Zii e zie | Caetano Veloso

Postado em Atualizado em

zii1Confesso que não li, não leio o blog do Caetano. Não sou de blogs.

Não. Sinceramente, odeio blogs. Não tenho paciência para esse tipo de distração. Sabemos que nove entre dez blogs são redutos de amadores, antros de desocupados que se acostumaram a meter o bedelho em todos os temas, dos mais insignificantes às questões nobres da humanidade. Refúgio de cineastas iniciantes, escritores fracassados, colunistas sem poder de síntese, jornalistas em crise de identidade. O império do eu. O paraíso dos narcisistas. O templo de superficialidade. O Big Brother sem rostinho bonito, biquini cavado ou banho de piscina às onze da manhã.

Ok, mentira. Eu li e leio o blog do Caetano. Eu sou de blogs, vocês sabem. Quem pretendo enganar? (talvez minha mãe, que visita estas páginas duas vezes por ano). Mas reconheço a dificuldade crescente de defender o valor desse tipo de site. No mainstream, digo. Repare: não afirmo que exista algum valor, calma aí. Blogs são, oficialmente, um passatempo. Uma bobagem. Vivemos num mundo em crise, as baleias estão morrendo e as geleiras derretem — não devíamos perder tempo falando nesse assunto.

Ou não? O que mais em incomodou na cobertura da imprensa para o lançamento de Zii e zie não foram as recorrentes comparações entre Caetano e Radiohead, mas o desdém generalizado como tratam os blogs. Nas resenhas positivas, nos explicam que, apesar de ter se excedido num site banal, Caetano fez um bom disco. Nas negativas, comparam o CD ao fluxo de futilidades típico de um blog. Um jornalista aqui da cidade, em entrevista coletiva, ainda tentou provocar a discussão. “O álbum é uma extensão do blog?”, perguntou, inocentemente. “Que água vocês andam tomando aí em Brasília?”, retrucou o blogueiro. Se até o Caetano foge dessa raia, quem poderá nos salvar?

Mas foi assim que aconteceu: no período de criação do álbum, Caetano abriu um blog chamado Obra em progresso, onde escreveu sobre música, cinema, política, talvez gastronomia (não sou leitor fiel, desculpa) e, na crista da interatividade, permitiu que os leitores comentassem livremente e votassem em versões de faixas que seriam selecionadas para o disco. Em shows atípicos, acompanhados do trio enxuto de (álbum de 2006), testou as canções antes de gravá-las. Zii e zie é, portanto, resultado de um longo “ensaio aberto”, testemunhado por uma multidão. Não é um mero “álbum de estúdio”.

O disco não prolonga o blog. Não resulta exclusivamente dele. A história não é assim tão óbvia. Mas me parece empobrecedor excluir a experiência do blog da engrenagem deste álbum. Ou tratá-la como um detalhe sem muita importância. Perdão, Caetano, mas vejo na relação entre disco e blog um dos traços mais inventivos deste projeto. Existe um resgate de intenções que vêm lá dos anos 1980 (o show de Velô estreou antes do lançamento do disco), mas é impossível menosprezar o escopo da nova obra.

É fascinante, por exemplo, identificar nas canções o rastro de ideias que apareceram nos textos do blog. Quem leu o site, mesmo esporadicamente, sabe que Caetano adorou Última parada 174, ficou surpreso com o álbum solo do Marcelo Camelo e comparou Rio a São Paulo de mil e uma maneiras. Conscientemente ou não, são temas que acabam se infiltrando nas canções. A intensidade da colaboração entre Caetano e os leitores está refletida no CD — e só quem acompanhou o blog chegará a esse degrau do álbum. Taí uma verdadeira ousadia — um disco-blog, no sentido mais transgressor do termo. Confessional, mas também polifônico, permeável. Algo que eu nunca tinha visto (mesmo que mínimo, existe um valor nos blogs, não existe?).

