Mês: março 2009

Gran Torino

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Gran Torino, 2008. De Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Bee Vang e Christopher Carley. 116min. 8.5/10

Depois de ter me frustrado razoavelmente com A troca (os textos sobre o filme me animam bastante, entretanto), eu estava um tanto cético em relação a Gran Torino. Tudo o que li parecia genérico demais.  Uma síntese da carreira de Clint Eastwood? Um acerto de contas com Dirty Harry? Preferi cautela.

Na última cena, minhas expectativas pessimistas foram abatidas a golpes de picareta. Não é um velho filme de Clint Easwtood. E não é um filme sobre o velho Clint Easwtood. Talvez seja um filme de velho, no melhor sentido. Revela uma sábia simplicidade, como em Manoel de Oliveira. E precisão, como em Sidney Lumet.

O próprio Eastwood enruga a película, no papel de um homem velho. Walt Kowalski não fala, rosna. Os personagens secundários são desenhados com poucos traços. Se aproximam da caricatura, como um cenário desfocado por onde o herói transita. Quase uma paisagem. Um filme de golpes curtos, movimentos econômicos, substantivos sem adjetivos.

Li muitos elogios sobre as variações de humor da narrativa de A troca. Gran Torino me parece o oposto disso: compacto, exato e, por isso, impressionante. Nada sobra. Cada sequência tem um sentido muito específico dentro do filme. Podemos nos incomodar, por exemplo, com o retrato unidimensional da família de Walt – uma corja de interesseiros. Mas sabemos que Clint quis o filme exatamente daquela forma. Não há dúvidas.

Daí a clareza como o cineasta vai criando os pontos de contato com Os imperdoáveis (na estrutura à western), com Cartas de Iwo Jima (num discurso multiculural e pacifista, bastante explícito), com Sobre meninos e lobos (na reflexão sobre a cultura da violência), com Um mundo perfeito (na relação entre o velho e o menino). 

Entendo quem trata o filme como uma espécie de resumo da obra. Mas o que me parece surpreendente é como as experiências acumuladas por Clint passam por um processo de refinamento. É como um compositor que vai reduzindo os excessos de uma canção. Um poeta que vai descobrindo a beleza do verso curto.

E é por isso, ou talvez seja por isso, que Gran Torino periga ser incompreendido. Por isso não é tratado como aposta para o Oscar. Por isso fica na surdina. Não dá para encará-lo como qualquer filme. O espectador deve fazer algum esforço (e quem quer fazer esforço numa sala de cinema?) para vê-lo da forma como é. 

E este é um filme que, até nas imperfeições, não se esconde.

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Radiohead em São Paulo

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Assim que ouvi Ok computer pela primeira vez, acredito que por volta de agosto de 1997, tomei um susto tão grande que decidi dividir a experiência com meu padrasto. Fã de Kraftwerk e de Pink Floyd (cresci ouvindo sinos em volume máximo), provavelmente ele entenderia aquilo tudo melhor que eu. Lembro até hoje a reação desejeitada daquele homem grisalho, já turrão e (às vezes terrivelmente) cético: depois de um longo período de silêncio, o Mr. Sisudez se deu por satisfeito lá pela quinta ou sexta faixa. “É impressionante”, ele observou, quase cientificamente. “Se eu tivesse a sua idade, ouviria sem cansar.”

Ficamos nisso. Acredito que, depois daquela impressão animadora, meu padrasto nunca voltou a um disco do Radiohead. Como se, incapaz de acompanhar o galope de uma geração por ele desconhecida, preferisse manter distância das estranhas (e talvez maravilhosas) novidades cultuadas por meninos de 14 anos de idade. Como se dissesse: “ok, Tiago, agora você sabe o que sinto quando ouço The dark side of the moon.”

Duvido que me padrasto tenha assistido aos trechos do show de sábado em São Paulo, exibido na tevê por assinatura. Não o interessa. Posso dizer sem margem de erro: foi retrato de uma geração. A minha geração.

