Superoito não mora mais aqui

Postado em Atualizado em

270420091011

(O horizonte na janela do meu apartamento: things they are a-changing)

Sair da casa dos pais, dizem, é um rito de passagem. Um daqueles episódios que modelam o futuro. O primeiro capítulo do resto de nossas vidas. Não? Quase seis meses transcorreram desde o dia em que levei meu colchão, minhas roupas e a tevê para o pequeno apartamento onde durmo quase todas as noites. Seis meses – e, apesar de saber perfeitamente que passei por uma espécie de teste importantíssimo, ainda não consigo avaliar minha performance. A estranha impressão é de que tudo, de alguma forma, mudou. Só não entendo exatamente como.

Há algumas perguntas recorrentes, que interrompem meus pesadelos e martelam alfinetes na minha consciência: como me saí nessa prova? Qual foi o resultado? Fui aprovado? Está tudo ok? Mais importante: se me transformei numa pessoa diferente, quem é ela?

Aparentemente (e surpreendentemente), deu certo. Com o devido distanciamento, sou capaz de reconhecer que cumpri algumas etapas corretamente e que, num período reduzido de tempo e aos olhos invisíveis do mundo, eu tenha finalmente me transformado num cidadão adulto e independente. É esta a versão oficial dos fatos: pago todas as minha contas, compro alimentos e produtos de higiene, lido com impostos e taxas, organizo compromissos, cultivo minha vida social e (um pequeno passo para o homem) estou a alguns minutos de virar sócio na videolocadora da quadra.

Falta plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Mas são detalhes. E quem lê livros, afinal?

Para mim, ainda parece incrível imaginar que, há um ano, nada disso parecia plausível. Durante minha adolescência, rejeitei conscientemente as expectativas e os hábitos do cidadão comum. Revoltei-me contra adultos metódicos, conformam com rotinas medíocres. Contra indivíduos sorridentes que, felizes com pouco, contentam-se com empregos maçantes. Deixam-se massacrar pela burocraria. E ainda assim casam-se, têm meninos fedorentos e com eles visitam o zoológico. Eu não os compreendia. Eu não me enxergava neles. A idade adulta parecia apenas entediante e aborrecida: uma infinidade de obrigações que não dão em nada. Muito trabalho, nenhuma diversão.

Talvez por isso eu tenha imaginado que viveria até os 25 anos de idade. Seria o suficiente. Aos 26, me vi sem um plano B. Aos 29, olhei no espelho e notei um adolescente desbotado. Era hora de mudar.

Conheço algumas pessoas que também nasceram no final dos anos 70 e, como eu, viveram sem a necessidade ou a angústia de pensar no futuro – até o momento em que o futuro bateu à porta. Possivelmente faça parte de uma doença geracional: uma resistência quase irracional à idéia de abandonar o ninho. Sabemos que algo está errado, mas não queremos saber. Entendemos a necessidade de seguirmos em frente, mas não entendemos por que. E assim vamos: presos à barra da saia de mães superprotetoras, no aparente conforto de um lar que nos oferece segurança e, como contrapartida, poda nossa liberdade e nos cobra obediência a regras infanto-juvenis. Queremos sair de casa. Mas não queremos.

Desde quando me mudei, virei uma espécie de guru para esse tipo de incerteza. Eu, que pensava ter sido o último solteiro da cidade a alugar uma quitinete, me vi cercado por pessoas em crise, cheias de dúvidas. Pessoas que trabalham, recebem salários razoáveis, freqüentam restaurantes bacanas, gastam uma fortuna com o combo do Cinemark mas, ainda assim, não sabem direito se estão aptas ao Grande Passo. Qual o momento certo?

A elas, só tenho a minha versão da experiência – ainda nebulosa. Não sei muito bem o que aconselhar (e, no mais, este não é um blog de autoajuda), mas compreendo esse tipo de cobrança. Para quem está longe do furacão, o drama pode parecer ridículo, insignificante. Tai você, zombando: “eu me mudei aos 12 anos para um cortiço, quando aprendi a conviver com estivadores e estelionatários: quem quer papo com essa gente imatura?” Para quem está metido lá dentro, é como desbravar uma selva sob ameaça de mães inconsoláveis, chantagens sentimentais, insegurança financeira, aluguéis caríssimos, filas de supermercado, IPTU, vizinhos rabugentos e medo de ter abandonado cedo demais os sonhos de juventude.

Eu, que não sou o superman, também sofri essa trama diabólica. Mas saí vivo e forte. Pergunto-me como.