Ao contrário de (que era reto e conciso), Zii e zie se abre a uma mundo de paisagens e temas. Não tão musicais (o samba com guitarras secas, ou transambas, é um conceito preservado do início do fim do disco, e soa como um alargamento do anterior), mas principalmente verbais. Apesar de simular a atmosfera de uma madrugada chuvosa no Leblon, os versos flutuam das bordas da favela (Perdeu) à base de Guantánamo, da Casa Branca (Diferentemente) à Portugal (Menina da Ria), e de lá para Lapa. É também um livro de crônicas melancólicas da cidade, a meio caminho entre Carioca, de Chico Buarque, e Canções dentro da noite escura, do Lobão. Breu, solidão e lágrimas. Mas, onde Lobão via fantasmas e saudade, Caetano agoniza para dar de cara na esperança (Lapa é quase um hino feliz para a era FHC/Lula).

As comparações com são todas muito tentadoras (e previsíveis, já que um álbum acaba ecoando o outro), e acredito que o susto provocado por aquele disco – que trazia um senhor como que rejuvenescido, furioso, um esqueleto em brasas – não será repetido. Zii e zie, de certa forma, adapta a história musical de Caetano a esse design minimalista. A cor amarela retorna à trilha de Tieta, A base de Guantánamo dá sequência a Haiti e Tarado ni você acena para experimentalismos (e acaba rendendo uma perfeita síntese do livro O paraíso é bem bacana, de André Sant’Anna). Nada mais tropicalista que o jogo com contrastes e extremos, que vibra em todo canto (Rio/São Paulo, samba/rock, favela/Leblon, Clementina de Jesus/Pedro Sá).

E há versos que me constrangem, mas talvez eles deveriam mesmo estar ali. “O homem é o próprio lobão do homem”, em Lobão tem razão; “drogas, tou fora, tá foda”, na barra-pesada Falso Leblon; o desabafo breve e vazio de A base de Guantánamo. Microblogs.

Para ficarmos no bate-bola com , Perdeu (“o sol se pôs depois nasceu e nada aconteceu”) é uma canção que me parece mais comovente que qualquer uma do álbum anterior (talvez esbarre em Minhas lágrimas, ainda não sei). Como um todo, o novo parece difuso, ainda em progresso. Em italiano, Zii e zie significa “tios e tias”. Como Caetano explica, é assim que nos sentimos no Rio de Janeiro, diante das crianças do sinal de trânsito. Talvez a diferença esteja nisso. era o homem. Em Zii e zie, o homem força a porta, abre a janela. E, aventureiro, escreve um blog.

Disco de Caetano Veloso. 13 faixas, com produção de Pedro Sá e Moreno Veloso. Lançamento Universal Music. 7.5/10

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35 comentários em “Zii e zie | Caetano Veloso

    Ed disse:
    abril 17, 2009 às 11:46 pm

    Eu acho que, na obra de Caetano, esse disco está para nossa década como o Vêlo tava pra década de 80. E você não acha os acordes iniciais de Perdeu quase identico ao de House of Cards?

    Tiago Superoito respondido:
    abril 18, 2009 às 12:24 am

    Ed, talvez seja essa a relação mesmo. ‘Velô’ está longe de ser um disco perfeito, mas é um reflexo bem interessante daquele período.

    ‘House of cards’? Talvez lembre um pouco, no início, mas acho que as canções vão por caminhos bem diferentes. A do Caetano tem uma carga de perplexidade que não sinto na do Radiohead (e é um comentário social, um olhar para o outro, uma narrativa em terceira pessoa, enquanto que o Radiohead é bem introspectivo e tudo).

    glauber guimarães disse:
    abril 18, 2009 às 10:01 pm

    tiado,
    sua resenha é perfeita, certeira. diferente de tudo que tenho lido por aí. parabéns, cara. você tem um cérebro. fica a pergunta: quantos críticos de música são necessários para trocar uma lâmpada? haha. os caras não tão sacando nada nos cardernos 2 da vida. abraço procê.