Provavelmente ele teria gostado do que vi (que, para mim, não vale menos que 10/10). A sensibilidade musical do meu padrasto, apesar de excessivamente seletiva (cinco ou seis bandas são o suficiente para mapear toda uma existência), foi moldada por um rock inventivo e atmosférico, ambicioso e monumental. Anos antes de Ok computer, mostrei a ele Nevermind e tudo o que recebi em troco foi um “tsc, o ser humano é um projeto que não deu certo”.

O show do Radiohead é ambicioso e monumental como eram os álbuns de rock progressivo dos anos 70. Mas também é catártico, emotivo e atormentado como o pós-punk do final daquela década. Há como identificar essa mão-dupla de referências em cada um dos álbuns da banda. Em Ok computer. Em Kid A (ainda que rarefeita). Em In rainbows (ainda que coberta por um bafo quente de soul music). Mas, no palco, essa equação se faz visível, reluzente, pulsando diante dos nossos olhos (deslumbrados, talvez cansados, talvez incomodados ou frustrados, mas hipnotizados).

É nosso reflexo. A imagem de quem viveu os anos 90 e seguiu se transformando até chegar aqui, no final da primeira década do século 21. Radiohead é, de certa forma, nossa história (minha e dos outros que o adotaram como trilha sonora para a adolescência). E, de outra forma, a história muito precisa de um período de transformações fundamentais para a música pop. Intencionalmente ou não, os ingleses refletiram o furor grunge (no hit Creep), a desilusão do fim de século (em Ok computer) e a fragmentação do pop via web (Kid A foi o primeiro grande filho do Napster) até antecipar a morte da indústria fonográfica (em In rainbows, distribuído de graça, independente de verdade).

A discografia do Radiohead pode sim ser encarada como um tratado para um mundo em transe. Você ouve Ok computer, por exemplo, e entende a crise econômica. Sério.

No palco, a banda tenta resumir essa ópera sem soar didática ou acomodada (a liberdade de criação é a bandeira que eles continuam levantando). Trata-se de um desafio e tanto. Dois dias antes, assisti a um show do Iron Maiden e tudo o que os velhos metaleiros conseguem (dignamente, para os padrões do metal; nada contra) é enfileirar canções conhecidas da forma mais plana possível, com um ou outro cenário engraçadinho – o que 90% das bandas praticam desde os anos 60. O show do Radiohead vai bastante além desse formato-padrão. É um espetáculo mais intrincado.

Assisti ao show com uma amiga que não conhecia nada além de In rainbows. No final da apresentação, virei-me para ela e disse: “Você acabou de ouvir tudo o que precisa saber sobre a banda. Isto é Radiohead.” Pouco depois, ouvi reclamações de fãs que queriam ter cantarolado hits de The bends. Mas faria algum sentido? A jornada do Radiohead não tem volta. Entendi muito bem que Creep, escondida lá no terceiro bis, era uma faixa bônus que, apesar de agradar aos fãs (e foi uma apoteose), destoa bastante da fase em que a banda se encontra.

A banda se jogou tão decididamente na própria aventura que muitos dos fãs ficaram pelo caminho. Natural. Conheço que deteste Kid A. Também sei dos que desprezam hits como High and dry. O show abraçou essas duas facetas, mas resgatadas a partir dos climas quase transcendentais de In rainbows (a iluminação é, por si só, obra-prima: engolida por tubos de luz, a banda toca literalmente dentro de um arco-íris). Uma banda na trilha do sublime.

Mais que isso: uma banda madura. Quem dera se toda maturidade soasse assim. O rigor técnico aliado à interpretação emotiva, a pompa de superprodução afinada à elegância do conceito (até as cores do telão, em meios-tons, impressionavam pelo detalhismo, pela finesse). Os sets que mudam a cada concerto, mas são sempre executados de forma impecável. Improvisos calculados, mas que soam vivos, doídos, frágeis. Thom Yorke é o Kurt Cobain que cresceu, entendeu os mecanismos da música pop e venceu o monstro sem desligar-se da angústia (e viver neste mundo continua difícil, com ou sem maturidade). Hoje, não há band leader que o supere.