Para variar, não vou me fazer de vítima: foi até fácil, sabe? Como arrancar um dente de leite. Não há entretenimento no processo de lidar com a papelada do aluguel do apartamento, e organizar as contas com alguma eficiência também leva um certo tempo. Mas, com dois ou três meses, nada disso passa a irritar. Quer dizer: a menos que a operadora de tevê a cabo vá à falência e o obrigue a comprar o pacote de uma concorrente acostumada a preços abusivos. Acontece. Mas é uma questão de saber definir uma margem de risco para absolutamente todas as situações do dia-a-dia. E lidar com autocontrole. Troquei os DVDs pelos livros. Cortei viagens. Não fui ao Coachella (ok, não iria mesmo). Há noites em que passo fome. Perdi cinco quilos. E não consigo reclamar de nada disso.

O que mais mudou na minha rotina não tem a ver com dinheiro, mas com relações familiares. Foi o grande baque. A maior ruptura. Talvez a aventura definitiva. Nesse ponto, tudo está diferente, e não tenho condições de prever o desenrolar da história. Quando me perguntam sobre o impacto da mudança, respondo de imediato: ganhei uma outra família. Note a confusão: eu, uma outra pessoa, ganhei uma outra família. Devo marcar terapia?

Se bem que, descubro lentamente, a boa nova tem um quê de maldição. Não é simples acostumar-se a um núcleo familiar renovado, e a primeira sensação é de que aquelas pessoas que você conhece intimamente não vivem mais com você (reparem que é uma sensação ao mesmo tempo óbvia e profunda). Você é uma visita querida, recebida com sorrisos e regalias. Ao mesmo tempo, você não está lá.

Desde que minha mãe passou a me receber com um generoso tapete vermelho (e toneladas de chocolate), não consigo encarar esse cenário sem dar algumas risadas. Parece que trocaram a aquela mulher por um robô adorável, programado para me agradar. E que, reparem a sofisticação da tecnologia, me telefona algumas vezes por semana para massagear meu ego e me perguntar se está tudo bem. O único defeito de fabricação é que, depois de duas ou três horas de visita, a andróide passa a lamentar a ausência do filho. Às vezes se tranca no quarto. Chora silenciosamente enquanto prepara o pudim.

Passei pela fase em que a distância da família parecia o paraíso. Ok, eu sei, tudo mundo vive esse tipo de coisa e eu devia estar escrevendo sobre o novo álbum do Bob Dylan. Mas veja: até meu padrasto, que não é de muita conversa, me recebia com análises demoradas sobre as principais notícias da semana. Minha irmã, que quase me trucidou com uma faca de cozinha quando eu tinha 14 anos de idade, faz convites graciosos para tocarmos violão e cantarmos canções bobinhas que escrevemos juntos quando éramos pequenos. Até meus cachorros parecem especialmente gentis. Eles sentem minha falta e, mais importante, querem demonstrar isso.

Levou quatro, quase cinco meses para que eu sentisse o empurrão. O susto. Depois de um período de intensa felicidade, me descobri afastado da minha família de uma forma que talvez nunca conseguirei entender. O que aconteceu? Quem deu permissão para que cortassem as cordas que me prendiam ao teto do teatro? Cumpro com afinco a rotina de visitas nos fins de semana, telefono e pergunto por novidades. Ainda assim, é como se eu não participasse ativamente de nada. No tempo em que levei para me acostumar com a ausência da minha família, eles se acostumaram com meu desaparecimento. E decidiram continuar vivendo, corajosamente.

É, veja bem, quase uma idéia de morte. Mais ou menos quando encerramos um longo caso amoroso.

Às pessoas perturbadas pela idéia de mudar-se de casa, evito comentar que existe sim uma conseqüência desagradável para essa saga: mesmo quando não se quer notar, você assina um contrato com a solidão. Ela estará lá, de qualquer jeito. Não haverá como evitar. De madrugada, quando todos os ruídos parecem bombas nucleares. Na estrada que nos leva de volta à casa, depois de um domingo em família. Principalmente quando nosso cérebro começar a tecer prognósticos de um futuro que parece assustadoramente indefinido, incompleto. Diante dele, estamos sós. Com os ruídos. Um apartamento vazio. E ninguém mais para nos guiar pela mão.

Pode ser que aí esteja a resposta para a pergunta que nos atormenta: o que vamos ser quando finalmente crescermos? Um pouco mais solitários, possivelmente. Mas com a esperança tranquila de que, um dia, já perfeitamente curados, conseguiremos lidar com esse e outros tipos de aflição. De uma forma adulta. E sem drama.

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10 comentários em “Superoito não mora mais aqui

    Diego Maia disse:
    abril 27, 2009 às 10:46 pm

    A aflição não passa e, em alguns dias, tudo o que você quer era ter ficado mais uma noite na casa da mãe. Mas sim, você aprende a lidar com ela.

    (chorei de rir com as tags)

    Tiago Superoito respondido:
    abril 27, 2009 às 10:57 pm

    Vamos ver.

