Mês: março 2009

Wolfgang Amadeus Phoenix | Phoenix

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phoenixcapaReconheço que o Phoenix pode soar como uma das bandas mais ridículas do planeta. Pode, às vezes deve

Outro dia, numa daquelas lojas de roupas que fedem a perfume francês, decidiram usar Everything is everything como música ambiente. As clientes a-do-ra-ram. E eu, encarando as caixas de som: esses franceses fazem pop de bijuteria, ou têm um excelente, estranho senso de humor? 

Ainda estou firme com a segunda opção. Mas admito que a primeira também esteja correta.

A melhor introdução ao Phoenix está no Wikipedia. Lá, a banda é localizada na mesma cena francesa que revelou Daft Punk e Air.  É um contexto importante – já que, nesse trio, o Phoenix foi aquela que levou mais ao pé da letra a ideia do pop-colagem, do decalque carinhoso de referências baratas, do kitsch com coração. É pop com uma piscadela de olho, cerebral (daí que superficialmente tolo, descartável).

Por isso que, para os fãs do quarteto, é sempre desanimador ouvir comentários como “ah, mas eles chupam o electropop dos anos 80”, como se isso fosse tudo. Também é. Mas não é tudo.

Antes de Wolfgang Amadeus Phoenix (e note que, logo no título, o senso de humor está cada vez mais explícito), eles gravaram um álbum de soul music branca  (o incompreendido, talvez por parecer tão sério, Alphabetical) e um que fez a ponte entre o soft rock dos anos 70 e o “novo rock” do Strokes (o bem recebido It’s never been like that). Isso depois de uma estreia tão retrô quanto moderna (United, ainda o melhor deles).

O novo disco dá um pulo para trás – ao retomar a parceria com o produtor Philippe Zdar, de United (e do duo Cassius) – para prolongar a experiência de It’s never been like that. É o primeiro álbum do Phoenix que soa como uma continuação – as duas primeiras faixas,  Lisztomania e 1901, poderiam ter entrado no disco anterior. Talvez eles não queiram mexer num time que se deu tão bem – e admito que me decepcionei um pouco com esse jogo seguro, sem tantos lances arriscados.

Há diferenças, porém: Zdar acentua as relações da banda com a eletrônica, que retorna à toda em Fences e com um quê ambient na extensa (e quase emocionante, se eles não insistissem em soar tão gélidos) Love like a sunset. São faixas que permitem intervalos saudáveis para o álbum, sem perder o fio da meada (ao contrário do Royksopp, taí uma banda que sabe fazer discos sólidos, sem gorduras).

A segunda metade volta a arar um terreno conhecido, ainda assim agradável. Com uma exceção: a quase épica Countdown, com climas de rock progressivo e ambição nunca antes imaginada pela banda (além de uma letra surrealista, quase um transe), dá uma pista de como este álbum soaria se não fizesse tanto esforço para fazer com que lembremos do passado do Phoenix.

Mas é uma banda que ainda consegue soar extremamente direta (para quem procura os hits) e tridimensional (para os iniciados). Só teremos a ganhar se lojas de roupas e elevadores a adotarem como trilha sonora.  

Quarto álbum do Phoenix. Nove faixas, com produção de Phoenix e Philippe Zdar. Cooperative Music/V2. 7/10

Watchmen, a crítica

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Da série “críticas que não tratam o espectador como um asno”, tenho que recomendar o texto do Kléber Mendonça Filho sobre Watchmen. É um assombro. E olha que não fico indicando textos à toa. Está aqui.

E é mais que o suficiente, por hoje. Quer dizer, quase. Ontem, por obrigação de trabalho (caso contrário, estaria em casa vendo Big Brother), assisti a uma das exibições digitais de óperas do Met, em cartaz numa sala “de arte” perto de você. Não tenho condições de avaliar o espetáculo de 3h20 de duração, mas acredito sinceramente que a Rain deveria se dedicar a isso: óperas. E deixar os filmes em paz.