O show de São Paulo oscilou do folk mais cru (a emocionante Faust arp, com dois violões e ponto final) à eletrônica mais cerebral (a geleira chamada Idioteque) – e cobriu uma série de etapas intermediárias entre um extremo e outro. As canções menos virulentas acabaram se destacando – com momentos arrasadores como Karma police, Fake plastic trees, Exit music (for a film) e Pyramid song -, interrompidas vez ou outra por espasmos de ruído (Bodysnatchers, The national anthem). Síntese do show e da carreira da banda, Paranoid android foi reconstituída com fidelidade absoluta – e agarrada pelo público, que fez coro, prolongou os versos, não quis soltar. Sete minutos que passaram como sete segundos.

No total, ficamos perplexos por cerca de 2h20. Pareceu pouco. Eu ficaria ali, de pé, apertado pela multidão, talvez de cabeça para baixo, por mais quatro horas (ouvir Lucky e Climbing up the walls assim, no susto, é de provocar parada respiratória). O golpe de misericórdia veio no final do segundo bis, com uma versão acelerada para Everything in its right place: as luzes vomitavam os versos da canção mais surrealista da banda, enquanto Thom Yorke ia desaparecendo lentamente.

Sabemos tudo o que precisamos saber sobre o Radiohead. O resto é mistério. 

Em tempo 1: O mundo não acabou, mas a saída da Chácara do Jockey parecia uma cena de Fim dos tempos. Uma massa de gente, empurrada sabe-se lá para onde. “Parece até Eu sou a lenda“, uma amiga comentou. Nesse exato momento, por uma coincidência absurda, quase tropeçamos adivinha em quem? Alice Braga! Bastante simpática, aliás.

Em tempo 2: Os shows de abertura foram prejudicados pelo volume do som (que, no Radiohead, estava excelente). Los Hermanos fez um retorno correto (7/10), privilegiando lados B e faixas do Bloco do eu sozinho. O público estava tão animado que a banda soou mais alegre que de costume (e Rodrigo Amarante, mesmo aparentemente rouco, deu até pulinhos). O Kraftwerk (6/10) penou para se adaptar à arena, com um telão que mal ocupava metade do espaço destinado ao palco do Radiohead. O show é excelente, um dos melhores que vi na minha vida, mas se dá melhor em espaços menores, com som alto. Foi um aperitivo.

Em tempo 3: Depois de duas horas e meia tentando pegar um táxi (quase apelei para a estratégia de deitar no asfalto e me fazer de cadáver), vi a cor de um sanduíche de frango às 3h da matina. Acordei às 7h para pegar o voo e cá estou eu, um zumbi em pessoa. Morto mas feliz.

Paranoid android | Radiohead

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Um guitarrista de uma banda de rock de Brasília, que entrevistei ontem, disse tudo o que precisamos saber sobre os shows do Radiohead no Brasil. Ele não é fã dos ingleses (aposto que prefere Primal Scream ou My Bloody Valentine), mas, quando perguntei se havia comprado ingresso, respondeu até com alguma irritação: “Óbvio, é uma das maiores bandas do século 20.”

Quem discorda? Impossível menosprezar uma apresentação do Radiohead. Não dá. É crime. Para o fã de música, de qualquer música, trata-se de um evento obrigatório (minto: para os fãs que estacionaram nos anos 80, recomendo o revival de Iron Maiden). Temos que usar traje esporte fino? 

Numa rodada de entrevistas com músicos de Brasília – da geração que hoje tem 30, 35 anos -, foi impressionante notar como a banda é admirada até por quem nunca se interessou verdadeiramente por eles. Mais que influência musical, deixam uma lição de integridade que, por si só, justifica o culto. Quem mais conseguiu praticar tão radicalmente, e por tanto tempo, o sonho da liberdade de criação? 