    GLAUBER GUIMARÃES

    Tiago Superoito respondido:
    abril 19, 2009 às 12:05 am

    Valeu, Glauber. Mas eu não chamaria esse texto de resenha. É um texto de blog, acho que só isso (e a cada dia me sinto menos culpado por escrever ‘textos de blog’, hehe). Os blogs permitem algumas liberdades, uma prosa infelizmente subestimada (e o Caetano soube fazer isso bem, ao modo dele, no blog que criou). Isso é o que os Cadernos 2 da vida ainda não sacaram. Ou sacaram, mas se sentem tão perdidos nesse universo que preferem atacá-lo em vez de tentar entendë-lo. Enfim. Abraço e obrigado pelos elogios.

    Fred disse:
    abril 19, 2009 às 4:43 am

    Acompanhei pouco o blog do Caetano, soube mais das repercussões… o que se falou sobre o blog dele.
    Tive essa impressão de conexão disco-blog mesmo que não tenha lido muito…
    Enfim, achei o texto coerente para caramba, concordo em tudo, principalmente sobre os versos constrangedores. Só acho que o Caetano merece crédito. Digo, ele deve saber que certos versos são constrangedores, mas os coloca por necessidade de dizê-los… Ele não é idiota.
    “Cê era o homem. Em Zii e zie, o homem força a porta, abre a janela.”, essa frase foi demais. Parabéns.

    Rodrigo de Oliveira disse:
    abril 19, 2009 às 8:12 pm

    Pô, Tiago, obrigado pelas palavras legais lá naquele comentário do “Presságio”.

    Eu, que definitavemente (não) odeio blogs, tenho o seu em alta conta. ;)

    Nilton disse:
    abril 19, 2009 às 9:25 pm

    Os acordes iniciais de “Perdeu” são primos de “It’s A Mistake” Do Men At Work.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 20, 2009 às 12:55 am

    Valeu, Rodrigo. Nilton, não conheço a música, vou procurar.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 20, 2009 às 1:01 am

    Sim, Fred, aposto que ele sabe… Obrigado pelo elogio, cara, valeu mesmo.

    Cooisa disse:
    abril 20, 2009 às 6:41 pm

    Caro Tiago,
    eu também nao penso o Zii e Zie como prolongamento do blog. Interessante vc usar a palavra “rastros”. Rastros de algo que nao identifiquei direito, é como se elementos estranhos me instigassem a ouvir este disco.
    O que li na imprensa até agora (com excessao do que vc escreve aqui) parece desprovido de percepçao, parece que seguiram um release e soh.
    Algo aconteceu comigo a respeito de Zii e Zie com relaçao a essas “paisagens e temas” ao assistir um filme de Aghata Christie ontem. O que você acha desse disco conter algo de misteriosamente cinematografico?

    Sayd disse:
    abril 20, 2009 às 7:10 pm

    Porra, Tiago! Leio o super/oito duas vezes a cada dois meses!!!
    Mereço mais consideração q a maezinha se bobear!
    Bem na primeira audição o q mais me chamou a atenção é q Zii Zie era um disco q ia fundo em letras puramente caetanicas… constrangedoras! nao há outro nome! E achei tao monocórdico! Mas em 12 horas isso mudou rapidinho. É claro, o novo disco saiu mais denso e variado… mais em alguns momentos acho q tem mais unidade q Cê. Ou será o contrário…?
    ALias do blog gostei muito da entrevista do C. com o P. (pedro sá) Demais. Elucubrações sobre a vida e morte severina da música à avant gard.
    Pena q como há esta segmentação entre blogs e os ditos meio legitimos demorará ainda um pouco para q eu ou vc possamosentrevistar quaquer um dos dois camarada.
    Abraço!

    Tiago Superoito respondido:
    abril 20, 2009 às 7:21 pm

    Cooisa, o que acontece é que o disco (musicalmente, acima de tudo) deixa lacunas que serão preenchidas de ‘n’ maneiras por quem o escuta. Daí que sim, haverá quem encontre um quê de trilha de cinema… Leu a crítica do Pedro Alexandre Sanches, na Rolling Stone? Ele descreve o disco como algo desagradável, difícil de ouvir. Eu já acho bem diferente disso.