‘This is why Pitchfork sucks’

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Se meu avô tentasse ouvir um disco da Joanna Newsom, ele provavelmente também desistiria nos primeiros quarenta segundos. A harpa! A voz! O programa Breakfast at Sulimay’s, da Scrapple.tv, convida três velhinhos simpáticos e aposentados para comentar canções de indie rock e rap. O resultado é hilariante. Neste vídeo, The Thermals, The Decemberists, Clipse e Newsom passam pelo crivo dos jurados. Na Pitchfork tem mais. Eu recomendo o do Animal Collective (repare a expressão de ódio da vovó).

Aliás, a Pitchfork, o site mais odiado nas geriatrias do planeta, está com visual reformulado e duas boas novidades: agora dá para ouvir álbuns resenhados; e as ‘track reviews’ felizmente retornaram (com Phoenix e tudo, ouçam lá).

2 ou 3 parágrafos | Dia dos namorados macabro

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Versão sem 3D: perde um parágrafo.

É uma pouca vergonha (como diria minha vó) ou não é? Como se não bastasse a projeção digital que corta as bordas dos filmes (aguardem por Entre os muros da escola), agora temos que engolir isto: versão 2D de fitas formatadas para exibição em 3D. E dá-lhe tranqueiras lançadas em direção às câmeras, para provocar efeito – tripas, tocos de árvore, bastões, lanças, globo ocular. Parece até tiro ao alvo. O espectador insatisfeito pode pedir o dinheiro de volta, pode?

Falta um parágrafo, vamos lá: o diretor deste remake picareta (sem trocadilho) trabalhou um tempão como editor em filmes de Wes Craven. Por isso mesmo, não merece nossas desculpas. Salvo uma cena linda de tão delirante – uma loura ataca o serial killer vestindo apenas um par de sapatos de salto alto -, Dia dos namorados macabro (4.5/10) é um pântano de ideias filmado com o ‘padrão de qualidade’ de um piloto de seriado. Old story. Não tem os personagens de plástico do novo Sexta-feira 13. Mas isso lá conta como bônus? Ah, lembrando: eu quero meu 3D, tio.

Junior | Röyksopp

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royksoppÉ uma daquelas ironias amargas: apesar de ter lançado belos singles (como Eple, Poor Leno e o recente Happy up here), o Röyksopp nunca conseguiu compor álbuns minimamente consistentes. Mesmo o primeiro, o elogiado Melody A.M., de 2001, parece uma colcha de retalhos perto de Moon safari, do Air (a referência mais próxima, naquela época).

Os defensores da banda podem até dar de ombros para a fragilidade dos discos (e sair dizendo por aí: “o álbum morreu, antes ele do que eu”). Mas acontece que o duo norueguês dá a impressão de estar bastante empenhado nessa arte menosprezada (mas bastante viva, ok?) – a arte do álbum.

Junior se sustenta nos singles (Happy up here, The girl and the robot), mas pede para ser interpretado como uma obra com um conceito. Quer ver? Para começar, é um disco de cantoras – com participações de Robyn, Lykke Li, Karin Dreijer Andersson (The Knife, Fever Ray) e Anneli Drecker. As vozes femininas costuram (ou deveriam costurar) as canções.

As faixas são intercaladas por temas instrumentais e os climas sugerem a busca de harmonia entre o primeiro álbum da banda (mais delicado, com um quê de space rock e muito de pop francês) e o segundo (The understanting, mais noturno, urbano e aflito). Um álbum de sonhos fofos sob neon.

Outro sintoma: o duo volta ainda este ano com Senior, um trabalho “mais introspectivo”, segundo eles. Um disco complementar. Só isso já explicaria a desejada identidade de Junior, que nega a imagem (que seria até saudável, entenda) de “compilação de singles”.

Nesse curto-circuito de intenções, o robozinho dá tilt. O álbum, apesar de ótimos momentos, não tem liga – às vezes soa mesmo como um greatest hits, só que composto de faixas de artistas diferentes. Até eu, que adoro Happy up here, entendo como um equívoco abrir o disco com a música – que, em vez de um delicioso aperitivo (é isso que ela é), é servida como prato principal.

A segunda e a terceira faixas, mais perto do tom abertamente comercial de The understanding, se aproximam da dance music mais trivial (ainda que os sintetizadores de Vision one maltratem nossos ouvidos). Forever retoma o espírito brincalhão, com uma catarata de cordas que lembra o Daft Punk de Discovery. Daí em diante, o disco oscila entre um extremo e outro, completamente indeciso – e as participações de Andersson só complicam esse coreto, já que as duas soam como remixes do Knife.