Teorizar sobre rebeldia é uma coisa – outra é lançar um single como Paranoid android (acompanhado deste clipezinho estranho aí, de Magnus Carlsson), sem refrão e quase sem nexo, para abrir os trabalhos de um álbuns violentamente machucado pelas tensões do fim de milênio.

Para mim, ainda parece um absurdo. Só de saber que eles vão tocar essa música, essa anomalia, essa obra-prima, daqui a alguns dias, ali na minha frente, dá frio na barriga. É como se o mundo estivesse para acabar.  Se eu sobreviver, juro que tento uma explicação.

Now we can see | The Thermals

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thermalscapaThe Thermals é uma das bandas de rock mais objetivas que conheço. Não admitem papo furado. O álbum anterior, The blood, the body, the machine, de 2006, era uma fábula apocalíptica de punk rock ambientada numa América fascista, contaminada pelo fanatismo religioso. Isso tudo, em cores fortes; e, ainda assim, o disco durava 35 minutos.

Não sei se vocês lembram, mas American idiot, do Green Day, dura 57 minutos e soa tão assustador quanto um episódio de Smallville.

O disco novo, Now we can see, tem 34 minutos. E é um álbum com a ambição de falar sobre a morte. “Canções sobre quando estávamos vivos”, explicou o vocalista, Hutch Harris. As faixas se chamam When I died, We were sick, How we fade, You dissolve, etc.

Mas é impossível esperar uma sinfonia do tamanho de Funeral, do Arcade Fire, já que o trio parece incapaz de atos de grandiloquência. Por mim, tudo bem. O que eles provam, bem didaticamente, é que grandes temas podem caber em pequenas embalagens – sem prejuízo de impacto.

E é um belo disco – um que eu daria de presente para meu primo de 15 anos, se ele fosse fã de Green Day e NxFx. O Thermals revela muito sobre a preguiça de quem prega a decadência da face mais melodiosa do punk rock. O gênero que rende atrocidades à Fresno e NxZero é tratado pela banda como um brinquedo novo. Talvez por isso essas canções me façam voltar à adolescência – era isso que eu sentia diante daquelas bandinhas todas. 

Now we can see é um álbum mais aberto e acessível que o anterior – o conceito não é tão rígido, e não há uma narrativa interligando as canções. Para a banda, a opção representa um perigo – sem idiossincrasias, eles poderiam muito bem se perder entre tantos grupos do gênero. Mas aí está o pulo do gato: faixas como When I died e Liquid in, liquid out se sairiam muito bem nas rádios, e ainda assim soam cruéis, perversas – uma espécie de morbidez adolescente em tom maior.

Dentro de um formato estreito (e econômico por excelência), o Thermals avança com passos curtos, mas firmes. At the bottom of the sea, a faixa mais longa do disco, tem uma força dramática capaz de sustentar o disco inteiro. Já You dissolve inclui notas de piano às guitarras, sem soar apelativo. 

Será que estamos diante da gestação de uma banda pop? Pode ser. Eu não me incomodaria.  Mas note a ironia: o disco mais convidativo do grupo é também o mais filosófico, e o primeiro lançado pelo selo Kill Rock Stars. De Elliott Smith e Sleater-Kinney, lembram? Pois o Thermals faz justiça a essa tradição.

Quarto álbum do The Thermals. 11 faixas, com produção de John Congleton. Kill Rock Stars. 7/10

The Spirit – O filme

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The Spirit, 2008. De Frank Miller. Com Gabriel Macht, Jaime King, Eva Mendes, Samuel L. Jackson e Scarlett Johansson. 108min. 4/10

No blog de The Spirit – O filme, Frank Miller trata Will Eisner com Mentor (assim, com maiúscula). “Eisner quis criar algo novo, inteligente e exploratório. Foi isso que ele fez. É isso que estou fazendo”, escreveu, sobre a adaptação da HQ.