    Alê Marucci disse:
    abril 28, 2009 às 1:42 am

    Saí de casa aos 25. Lá se vão 7 anos. A única coisa realmente dolorosa, pra mim, foi a tristeza de meus pais. Minha mãe, dias depois de minha mudança, disse que meu pai chorou se perguntando onde eles teriam errado, como se minha saída de casa fosse culpa deles. Isso me dilacerou.
    Acho que hoje eles entendem que minha saída foi uma escolha que nada teve a ver com meu relacionamento com eles, que sempre foi ótimo. Mas, confesso, ficou ainda melhor depois da mudança. Até hoje, quando vou pra casa deles, estendem-me o tapete vermelho. E olha que eu, assim como você, faço minhas visitas semanalmente.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 28, 2009 às 3:12 am

    Comigo não ficou um clima tão pesado, Alê, mas minha mãe sofreu bastante e até hoje sinto que ela ainda tenta entender o que está acontecendo (e provavelmente acredita que a situação vai se reverter a qualquer momento, haha).

    Gustavo disse:
    abril 28, 2009 às 4:32 am

    Eu já sai uma vez de casa e tive que voltar. Agora não vejo a hora de sair novamente.

    Mat disse:
    abril 28, 2009 às 3:58 pm

    Outra saga é aquela em q vc sai de casa por um motivo socialmente aceito (passei no vestibular em outra cidade). Aí vive 5 anos sozinho e depois arranja emprego na cidade dos seus pais novamente, na cidade onde vc cresceu. E aí vem a decisão: morar sozinho e encarar esta decisão frente aos pais ou morar com eles? Voltei a morar com eles com o discurso de que não vale a pena pagar aluguel na msm cidade dos pais quando na verdade na verdade fiz todo este movimento para resolver questões nas relações pai/mãe que ficam.. e agora, 4 anos após o retorno, vejo que está na hora de sair e de sair com o peito erguido de falar “Mãe, Pai, eu amo tanto “X” vcs e eu quero sair de casa”
    O “X” não sei ainda se é “por isso” ou “mas””
    Mas é assim que acontece. E mesmo ainda morando com eles, sinto como se aquilo tudo não me pertencesse mais. Como se meu quarto de infância não é mais meu quarto mas sim um quarto de hóspede.

    Desconectamos, choramos, sobrevivemos, as vezes nos desesperamos, outras vezes sorrimos.. mas voltar atrás quase ninguém quer…

    Mat disse:
    abril 28, 2009 às 4:01 pm

    errata de um trabalhor com pressa:
    1) o “X” deveria estar depois do “vcs” e não do “tanto” e a frase deveria ser:
    “Mãe, Pai, eu amo tanto vcs “X” eu quero sair de casa”
    hahahahahahaha

    2) Algumas ligações deveriam ser melhores detalhadas, mas escrever tudo demoraria muito (por ex: pq realmente não morei sozinho (medo de enfrentar pai e mae))

    Tiago Superoito respondido:
    abril 28, 2009 às 4:01 pm

    Pois é, Mat, essa é outra saga. Voltar atrás realmente é complicado. Não me imagino de volta à casa dos meus pais.

    Daniela disse:
    abril 30, 2009 às 12:52 am

    Olá. Faz tempo que leio seus textos e hoje resolvi compartilhar minha experiência a partir do teu texto.

    Quando eu saí de casa eu me sentia deslocada, tinha ido morar com um namorado. Não conseguia ficar sem ligar para minha mãe todos os dias. Exigia a presença dela pelo menos uma vez por semana. Me sentia só, mesmo acompanhada.

    Quando a coisa não deu certo e o dinheiro não foi suficiente para manter uma vida sólo, apelei para a família e voltei para a barra da saia da mãe.

    Acho que não era a hora, sabe.

    Hoje penso em arriscar de novo. Mas aprendi com os erros e sei que para um vôo sólo é preciso criar asas. Minhas asas ainda estão pequenas, frágeis e imaturas. No auge dos meus 25 anos eu ainda não tenho um emprego estável que propicie uma independência financeira. Esse é meu maior empecilho atualmente.

    Mas a vontade permanece.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 30, 2009 às 2:08 am

    Pois é, Daniela, acho que o meu maior medo ainda é esse: não ter condições de me sustentar. E é um temor recorrente. Hoje, por exemplo, olhei meu saldo e pensei: se acontecer um imprevisto muito grande, vai ser quase impossível cumprir os compromissos do mês… Enfim. É uma situação meio tensa, e acho que as coisas vão continuar assim por um tempo.

    Não quero retornar para a casa dos meus pais, ainda que, num caso como o seu, eu provavelmente voltaria. Mas eu só decidi morar sozinho quando me senti seguro (também financeiramente) para dar o passo. Caso contrário, eu esperaria um pouco mais.

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