De qualquer forma, Tornbjorn Brundtland e Svein Berge ainda têm prestígio e devem aproveitar-se da onda electropop para fisgar alguma atenção da crítica. Mas note: o hype, se colar, deve durar pouco. O álbum do Phoenix está chegando aí para (se tivermos sorte) clarear o céu do pop.

Terceiro álbum do Röyksopp. 11 faixas, com produção da própria banda. Wall of Sound/Astralwerks. 6/10

BÔNUS TRACKS

batforlashesTwo suns | Bat for Lashes | 7 | A voz exótica que faltou ao disco do Royksöpp, Natasha Khan tem tudo para ser eleita a musa dark da temporada (sim, ela já gravou uma cover de The Cure, muito coerentemente). No segundo álbum, o Bat for Lashes  sofre de distúrbio de personalidade: soa ora como Kate Bush, ora como Björk, ora como PJ Harvey, ora como The Knife, ora como a menina do Exorcista. Mas não são referências fáceis, e, se a capa remete a Evanescence, as canções miram a estratosfera, driblando expectativas dos fãs do primeiro disco, arriscando seriamente sem perder a unidade. Entenda como uma aventura mística de auto-conhecimento, sem desfecho à vista. Scott Walker e Yeasayer participam.

Procedimento operacional padrão

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Standard operating procedure, 2008. De Errol Morris. 116min. 7/10

A crítica quer filmes complexos. Mas o quanto de complexidade há nas críticas?

É uma generalização tola, provavelmente sem resposta, um tiro pela culatra (reconheço meus erros!), mas não consigo pensar em outra coisa. Honestamente: há textos sobre cinema que parecem me tratar, no mínimo, como um asno. 

Já disse isso antes, volto a dizer. Há parágrafos que me atormentam. Leio e fico me perguntando: quem ele quer enganar? Ou melhor: quem ele pensa estar enganando?

Todo mundo tem algo contra críticos de cinema. Também tenho. Os que mais me incomodam são aqueles que tratam o leitor como um ser que, por mais que se esforce, nunca dará conta de assimilar com um certo grau de profundidade a experiência de assistir a um filme.

Talvez essa parcela de críticos tente se comunicar com um certo “espectador médio”, quase sem salvação, coitadinho da silva, fã de fitas de ação desmioladas e de comédias dirigidas por Daniel Filho. Mas, vem cá: se é que existe, esse espectador gastaria tempo lendo críticas de cinema? E o crítico teria essa função evangelizadora?

Dois exemplos recentes que me tiram do sério: Quem quer ser um milionário? e Procedimento operacional padrão

No primeiro caso, há os críticos que não aprovaram o filme (direito deles) e aqueles que, prontos a levar o rebanho para o bom caminho, tomam uma posição semelhante à de um pastor da mais fundamentalista das igrejas evangélicas. O filme de Danny Boyle vira a representação do demônio. Cabe à crítica assumir o papel de um panfleto que alerta os espectadores (pobrezinhos, não sabem nem amarrar os próprios sapatos!) sobre o perigo de brincar com um lobo-em-pele-de-cordeiro. Alguém cai nessa? Soa tão pobre quanto a defesa do longa como uma “montanha-russa de emoções”.

Com Procedimento operacional padrão, acontece algo diferente. Parte da crítica se limita a sublinhar a importância temática do filme, que investiga os abusos cometidos por oficiais norte-americanos contra prisioneiros iraquianos. O documentário de Errol Morris trata de um assunto importante; logo, ele é importante. Os leitores-asnos que se contentem com o argumento de meia-tigela.

Uma lição que aprendi ainda no primário: a forma mais fácil de defender um ponto de vista é eliminar possibilidades de contradição. Um discurso sólido não admite arestas ou hesitação, muito menos possibilidade de erro. Ainda hoje, tenho sérias dúvidas de que esse método quase matemático sirva para analisar obras de arte. No cinema, na literatura, na música… Há certo e errado?

