Boas compras, Superoito!

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Até meus poucos amigos já começaram a se incomodar. “O Tiago, cadê?” Não está. Tem pressa. Não pode atender. Cai na caixa de mensagem. Desligou o MSN. Foi ao trabalho. Fale depressa. Dois minutinhos. Faz algo importante. É o compromisso. O filme. O show. A abertura da exposição. A pré-estreia. Ou outra bobagem. O jantar inadiável. A série de tevê. Pode outro dia? Acordar cedo amanhã. O livro largado na metade. Parece que não dorme. Depois do plantão, se ele puder. Se. Sete da manhã? Não é vida.

Minha rotina às vezes parece tão milimetricamente definida que me pego fazendo opções duras, condenáveis. Visitar minha mãe ou assistir à pré-estreia? Manter um blog banal ou escrever contos que nunca serão lidos? Ir ao teatro ou assistir ao episódio de Lost? Praticar uma atividade esportiva (às oito da manhã!) ou aproveitar a madrugada para ler dois ou três capítulos de um livro? Ou sair para conversar, namorar? Ou jogar pedrinhas no Lago Paranoá? Escolhas. E mais escolhas.

Em outros momentos, tento fazer tudo o que posso. Simultaneamente. Como aqueles monitores que abrem várias telas minúsculas ao mesmo tempo. Aproveito a madrugada e acordo às sete da manhã para o plantão de sábado. Escuto o disco enquanto dirijo para assistir ao filme. Faço uma pesquisa para o trabalho no exato período de tempo em que escrevo um texto apressado para o blog. O resultado dessa técnica de empilhar e soterrar atividades costuma ser desastroso, não tão produtivo quanto eu gostaria. Mas devo admitir que este blog, por exemplo, acontece enquanto faço outros planos.

A vida de solteiro num apartamento minúsculo me obriga a cumprir tarefas que, se eu pudesse escolher, não entrariam na minha agenda. Elas asfixiam, comprimem meus dias. Regar as plantas toda manhã, por exemplo. São dois ou três minutos que poderiam ser gastos no café ou nos extraordinários e tão singelos e tão caros atos de dormir e sonhar. Conferir a caixa de correspondências, taí outro caso dolorido de tempo desperdiçado. Falei em lavar louças?

(Não reclamo do meu cotidiano corrido. Optei por ele. Na verdade, temo não conseguir viver de outra forma. Nos dias de folga, durmo. Saio dirigindo sem destino. Procuro trabalho. Sonho com a reunião de segunda-feira)

Logo quando me mudei para o novo apartamento (uma saga narrada em detalhes aqui no blog), os compromissos do lar soaram todos lúdicos e divertidos, como se fizessem parte da incrível aventura da independência. Era uma graça. Hoje, parecem compromissos. E só. E entre tantos, o que mais me perturba, sem concorrentes à altura, é a necessidade de fazer compras.

As luzes geladas dos supermercados congelam minha alma.

Quando eu era criança, os supermercados eram entretenimento. Pareciam parques de diversão. Meu pai me prendia ao carrinho prateado e eu me sentia numa rodovia caótica, tomada por motoristas atabalhoados que ignoravam as leis de trânsito. Acredito que daí veio minha mania de organização. Se todos decidirem furar o sinal vermelho ou estacionar onde bem entendem, penso, o resultado será um corredor de mercado: a inconsequência levada à raia da loucura, o desrespeito ao próximo, a falta de noções de convivência em sociedade.

“Querido, vou ali ver o preço do sucrilhos e, enquanto isso, abandonar o carrinho exatamente no único espaço livre do corredor. Você me espera com um sorriso no rosto e uma caixa de chocolates?”

Eu achava isso engraçado, incrivelmente engraçado – quando eu tinha uns cinco anos. Naquela época, eu me impressionava com a audácia dos meus amiguinhos, que acompanhavam os pais durante as compras só para roubar armas de Comandos em Ação das caixas de plástico danificadas. Era o máximo da rebeldia. Hoje, supermercados passaram a me receber com uma espécie de treinamento para a temporada que passarei no purgatório. “Seja bem-vindo, Tiago. Agora espere. Até quando? Só Deus sabe. Enquanto isso, aprecie nossa nova linha de iogurtes que regulam o intestino.”

Pelos meus cálculos, passo por volta de 60 minutos dentro do supermercado a cada semana. O que equivale a quatro horas mensais. Francamente, é tempo demais. É uma geração. São as duas partes de Che!