    Sayd, o disco melhora com muitas audições. A conversa do Caetano com o Pedro Sá é legal, mas a Banda Cê devia mostrar logo pra ele que o indie rock não se resume a Animal Collective ou às bandas que ele viu no Tim Festival (TV on the Radio, Arctic Monkeys…). Abraço.

    Samuel disse:
    abril 20, 2009 às 7:34 pm

    Muito bom seu texto, Tiago. Não lembro de ter lido nada tão interessante e bem escrito sobre o disco em nenhum outro lugar.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 20, 2009 às 7:57 pm

    Samuel, escrevi este post inspirado pelo texto do seu blog. Mssão cumprida, então. Posso seguir em frente e escrever outra coisa, haha. Tenho o péssimo costume de não comentar os textos dos outros, mas o seu ficou muito bom mesmo. Admito que tirei alguma coisa de lá.

    Taí o endereço pro povo visitar: http://cineman.blogspot.com/

    Rodrigo disse:
    abril 20, 2009 às 8:04 pm

    Eu acho que a capa contém toda a atmosfera do disco, ao menos para mim (mas infelizmente não posso atingir esse outro “degrau” que você citou no texto), tanto é que ele só faz completo sentido pra mim quando ouvido de madrugada (e pra completar tá chovendo bastante em Fortaleza, hehehe). Acho o melhor disco dele em muito tempo.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 20, 2009 às 8:09 pm

    A crítica da Rolling Stone puxa a análise do disco pela capa, Rodrigo. Negativamente.

    Pra mim ‘Cê’ é mais interessante, mas ainda assim é muito, muito melhor que a fase Livro/Noites do Norte/Foreign sound.

    Cooisa disse:
    abril 20, 2009 às 11:20 pm

    Tiago, vou ler a Rolling Stone, de toda maneira a critica que li acho que foi na Folha fala sobre certa dificuldade do disco dando entender algo negativo e foi isso o que me fez escrever aqui, pq eu ADOREI o disco e ainda nao tenho digerida uma opiniao se prefiro Zii e Zie ou Cê, ou ainda se é totalmente absurdo fazer uma comparaçao entre os dois mesmo que inevitavel em primeira instância.
    Fiquei instigada justamente por essa nao obviedade do Zii e Zie e dai rolou o papo do cinema. Bom, nao sou da area musical mas gostei do papo, entao bota ai além do “n” o que vc quiser, o que qquer quem quiser. Um grande beijo e parabéns pelo artigo.

    Calango disse:
    abril 20, 2009 às 11:25 pm

    Rodrigo, aqui também ta chovendo pra caralho,kkkkkkkkk!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Ed disse:
    abril 21, 2009 às 12:02 am

    Acho o Livro muito bom e subestimado.

    CEARINA disse:
    abril 21, 2009 às 12:10 am

    Tiago, eu nao gosto de musica, nao acredito em blog, nem acredito em lòki, mas acredito em você e na Adriana Calcanhoto, “VAMOS COMER CAETANO”! beijo antropo-fà-cearino-là…

    Enio disse:
    abril 21, 2009 às 3:52 am

    Foi o melhor texto sobre o CD que li até agora… sério, achei estranha a cobertura da imprensa, ficaram focados na parada do blog… blog isso, blog aquilo… como se fosse algo novo… imagina então se o Caetano cria uma conta no Twitter? Seria doido.
    Mas o CD mesmo… deixaram pro lado… como não destacar PERDEU??? Sou Carioca e pra mim essa música representa muito (infelizmente acho que pro Brasil todo…), mas não… jogaram pro lado.
    Aquela história de que Caetano Veloso fala muito de muita coisa… mas ela canta legal tbm povo! As entrevistas foram ridiculas… imagino os jornalistas pegando uma lista de assuntos que estão bombando e fazendo perguntas pra ele…
    PENA… e não ouviram PERDEU E FALSO LEBLON…
    é emocionante… o CD nem é tão triste do modo que imaginava… e gostei mais de TARADO NI VOCÊ no CD ficou bem melhor…
    Abração cara.. parabéns pelo blog!