Comparações desse tipo dão a entender que existiu, no mínimo, um entrosamento de ideiais entre os estilos de Eisner, que morreu em 2005, e os traços de Miller, autor de Sin City, 300, Batman: ano um. Mas existiu mesmo? E em que sentido? (Algum fã pode me ajudar?)

Não conheço tão bem os dois ídolos das graphic novels. Estou de gaiato no navio, perdão. Porém, se houve esse tipo de comunhão, esta tradução de Spirit parece perdê-la completamente de vista. Até onde sei, Eisner é o arquiteto das metrópoles, cujos personagens (bastante vivos) convivem num ambiente de prédios, chuva e concreto – e, não raramente, são devorados pelos perímetro urbano. Já Miller me parece obcecado por conflitos chapados, dramas físicos, pela violência bestial que explode no mundo. Um me impressiona por uma elegância melancólica, discreta; o outro é um bruto.

The Spirit – O filme força o encontro entre Miller e Eisner. Não li a série original, mas existe uma tensão permanente em cena que deve interessar aos fãs dos escritores. E também um descompasso estranho, que faz do filme uma peça incompleta, fria, um projeto que não deu certo.

Admito que assistir à sessão foi uma experiência desagradável. Não provocada por excessos visuais e ambição desmedida (como acontece com Watchmen) ou pelo clima de matinê aguada (caso de Quarteto fantástico, digamos). Miller prefere o meio-termo – e como neva em Central City! Mas acredito que por não parecer uma homenagem fluente ou minimamente intrigante – para quem não leu a graphic novel, como eu, deixa até a sensação de que o gibi é uma enganação. 

Não dá para ser injusto e reclamar da ausência de Robert Rodriguez (não imagino qual teria sido a extensão do trabalho de Miller em Sin City), mas fica muito visível o desconforto de Miller com o cinema. Sem intimidade com o meio, ele se cerca de efeitos visuais e adota uma encenação noir chapada (olha o estilo duro do sujeito aí), com muitos trechos monocromáticos e detalhes de animação – um formato que se aproxima demais de Sin City e, ao mesmo tempo, maltrata os personagens, tratados como caricaturas. 

É uma transcrição bastante seca, desarranjada, quase um borrão. Nas primeiras cenas, Miller até consegue compor a atmosfera típica de Eisner (o herói morto-vivo declara amor à cidade decadente), mas não dá conta de tirar do papel quase nenhum conflito entre os personagens – e os vilões extravagantes, que deveriam provocar risos (ou sabotar a trama, sabe-se lá), provocam o efeito de uma ingênua comédia pastelão. Todo o miolo da narrativa é confuso, frouxo – a cada cena, dá para imaginar o mico que os atores pagaram diante da tela verde. 

Vão dizer que Sin City já era mecânico assim. Não era. O mundo artificial de Rodriguez jogava o tempo todo com elementos do cinema e dos quadrinhos. O quanto de gibi tem o cinema noir? O quanto de noir tem o gibi de Miller? Eram essas as perguntas. The Spirit trata o experimento de Miller como uma fórmula, mas se contenta em construir um filme-gibi – falta vontade de cinema, mas antes disso, o diretor simplesmente não parece saber o que fazer com as câmeras, os atores, o texto e os efeitos.

Fiquei com um pouquinho de saudades de Zack Snyder, admito. E isso não está certo.

2 ou 3 parágrafos | Sua resposta vale um bilhão

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Apesar de adotar uma estrutura semelhante ao livro de Vikas Swarup – a cada pergunta do game show, um novo causo é narrado pelo personagem principal -, Quem quer ser um milionário? é uma adaptação absolutamente infiel às tramas do original. O que é bom, por um lado (o filme dialoga com o livro, acrescenta algumas ideias); e um tanto incômodo (mas compreensível), por outro.