Desconfio que não. Mas estou certo de que, na arte, há meios-tons. Ou deveria haver. Quando um crítico admira um filme, saberá facilmente defendê-lo. Há um sem-número de fórmulas e frases de efeito para justificar um elogio. Quando um crítico detesta um filme, o trabalho será mais automático ainda. Palavras como “pretensioso”, “desengonçado”, “desconjuntado” ou simplesmente “inepto” estão sempre à mão.

O difícil, percebo, é vencer os clichês da crítica e arriscar um diálogo mais direto, mais franco com o leitor. Garanto: ele tem perfeita condição de conversar com o autor da crítica (mas sim, também garanto que pouquíssimas pessoas leem críticas), de argumentar, de notar raciocínios maniqueístas, de perceber frases patéticas, de detectar dogmas vencidos e de, finalmente, cutucar o resenhista com um “mas deixe de ser radical, vá, não somos mais crianças”.

Voltando a Procedimento operacional padrão (e não a Quem quer ser um milionário?, que para mim já esgotou): ao sair do cinema, ouvi comentários sobre o longa-metragem que me pareceram mais sofisticados que a maior parte das resenhas que li sobre o filme. Enquanto muitos críticos reforçam a ladinha da “importância do tema”, ouvi espectadores reclamando do excesso de câmera lenta, dos truques e manias de uma encenação que busca a todo momento um apelo emotivo, uma atmosfera claustrofóbica, um tom enojado de narrativa, às vezes até uma queda pela chantagem sentimental.

Taí: o público do filme percebe muito claramente que Morris trabalha o tempo inteiro com elementos de ficção para reconstituir situações supostamente reais (que só podem ser comprovadas por fotografias), e que essa forma de filmar, simplesmente isso, renderia debates mais interessantes (eu não entendo, por exemplo, por que usar slow motion para filmar um ovo quebrando). 

Enfim: é só um traço do filme (há muitos outros). Outro dia li uma resenha de O casamento de Rachel quase toda sustentada numa comparação com Festa de família. Boa parte dos espectadores do filme de Jonathan Demme (um diretor tratado pelo crítico como… hmm, quase um asno) provavelmente pensou nessa comparação. Pensou nela e em outras. Pensou e construiu raciocínios mais elaborados. Enquanto isso, o crítico (pobrezinho) continuou lá atrás.

2 ou 3 parágrafos | O reino do amanhã

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reinoamanha

O reino do amanhã (8/10) parece ter sido escrito para acompanhar uma sessão de O despertar dos mortos, de George A. Romero. No livro de J.G. Ballard, um monstruoso shopping center (chamado Metro-Centre) devora uma pequena cidade no subúrbio rico da Inglaterra. É o resort, o templo, o paraíso, a redoma de vidro onde os moradores de Brooklands oram e comungam diariamente – entre máquinas de lavar, canais de tevê a cabo, praias artificiais e ursos de pelúcia.

Do autor de Crash e Terroristas do milênio (ambos impressionantes, recomendo), eu não esperava um olhar menos demolidor para a humanidade. Como os zumbis de Romero, os figurantes da trama zanzam feito sonâmbulos em escadas rolante e praças de alimentação. O personagem principal é um publicitário que, como poucos, entende as engrenagens daquele refúgio de concreto e ar condicionado – não há marketing mais eficiente, ele sabe, que a crueldade associada a espetáculos esportivos.

O livro foi criticado por repetir procedimentos típicos da obra de Ballard: a distopia quase cega, o clímax megalomaníaco (novamente, o primeiro capítulo é lúcido; o último é doentio), a crítica feroz ao consumismo e uma queda pelo camp (em vários momentos, o discurso é pura auto-paródia). Mas existe uma novidade importante: o protagonista não é apenas vítima de um novo tipo de fascismo, mas atua (cinicamente) como um arquiteto do mal. É aí que Ballard elege os grandes alvos da vez: os intelectuais que, com boas ou más intenções, lançam lenha no inferno do ser humano. Como de costume (e como o Romero de Diário dos mortos), leva esse ataque às últimas consequências.

Entre os muros da escola

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muros

Entre les murs, 2008. De Laurent Cantet. Com François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela e Juliette Demaille. 128min. 7.5/10

Reclamem do que quiser (e eu, pelo menos, tenho muito a reclamar), mas a lista de vencedores do Festival de Cannes de 2008 não peca por falta de coerência.