Eu até tentei driblar o destino. No meu primeiro mês de apartamento-de-um-quarto, decidi comprar o suficiente para passar um semestre inteiro sem ter que esquentar a cabeça com a tarefa. Gastei uma fortuna e cometi um erro brutal. Três semanas depois, boa parte dos alimentos começou a se desintegrar dentro da minha geladeira. Manchas azuladas quase devoraram minha televisão. Os vermes se espalharam pela área de serviço e por pouco não começaram a vestir minha calça jeans. Aí descobri, mui estupidamente, que comida estraga. É. Estraga. E que supermercados são um fardo para quem vive sozinho.

É preciso saber viver com eles, esses monstrengos do consumo, essas catedrais das promoções-relâmpago, esses monumentos dos produtos descartáveis. Confesso que ainda não consegui me adaptar. Ontem mesmo, me senti ameaçado por um senhor balofo que, hipnotizado por uma pizza congelada, perdeu a direção do carrinho e quase atropelou uma vovó. E perturbado pela imagem de uma menina de cinco ou seis anos de idade que tentava se pendurar no estande de ovos de Páscoa para alcançar o cor-de-rosa. Dois minutos metido naquela atmosfera acinzentada são o suficiente para me transformar num sujeito paranoico, tenso, estressado. À espera de que os funcionários uniformizados de branco encontrem um uso mais assustador para os facões que manipulam no setor de carnes e peixes.

Imagino que, para se integrar a um ambiente mecânico, as pessoas tenham decidido aceitar algumas convenções de supermercados que, para mim, ainda lembram atentados terroristas. Um exemplo prático: conviver com os funcionários que, em microfones, anunciam a promoção do dia. Quando começamos a aceitá-los? Quando decidimos permitir que eles entrassem nas nossas vidas? Não seria melhor criar uma lei contra eles e encerrar o assunto? A ladainha repetitiva das pechinchas, interminável, provoca em mim efeitos semelhantes ao da tortura psicológica.

Há uma semana, fiz questão de gravar um desses anúncios, que reproduzo literalmente em seguida. Reparem nos detalhes. Tentem sobreviver a ele:

“Televisor LCD de 42 polegadas. (pausa). 42 polegadas. (pausa). 42. (pausa). A tevê está ligada aqui na entrada da loja. Imagem digital. (pausa) A tevê está ligada aqui na entrada da loja. 1989 reais. Você divide no cartão em 10 vezes sem juros. Televisor LCD Philips de 42 polegadas. 42 polegadas. (pausa). Uma oportunidade, hem. Muuuuito barato mesmo. O preço normal de venda é três mil. O preço normal de venda é três mil reais. 3199 reais. Você está recebendo aí mais de mil reais em desconto. A tevê Philips com 42 polegadas. 42 polegadas.  Na entrada da loja. Vem pra cá.”

E aí eu juro que, se aparecer um serial killer enlouquecido em meio às gôndolas, há um culpado. E que, se eu chegar em casa com um maldito televisor Philips LCD de 42 polegadas sem saber por que raios comprei aquela desgraça, o problema não terá sido meu. Lembro bem da promoção do frango assado. A repetição de slogans improvisados era tão intensa que, no caixa, a atendente fez questão de me vender o maldito frango assado.

– Você não vai querer mesmo o frango?

– Não quero, obrigado.

– Tá em promoção. Mais barato que isso o senhor não vai achar. Bate a concorrência.

– Sei. Tem mais saco plástico?

– Hoje à tarde tava o dobro do preço. O frango.

– Eu sei. Uma promoção genial. Mas não quero frango. Não agora. Talvez não amanhã. Tenho certeza de que não vou comer frango. Absoluta.

– Quem avisa, amigo é.

– Eu. Não. Quero. Frango. Cacete.

Cheguei em casa com uma dor de cabeça infernal.

Mas, apesar de todo o desgaste, aviso que desenvolvo rapidamente a habilidade de abreviar os períodos gastos no supermercado. De 60 minutos, tento acelerar o passo para resolver o martírio em 45. Da última vez, funcionou. Me concentrei na imagem de um oceano sem linha no horizonte, aumentei o volume do iPod e, como um autista, agarrei o carrinho e guiei cegamente por prateleiras de desodorante, cereais, frios, frutas e sucos. Não ouvi as promoções. Não reparei nos zumbis de fast food. Fui simpático com a atendente (que queria me vender lâmpadas pela metade do preço). E aproveitei para, perdido em atividades cerebrais, escrever o primeiro parágrafo de um post sobre supermercados.