    CLAWDIA disse:
    abril 21, 2009 às 7:33 am

    Enio, sabe que a musica que mais gostei também foi “Tarado Ni Você”… eh incrivel essa musica de letra concisa ter tanto magnetismo, eh impressionante e a gente nao para de ouvir nunca!!! Falando nisso, escrever aqui me deu saudade de escrever no blog do Caetano, que pena que acabou. Mando entao um beijo especial ao Caetano e outro à vc Tiago.

    CLAWDIA disse:
    abril 21, 2009 às 7:37 am

    Enio, sabe que a musica que mais gostei também foi “Tarado Ni Você”… eh incrivel essa musica de letra concisa ter tanto magnetismo, me impressionou, a gente nao para de ouvir nunca!!! Falando nisso, escrever aqui me deu saudade de escrever no blog do Caetano, que pena que acabou. Mando entao um beijo especial ao Caetano e outro à vc Tiago.

    CLAWDIA disse:
    abril 21, 2009 às 7:41 am

    Desculpe-me, saiu repetido. Eu nao estava conseguindo enviar, de repente vi duas vezes publicado.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 21, 2009 às 1:34 pm

    Obrigado, Cearina, Enio e Clawdia. E também gosto do ‘Tarado ni você’, hehe.

    zeca azevedo disse:
    abril 22, 2009 às 8:06 am

    Tiago, seu texto sobre zii e zie é muito bom e muito lúcido, mas eu não consigo gostar do disco. Aliás, também não gosto do Cê. Não consigo e nem quero acompanhar esse “novo” jeito de corpo “roqueiro” do Caetano. No livro Verdade Tropical, Caetano deixa claro que o rock nunca foi a praia dele. Essa “apropriação roqueira” (pilhagem tropicapitalista?) feita pelo Caetano em seus dois álbuns mais recentes me parece menos a criação de um novo programa estético e mais um gesto mercadológico e uma manifestação de “ilusão de juventude” de um senhor de mais de sessenta anos que não quer admitir a idade que tem. Por que o Caetano não foi roqueiro nos anos 90, quando o rock andava por baixo e a música eletrônica estava com tudo? É bom lembrar que Livro, o disco, lançado nos anos 90, tem uma faixa eletrônica, a chatissima Doideca. Caetano é seguidor, não é trendsetter. É (ou foi) um grande compositor, mas há muito não entrega um álbum digno do seu talento. zii e zie jamais vai figurar entre os melhores álbuns do Caetano, vai ficar no conjunto de projetos fracassados com o ridículo Araçá Azul e o pavoroso Velô, flácida tentativa do baiano de pegar carona no roquinho dos anos 80 que só justifica sua existência por duas faixas, O Homem Velho e Shy Moon (O Quereres, bela canção, foi destruída pelo arranjo tosco). O resto do Velô é um lixo. E Lobão tem Razão é uma canção horrorosa, assim como algumas outras de zii e zie que nem vou mencionar para não estender esta mensagem. O certo é que a tentativa do Caetano de ser um simulacro de Lou Reed não deu certo. Que saudade do Dorival Caymmi…

    Tiago Superoito respondido:
    abril 22, 2009 às 11:16 am

    Zeca, concordo que o Caetano seja mais seguidor que ‘trendsetter’, mas essa ‘apropriação roqueira’ já não existia desde o início da Tropicália? Gesto mercadológico não sei se esse disco é (só tem duas músicas com cara de single, ‘A cor amarela’ e ‘Menina da Ria’, e a notícia “Caetano fez um disco de rock” já é meio velha), mas entendo quando você fala sobre a “ilusão de juventude” e acho que é isso mesmo. Só que existe uma carga forte de melancolia que acompanha essa sensação durante todo o disco, até em faixas mais “descoladas” como Falso Leblon, digamos. Vejo o álbum como o retrato do Caetano tropicalista e inquieto aos sessenta e poucos anos, e isso soa interessante pra mim.