O júri liderado por Sean Penn escolheu rigorosamente filmes que espelham temas “importantes” e atuais (a máfia em Gomorra, a corrupção à europeia em Il divo) de preferência com realismo cortante, próximo ao docudrama  (Linha de passe, O silêncio de Lorna). Nada mais justo, portanto, que premiar com a Palma de Ouro este Entre os muros da escola, um longa que resume o olhar dos jurados e da curadoria do festival.

O filme de Laurent Cantet poderia até ser tomado como uma espécie de símbolo para uma das principais (talvez a principal) tendências do cinema contemporâneo: a autoficção. A expressão de Jean-Claude Bernadet veste perfeitamente uma narrativa em que o protagonista, um professor de Francês, é interpretado pelo homem cujas experiêncais reais inspiraram a trama. Ator, testemunha, personagem e roteirista atendem pelo mesmo nome: François Bégaudeau.

Aos que tratam esse naturalismo radical como uma espécie de “última fronteira” do cinema, o filme parecerá uma obra-prima. Não é meu caso. Talvez eu esteja numa outra sintonia (provavelmente sim), mas fitas selecionadas para mostras paralelas de Cannes – e que colocam em xeque certos gêneros e modismos cinematográficos, como Aquele querido mês de agosto e Sonata de Tóquio – me parecem mais provocativas, sofisticadas etc. Mais novas, enfim.

Se compararmos aos filmes anteriores de Cantet (como A agenda e Recursos humanos, ou até com o desastrado Em direção ao sul), dá para notar que o diretor não abriu mão do discurso político – em prol das minorias, contra a exploração e mecanização do trabalho humano -, agora deslocado para o ambiente de um colégio da periferia de Paris. Mas a forma como o diretor transforma uma sala de aula num microcosmo da sociedade francesa (com tensões raciais, étnicas, culturais) beira o esquematismo.

Apesar do potencial para render temas para colunas de articulistas de cadernos culturais (quem vai ser o primeiro a analisar o papel dos personagens negros do filme, aparentemente integrados à classe mas, na prática, excluídos de um sistema que não os aceita verdadeiramente?). Esse “painel da França de hoje” não é o que mais me agrada no filme, talvez por parecer didático demais.

Um dos jurados de Cannes disse ter se impressionado pela forma como o longa parece ter sido “filmado ao vivo”. A narrativa opera quase sempre nessa chave – a da confusão entre uma suposta ideia de realidade e a pura ficção – e, de fato, os atores cumprem à perfeição a proposta realista do longa. Não há outro longa sobre vida escolar que se aproxime tanto das nossas experiências do dia-a-dia, das nossas lembranças de colégio, da observação direta de costumes. Nesse ponto, sai-se quase uma extensão do documentário Ser e ter, de Nicolas Philibert.

O filme quase integralmente (ou o que tem de melhor) é a encenação da atmosfera de uma sala de aula apinhada de adolescentes. São sequências longas, ruidosas, cheias de variações de humores, (que lembram alguns trechos de O segredo do grão e O casamento de Rachel) que transformam a classe ora numa praça de guerra (conflitos à flor da pele, provocações, crueldade entre alunos e professores, agonia teen), ora numa comédia leve. Sabemos da nobreza do trabalho de um professor. Mas Cantet nos lembra que ensinar é negociar, confrontar, lidar com preconceitos e traumas, administrar diferenças.

Que aluno nunca desejou vingar-se do professor? Que professor não desejou abandonar a turma como quem desiste de uma longa sessão de tortura? Está tudo aqui.

O filme lida com esses sentimentos contraditórios com naturalidade – isso até o momento em que a ficção entra em campo para organizar esse “retrato do cotidiano” e compor uma pequena trama de conspiração, com direito a rompante de violência e o equivalente a uma cena de julgamento. É quando a realidade dá o braço a torcer.

Uma das discussões do filme (há tantas!) diz respeito ao abismo de linguagem que separa professores de alunos. Numa das cenas, uma adolescente diz algo mais ou menos assim: “A linguagem que a gente usa é outra. A sua é antiga.” Lembrei imediatamente de A esquiva. Um filme que lida com essa diferença por um viés até lírico, sem a necessidade de explicitá-la. O tipo de política sutil que, pelo visto, anda em baixa no Festival de Cannes.