Ainda assim, fui interrompido. Quando eu escolhia um sanduíche de presunto com queijo, um senhor aparentemente gentil pediu a palavra. Tirei os fones de ouvido, curioso. “Sanduíche, é?”, ele perguntou. “Ã-hã. Parece bom”, acenei positivamente. “É solteiro, né?” “Sim, sou sim.” “Percebi. Solteiros só comem porcaria.”

O deus-neon dos supermercados, poderoso e frio, sorriu lá de cima.

(No tempo em que gastou escrevendo este post, Tiago Superoito estaria no cinema assistindo a um filme provavelmente medíocre. Que ficará para outro dia.)

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11 comentários em “Boas compras, Superoito!

    Diego Maia disse:
    abril 3, 2009 às 9:26 pm

    Nossa.

    Desculpa aquele e-mail, hahahahaha.

    Diego Maia disse:
    abril 3, 2009 às 9:35 pm

    Mas então. Também ando com essa dificuldade pra lidar com o meu tempo.

    Quando o tempo no supermercado ultrapassa meia hora, bate o desespero. Mas faço assim (é um ritual semanal): deixo as roupas lavando enquanto vou lá e, depois de voltar, espero só mais meia hora, ou uns 40 minutos, para tirá-las da máquina e estendê-las. Nesse tempo, fico no PC organizando os downloads, o iTunes, pagando contas, atualizando o log, o blog ou vendo pornografia.

    Isso quando a casa está limpa.

    Quando noto alguma teia de aranha, uso esse tempo para varrê-la, trocar a roupa de cama e tirar o lixo.

    Uma vez por mês mando tudo à puta que pariu e chamo uma faxineira, que limpa, lava, passa e salva umas 4 horas do meu mês por apenas 40 reais. Acho bom negócio.

    rafaéu disse:
    abril 4, 2009 às 3:26 am

    Reclama da moça do frango? Tem HABIBS em Brasilia?É a pior comida que já comi na minha vida, mas por algum motivo, eu como.

    Delivery Habibs 28 minutos: eu peço dez esfihas de carne. É SÓ ISSO? SIM!

    Desejo suco de laranja promoção compre 300 leve 500ml, SENHOR?! NÃO!

    Tortinha acompanha? NÃO!

    Alguma outra sobremesa? NÃO!

    Então são dez esfihas de carne? SIM

    Não deseja incluir mais nada no seu pedido? NAO

    Entao são dez esfihas de carne, o valor é W. Precisa de troco?

    O delivery habibs 28 minutos deseja uma boa refeição a voce, o tempo de entrega eh 28 minutos, se ocorrer uma demora maior o senhor nao paga, o valor nao eh descontado do entregador.

    Alguma duvida? NAO

    Delivery habibs 28 minutos agradece, boa tarde.

    ¬¬

    Tiago Superoito respondido:
    abril 4, 2009 às 12:34 pm

    Diego, a ideia do post já existia (eu só não tinha tempo para escrevê-lo, ha), mas seu e-mail catalisou o negócio.

    Faxineira por 40 reais. Acho muito justo. Se eu ainda tivesse que lavar minhas roupas (não tenho máquina), seria o inferno.

    Rafaéu, tem Habib’s em Brasília sim. Não é a roça, né. Mas não tenho coragem de pedir por telefone.

    guilherme disse:
    abril 4, 2009 às 7:48 pm

    bom texto.

    gonn1000 disse:
    abril 4, 2009 às 10:12 pm

    Wow, óptimo post, mais do que retrato pessoal deve ser quase geracional (pelo menos revi-me em quase tudo).
    E parabéns pelo blog, o ritmo de actualizações é impressionante.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 5, 2009 às 12:07 am

    Obrigado, Gonn, Guilherme. O ritmo de atualizações pode cair um pouco em breve, mas estou me esforçando. :)

    Samir Machado disse:
    abril 6, 2009 às 10:45 am

    “…ou escrever contos que nunca serão lidos?”

    Que tipo de contos vc escreve?

    Tiago Superoito respondido:
    abril 6, 2009 às 1:10 pm

    Do tipo medíocre, Samir.

    Michel Simões disse:
    abril 9, 2009 às 4:18 pm

    Toda semana o mesmo martírio, en tento fazer a cada 15 dias, talvez 30, mas aí tenho que ir na feira (puta coisa de velho, mas compensa). E sempre forço p/ ir nas segundas, caso contrário serão 2 horas, a maior parte parado na fila.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 9, 2009 às 9:48 pm

    Também me obrigo e ir às segundas. Ou em horários ingratos: domingo às 23h30, por exemplo.

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