O complicado de engolir é a forma como o roteirista Simon Beaufoy deleta quase tudo o que existe de grotesco ou perverso no livro. O narrativa perturba por  adotar um tom de fábula adolescente para empilhar contos que oscilam entre o pitoresco e o brutal (num dos primeiros capítulos, para ficarmos com um exemplo, um padre curra um menino depois de cheirar uma carreira de cocaína – e isso é só o começo). Em alguns trechos, lembra a franqueza de O rei de Havana, de Pedro Juan Gutierrez. Troque Havana por Mumbai e cá estamos.

Ok, não é tão visceral. No livro (7/10), há muitos dos truquezinhos apelativos que encontramos no filme (e o capítulo final, com surpresas melodramáticas à rodo, é de provocar vergonha alheia). Mas Swarup me parece mais digno do despudor de Bollywood – e da tradição indiana de contar histórias, lendas, fábulas – que o próprio filme de Boyle. E aí esbarramos numa curiosidade até engraçada: a figura do narrador, adaptado a um ambiente de violência a ponto de tratá-lo com bom humor, lembra bastante Cidade de Deus – o livro de Paulo Lins.

Superoito express (4)

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december

The hazards of love | The Decemberists | 6.5 | O segundo álbum do Decemberists por uma grande gravadora é um daqueles projetos tão ambiciosos quanto falhos, mas que impressionam pelo escopo (e a Capitol Records não está sendo corajosa nem nada: em tempo de Viva la vida, deve haver um público pronto a abraçar esses complexos de épico). Colin Meloy, a dois passos de assumir o trono de Billy Corgan, narra uma fábula de amores proibidos, seres da floresta e tragédias violentas. Começa como uma homenagem ao folk britânico dos anos 60, termina com riffs à Led Zeppelin. Estranhamente, a banda nunca parece à altura do formato à ópera-rock que adota: no nicho, fica mais para Ben Folds Five e My Chemical Romance (criativo, mas inofensivo) que para uma jornada à Fiery Furnaces.    

The law of the playground | The Boy Least Likely To | 6.5 | A calda açucarada de fofura pode provocar enjoo, mas o recheio é menos gorduroso do que dá a entender: o segundo álbum do duo britânico não repete a receita da estreia (resumindo: a banda saiu da garagem e conseguiu pagar por um bom estúdio), tem melodias que não apodrecem na terceira audição (algumas delas, como Whiskers, ganham sabor com o passar do tempo) e reforça a identidade do grupo, que compõe hinos delicados para velhos adolescentes. Tem senso de humor, apesar da polidez. 

Two | Miss Kittin and The Hacker | 6 | Enquanto o Yeah Yeah Yeahs descobre o electro-rock, o segundo disco de Miss Kittin com The Hacker tenta livrar-se desesperadamente do rótulo. Não é tão fácil quanto parece. Ao contrário dos hits esqueléticos e safadinhos de First album, eles agora optam por climas mais pesados, com uma eletrônica que sufoca em vez de chocar (as duas primeiras faixas, The womb e 1000 dreams, passam dos cinco minutos; só a terceira, Pppo, decola). Um retorno bastante digno, ainda que pouco memorável – e a cover de Suspicious minds, do Elvis, parece deslocada, uma armadilha fácil demais. 

Fantasies | Metric | 5 | Se a carreira solo de Emily Haines soa confessional o suficiente para fazer com que nos esqueçamos das referências óbvias  (Fiona Apple + Cat Power), não posso fazer o mesmo sobre o Metric: não consigo encontrar nada na banda além de uma superfície sonora bastante fina, previsível e às vezes reluzente. Haines afirmou à imprensa que tirou férias em Buenos Aires para compor as novas canções: e daí o álbum abre com uma faixa que copia escancaradamente os trejeitos de Kim Deal (Help, I’m alive). Ou seja: ou eles querem apenas compor canções aptas para qualquer top 20, ou não sabem converter teoria em prática.