Veckatimest | Grizzly Bear

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grizzlyVeckatimest é uma pequena ilha deserta perto de Massachusetts. E o nome do terceiro álbum do quarteto nova-iorquino Grizzly Bear, que retorna três anos depois da sensação indie Yellow house.

Posso interpretar como uma metáfora? Tipo: contra as expectativas de quem torce para que eles se transformem num gigante à Arcade Fire, a banda liderada por Daniel Rossen e Ed Droste prefere continuar habitando um mundo miúdo e misterioso, um refúgio tão distante e tão próximo da civilização.

O isolamento, para eles, é um porto seguro. Fazem bem. A banda não se deixou afetar pelo hype que a alçou ao paraíso do rock independente, nem tomou uma via mais acessível. O EP Friend, de 2007, indicava o início de uma fase menos abstrata e mais pop, com guitarras distorcidas, influência de dance music (no remix do CSS, por exemplo) e doçura. Era um bom disco, mas Veckatimest soa como uma verdadeira continuação para Yellow house.

Não só genuína, mas até cuidadosamente desenhada para dar sequência às ideias do disco anterior. Aquele era um álbum que tomava melodias razoavelmente convencionais (como a de Knife, que poderia ter sido gravada por um grupo vocal feminino dos anos 60) como base para experimentações psicodélicas, epifanias rurais e uma interpretação bastante atual  (à luz das invenções de um Animal Collective, por exemplo) para a lisergia musical do final dos anos 60.

É exatamente nessa base em que Veckatimest se sustenta. O que, para os fãs que esperavam uma grande novidade, pode soar frustrante. Em vez da ruptura, o Grizzly Bear adiciona alguns elementos a uma sonoridade precocemente consagrada (e reprisada no álbum do Department of Eagles, de Rossen). As guitarras de Friend rasgam boa parte das faixas, mas a atmosfera ainda é a de um ciclo barroco de canções, à Van Dyke Parks.  

Não só isso: o que transparece no álbum é absoluto detalhismo – e a intenção de forjar uma identidade sonora a todo custo. Tanto que os 54 minutos, densos, chegam a parecer exaustivos num primeiro contato (com o tempo, garanto que a familiaridade com as canções facilitará o processo). Os momentos de leveza de Yellow house (e não eram poucos) são trocados por faixas que insistem obsessivamente uma mesma estrutura: começam como pequenos mantras que desaguam em linhas melódicas tão assobiáveis quanto as de uma música do Fleet Foxes.

Essa busca por coesão rende um disco quase uniforme, com uma ou outra saída de emergência (a delicada Hold still, o desfecho Foreground). Mas fico com a impressão de que qualquer julgamento precipitado será falho. Ouço o álbum há três dias e ainda não consigo tirar conclusões definitivas. Faixas como Southern point, Two weeks, Cheerleader e Ready, able me parecem tão fortes quanto os melhores momentos do álbum anterior. Mas existe algo impenetrável e árido neste disco, como se precisássemos forçar a porta para entrar.

O que é um bom sinal. Cada vez acreditamos estar mais perto do Grizzly Bear. Veckatimest faz com que a banda chegue aos nossos ouvidos como um objeto estranho e sedutor. Mais uma vez.  

Terceiro álbum do Grizzly Bear. 12 faixas, com produção de Chris Taylor. Warp Records. 8/10

2 ou 3 parágrafos | Dexter, terceira temporada

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dexter

É comum que as séries aparem as próprias arestas lá pela terceira, quarta temporada. Nessa altura, o público já está familiarizado com os personagens e os roteiristas se sentem mais confortáveis (ou mais pressionados, em alguns casos) para tratar os conflitos da trama com um pouco mais de complexidade. De Arquivo X a Gilmore girls, a regra costuma ser essa. Mas não é o que acontece com Dexter, que vai envelhecendo mal.

A terceira temporada (6.5/10) é a mais frágil e desinteressante de todas, ainda que se dedique bravamente a explorar traços de personalidade do protagonista – acima de tudo a relação entre Dexter e o pai (agora transformado num espectro, quase um coadjuvante fantasmagórico). Ele próprio prestes a assumir a condição de papai e chefe de família, nosso herói serial killer vive um conflito introspectivo que a série – ainda sustentada em fórmulas de thriller – não dá conta de mapear (quem sabe na próxima temporada?).

