm

    Acho que cheguei quase três anos atrasado da publicação desta postagem, mas tem problema não, o que eu queria era a sinopse do filme antes de assistir, e o que consegui foi algo muito melhor.

    Valeu Tiago! Muito bom cara!

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