    zeca azevedo disse:
    abril 22, 2009 às 4:21 pm

    Tiago, vejo diferenças consideráveis entre a apropriação de estilemas do rock pelos tropicapitalistas (é de propósito) nos anos 60 e essa fase “indie” do Caetano. Nos anos 60, o rock era apenas um dos muitos elementos sonoros do coquetel tropicapitalista. A fase atual do Caetano é quase 100% roqueira (essa onda de transamba é meio furada). O Caetano anda se apresentando como membro de uma banda formada por jovens que gostam de Radiohead, Pixies e bandas alternativas contemporâneas. E, sim, creio que o gesto roqueiro tem intenção mercadológica também. O baiano não quer vender seus novos produtos (e sua imagem) para um público indistinto, mas sim para um público específico, jovem, urbano, consumidor de rock “alternativo” e (de)formador de opinião. Esse mesmo público que incensa Cê e zii e zie não dava a mínima para o Caetano de cinco anos atrás. O gesto do baiano faz parte da permanente ilusão de juventude que o acomete. Caetano não sabe envelhecer.

    zeca azevedo disse:
    abril 22, 2009 às 4:26 pm

    Para finalizar: Caetano é tão individualista (alguns diriam egótico) que a melancolia dele me parece intransferível. O ouvinte percebe a melancolia do compositor, mas não consegue senti-la. Não há catarse.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 22, 2009 às 4:36 pm

    Bem, Zeca, se é que meu exemplo conta, eu gosto bastante de ‘Cê’ e ‘Zii e zie’ e ouvi com interesse todos os discos que o Caetano gravou (com exceção de alguns ‘ao vivo’). Mas entendo o que você diz: há um público que se interessou por essa guinada ‘indie’ e sim, existe uma estratégia mercadológica nisso.

    Mas também não dá para negar que ‘Zii e zie’ é um disco quase inteiramente de sambas, com guitarras no lugar dos cavaquinhos. Se é rock, está mais para Mundo Livre S/A e Los Hermanos que para Pixies e Radiohead.

    Fagner disse:
    abril 30, 2009 às 1:39 pm

    Araçá Azul é ridículo? Zii e Zie é comercial? Nossa! Dois comentários dignos de fãs de CBH.

    Araçá Azul é genial. Uma das pérolas da experimentaão brasileira. E se Caetano quisesse tocar no rádio nunca lançaria um disco desse. Não tem nenhum potencial single.

    jv disse:
    maio 27, 2009 às 11:24 pm

    que crítica ótima, e debate aqui nos comentários tb. eu acho que o z&z tem um pouco de tudo que já disseram por aí: é rock mas é mais caetano do que antes, é difícil mas melhora depois de escutar algumas vezes, e falta nele uma música que cause maior identificação.

    esse último detalhe, a parte de se identificar, pra mim é o grande defeito do Z&Z, mas não chega a estragar. e isso não tem nada a ver com o “ego” de caetano, não sei porque adoram falar do ego de caetano.

    Tyrone Medeiros disse:
    maio 28, 2009 às 8:58 pm

    Oi Tiago,
    bacana seu texto. bacana.
    .
    o disco zii e zie não foi produzido pelo kassin.
    .
    vá ao site do cantor e verifique se há alguma data para o show em sua cidade. você irá gostar de ver até aonde a obra chegou.
    .
    a frase “o lobo é o próprio Lobão do homem” passou a ser uma brincadeira com a frase do filosofo Tomás Hobbes. Não te constrange.
    .
    e o “big brother” da canção Falso Leblon, não tem nada a ver com o programa da tevê globo, mas com o livro “1984”.
    .

    abração.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 28, 2009 às 9:29 pm

    Obrigado, Tyrone. Fiz a correção.

    Vi o show. É muito bom.

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