Como se esse drama não fosse suficientemente forte (os roteiristas não acreditaram nele, essa é a verdade), as subtramas acabaram vencendo – o que dá a esta fase da série um tom quase descartável. São as Novas Aventuras de Dexter, apenas. A amizade entre o psicopata e um promotor tã-tã  (Jimmy Smits) e a caça a um assassino que arranca a pele das vítimas dominaram os episódios – talvez por causa dessa narrativa pouco nutritiva, nunca os atores se destacaram tanto. E uma série com Michael C. Hall e Jennifer Carpenter quase não precisa de texto. Quase.

Watchmen – O filme

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watchmen

Watchmen, 2009. De Zack Snyder. Com Billy Crudup, Patrick Wilson, Jackie Earle Haley e Carla Gugino. 163min. 5/10

Watchmen – O filme é uma adaptação bastante fiel à trama narrada por Alan Moore na série de quadrinhos. Cá estão super-heróis aposentados, traumatizados e desiludidos. Cá está a América na ribanceira da guerra atômica, terra sem salvação. Os flashbacks intermitentes, as narrativas entrecortadas, as referências pop, Bob Dylan e Richard Nixon? Sim, senhor, tudo em ordem.

Como em 300,  Zack Snyder  leva ao pé da letra o mandamento principal de um fanboy: é fiel, extremamente fiel, aos ídolos. Alan Moore, que não está nos créditos do filme, aparece em cada fotograma. Nos diálogos. Nas situações. Nos personagens. Só se ausenta num detalhe (detalhe?): quem procura no filme o espírito aventureiro do britânico sairá, no mínimo, desamparado.

E usar adjetivos como inventivo ou ousado para classificar o Watchmen original é pouco, é insuficiente, não cola. Será que os fãs não perceberão que a HQ é quase o oposto do filme de Snyder? O cineasta adota o tom de homenagem, de reverência, de transcrição respeitosa. O Watchmen de papel é tudo menos isso.

Duas décadas depois de publicada, a série ainda provoca espanto pela forma feroz como enfrenta e quebra as convenções dos quadrinhos. Eu, que li o calhamaço ontem, perdi o sono. Irônica, metalinguística, um monstro de vinte cabeças, às vezes parece um romance, uma biografia, um diário, um gibi de super-herói (ou: uma paródia de gibis de super-heróis), um conto de ficção-científica, um filme-catástrofe, uma tese sobre cultura pop.

O filme é… bem, é um filme de Zack Snyder, e isso explica quase tudo. Eu queria muito não forçar comparações entre Snyder e Moore, mas me impressiona como o cineasta desaparece na sombra do escritor. Quando tenta contribuir, o diretor soa gratuito, como nas cenas de violência em slow-motion (grotescas, todas) e o sexo soft à Cine privê

De quem é o filme mesmo? Pensando melhor, não faço ideia. Desconfio que este Watchmen tenha nascido como um mamute geneticamente modificado, solto em Hollywood. Um bicho indomável, gigantesco, descontrolado – vide as quase três horas de duração.

A ambição é tanta que eu quase-quase admirei o filme como uma espécie de Southland tales para as massas. A trilha sonora oitentista lembra um pouco de Donnie Darko, ainda que reconstituir os anos 80 via Tears for Fears não pareça a estratégia mais original. O resgate da época, sempre de acordo com parâmetros realistas em voga, segue de perto o clima de Batman – O cavaleiro das trevas. Mas Snyder aplica tão radicalmente a ideia de abraçar toda a saga dos Watchmen que fica difícil não imaginar como o projeto se sairia melhor no formato de uma série televisiva de 12 episódios – com a vantagem de que a HBO atrai atores mais competentes.

Por falar em atores, que elenco é esse? Quando uma produção dessa estatura precisa recorrer a um clone de Robert Downey Jr (Jeffrey Dean Morgan, o Comediante), algo vai mal. Em várias das cenas, me peguei com a sensação de assistir a uma versão R-rated de Quarteto fantástico. Filmada por um David Fincher com saudades do discurso agressivo (e contraditório, e confuso) de Clube da luta.

