Simplesmente feliz

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hagolu

Happy-go-lucky, 2008. De Mike Leigh. Com Sally Hawkins, Alexis Zegerman, Eddie Marsan e Samuel Roukin. 118min. 7/10

Se eu trabalhasse numa livraria e fosse surpreendido por uma cliente como Poppy, a serelepe heroína de Simplesmente feliz, provavelmente agiria como o balconista das primeiras cenas do filme: lançaria um olhar entediado e desejaria silenciosamente que ela evaporasse na atmosfera.

Os aspectos irritantes desta professora de primário, vestida como uma Cyndi Lauper britânica em dia de promoção, deveriam soar agradáveis. Não deveriam? O senso de humor, a leveza com que encara a vida, a simpatia à toda prova. O chato (para mim, e para o balconista, talvez para uma grande parte dos espectadores) é que essas são qualidades demonstradas em excesso, exibidas em fast-forward. Poppy é feliz demais

Quando entra na livraria, ela vai logo à seção de livros infantis. Para curar-se de ressacas, cria máscaras de papelão para as criancinhas do colégio. No clima tenso de uma aula de flamenco coordenada por uma professora maníaca, solta risadas. E isso nos incomoda. Nós, os melancólicos de plantão. Nós, os pessimistas. Nós, os que compraram binóculos para assistir ao apocalipse.

Mike Leigh sabe disso. E sabe melhor do que nós. Numa entrevista recente, ele admite a intenção de compor uma personagem que, de tão otimista, provasse estranheza. Numa primeira impressão, Poppy é o arco-íris extravagante de neon que estraga nosso dia. A intenção do cineasta que, lentamente, nos aproximemos dela. E, aos poucos, entendamos a forma como ela vive. E (quem sabe?) elogiar a coragem da atitude.

Comigo funcionou. Depois dos primeiros 40 ou 50 minutos de projeção, os tiques de Poppy passaram a soar – se não apaixonantes – menos ingênuos do que eu imaginava. A graça do filme está aí – e é bastante sutil: a cada sequência, Leigh adiciona elementos ao perfil da protagonista, até torná-la plausível. Até dá-la razão para ser do jeito que é. Sorte que ele dialoga com uma atriz como Sally Hawkins, pronta a encarar a personagem por inteiro. É uma interpretação tão detalhista quanto a direção de Leigh.

Como em Naked e Segredos e mentiras, o diretor vê o ato de desenhar os personagens como a espinha da narrativa. O filme é nada mais que a rotina de Poppy. Por isso a dificuldade de colocá-lo no papel. Quem sairá de casa para assistir a um filme sobre uma mulher tão comum, que trabalha, vai a festas, namora, conversa com a melhor amiga e aprende a dirigir? Ainda assim, seria a forma mais honesta de descrevê-lo.

Não que Leigh defenda radicalmente essa opção. O filme precisa de certas muletas para manter-se de pé, e a mais frágil delas narra o óbvio contraste entre Poppy e um professor de direção severo e paranoico, a um espirro do colapso nervoso. A situação-limite nos ajuda a compreender o esforço exigido pela decisão de encarar o mundo por uma lente rósea. Mas me parece esquemática dentro de uma narrativa tão (cuidadosamente) solta. Eu preferiria simplesmente seguir Poppy enquanto ela dá aulas – e aí o filme sairia uma espécie de de Entre os muros da escola com os tons cômicos de um seriado de 30 minutos produzido pela BBC 2.

Apesar dessas e outras facilidades meio manjadas (Leigh volta e meia imprime um quê melodramático às rotinas de pessoas comuns, vide Agora ou nunca), o cineasta deixa que a narrativa ganhe um tom de “filme de verão” bastante adequado à personagem. Um tom consciente, não tão instintivo quanto daria a entender – mas quem disse que Poppy é feliz por acidente?

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12 comentários em “Simplesmente feliz

    Livio Vilela disse:
    março 30, 2009 às 2:21 am

    Comigo funcionou. [2]

    Se era para eleger um “pobrinho” como premiado da temporada, que fosse um divertido como esse.

    Tiago Superoito respondido:
    março 30, 2009 às 10:57 am

    Não sei pelo filme, Livio, mas a Sally Hawkins merecia um Oscar.

    Iuri disse:
    março 30, 2009 às 1:00 pm

    O filme é muito bom, apesar de eu sair extremamente irritado com a Poppy. Isso me fez pensar no meu extremo mau-humor e como eu sou um canalha por ter dado sorrisinho quando ela leva um chega-pra-lá mais forte, hahahaha

    Mas, para mim, o personagem mais bacana é a Zoe, pena que foi tão pouco explorada

    Tiago Superoito respondido:
    março 30, 2009 às 1:14 pm

    Aliás, a culpa da esnobada que o Oscar deu no filme parece que foi mais da Miramax que da Academia.

    Entrevistei recentemente o Fernando Meirelles e ele comentou que a Miramax tinha cinco ou seis filmes selecionados para a campanha do Oscar: entre eles, ‘Simplesmente feliz’ e ‘Ensaio sobre a cegueira’. Planejavam investir em Julianne Moore e na fotografia do Charlone, por exemplo. Mas, na última hora, enviaram uma carta aos produtores dos filmes avisando sobre a decisão de concentrar todo o investimento num candidato só: “Dúvida”.

    O Meirelles falou que ele inclusive tentou distribuir DVDs para a Academia, por conta própria, mas a Miramax barrou.

    Bruno Amato disse:
    março 30, 2009 às 2:08 pm

    Belíssimo filme. Quanto ao Oscar, a Sally estava tão cotada que chegou a participar daquela tradicional mesa-redonda da Times dos prováveis indicados ao Oscar – foi a única que não foi indicada depois, aliás.

    Tiago Superoito respondido:
    março 30, 2009 às 3:14 pm

    Mas uma coisa é a mesa-redonda da Times, a outra são os membros da Academia, que nem chegaram a receber os DVDs do filme.

    Michel Simões disse:
    março 30, 2009 às 4:16 pm

    Putz, comigo foi diferente, ela foi me irritando e no final já não suportava risada alguma dela

    Tiago Superoito respondido:
    março 30, 2009 às 4:51 pm

    Então o título em português devia ser ‘Simplesmente insuportável’, certo? hehe

    Bruno Amato disse:
    março 30, 2009 às 5:55 pm

    Sim, mas o que quis dizer foi que a interpretação dela foi muito bem recebida em diversos círculos. Se a Miramax tivesse divulgado o trabalho dela, com certeza teria sido indicada.

    Tiago Superoito respondido:
    março 30, 2009 às 5:58 pm

    Pois é, concordo.

    Michel Simões disse:
    março 31, 2009 às 4:18 pm

    Simplesmente Irritante? rs

    Jorge disse:
    abril 6, 2009 às 12:30 pm

    o filme é bom, embora não tão bom.

    :)

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