Há quem goste. Aposto que alguém vai acabar comparando com Laranja mecânica. Bom mesmo é saber que Moore, gênio, fez questão de não assinar embaixo.

2 ou 3 parágrafos | Rio congelado

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frozen

Cá estamos nós na triste ressaca do Oscar: irrelevante este Rio congelado (5/10, e estou sendo bastante generoso)! Entendo o efeito-Melissa Leo, uma atriz por tantos anos injustamente condenada à função de coadjuvante de luxo – ainda que, no papel de mãe-coragem-à-flor-da-pele-custe-o-que-custar, eu ainda prefira a Sandra Corveloni. Mas uma indicação ao Oscar de melhor roteiro? Verdade?

A trama é, de longe, o que mais me incomoda no filme. Mais, bem mais que a direção de Courtney Hunt, que segue as marcações de um típico drama indie norte-americano ambientado numa cidadezinha gélida abandonada por deus. Tudo me parece extremamente artificial num drama que força a relação de amizade entre a personagem de Leo (um mulher branca, pobre e amargurada) e uma índia envolvida com imigrantes ilegais.

Elas vivem num ambiente exótico na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá. Para transportar os imigrantes, são obrigadas a dirigir sobre uma camada de gelo (um doce para quem adivinhar o que acontece). Pior: ao tentar descongelar os canos da casa, o filho mais velho de Leo quase provoca um incêndio. O menorzinho, coitado, quer ganhar um autorama de presente. E é véspera de Natal! E… Quem levou o Oscar de roteiro original foi Milk, né? Então deixa quieto.

Superoito express (III)

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pains

…E ainda empacado no disco do Bruce Springsteen.

The Pains of Being Pure at Heart | 8 | Como determina a tradição dos (bons) álbuns de estreia, o début deste quarteto nova-iorquino não tem uma única faixa que pareça ter sido escrita às pressas. O bacana é como eles gravam um repertório redondinho (melodias de coração mole em formato shoegazing, com camadas de ruídos que remetem tanto a Jesus & Mary Chain quanto a My Bloody Valentine quanto a Glasvegas) com a secura de uma fita-demo. Que encontramos por acaso no fundo da gaveta, sob teias de aranha, como um segredo bem guardado. Stay alive é obra-prima. Coloque na mesma prateleira de Tigermilk, de Belle & Sebastian, e o primeiro do Vampire Weekend.

200 million thousand | Black Lips | 6.5 | Rock de garagem by the numbers: calculadamente grosseiro, milimetricamente tosco, matematicamente sujo. Questionemos sim (por que não?) a autenticidade do Black Lips (e, até hoje, o quarteto só me convence como uma espécie de paródia de bandas sessentistas incluídas no box set Nuggets, lembram?), mas eles continuam a tratar as influências com um espírito descompromissado e irônico – o que, na pior das hipóteses, arranca risadas (I saw God é o auge da falta de noção); e, na melhor, maltrata melodias que fariam Jack White delirar (Short fuse, Strating over, Let it grow). 

Little hells | Marissa Nadler | 6.5 | Ela não é Joanna Newsom nem nunca será, mas não carece de ambição. O quarto álbum de Marissa Nadler é o equivalente folk para Dance mother, do Telepathe: um disco que soa imprevisível e aventureiro mesmo quando erra feio. Apesar de uma ou outra balada corriqueira (e abrir com Heart paper lover não é uma escolha lá muito acertada), Nadler vai do country mais convencional a flertes com psicodelia e a um crossover com Pink Floyd. A faixa-título tem menos de três minutos e vale o disco inteiro.

Love, hate and then there’s you | The Von Bondies | 6 | Uma espécie de guilty pleasure: apesar de um formato afinado ao pós-punk da geração 2000, o álbum do Von Bondies é uma caricatura ambulante de bandas de rock do início dos anos 90 (um cadinho de Nirvana, um cadinho de brit pop). Um estrago. Mas, para quem viveu a época, um estrago irresistível. Um álbum de 35 minutos tão assumidamente apelativo que te deixa apenas duas opções: vomitar o almoço ou entrar para o fã-clube da banda. Eu estou quaaaaase escolhendo a segunda opção.