Dia: março 29, 2009

Simplesmente feliz

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hagolu

Happy-go-lucky, 2008. De Mike Leigh. Com Sally Hawkins, Alexis Zegerman, Eddie Marsan e Samuel Roukin. 118min. 7/10

Se eu trabalhasse numa livraria e fosse surpreendido por uma cliente como Poppy, a serelepe heroína de Simplesmente feliz, provavelmente agiria como o balconista das primeiras cenas do filme: lançaria um olhar entediado e desejaria silenciosamente que ela evaporasse na atmosfera.

Os aspectos irritantes desta professora de primário, vestida como uma Cyndi Lauper britânica em dia de promoção, deveriam soar agradáveis. Não deveriam? O senso de humor, a leveza com que encara a vida, a simpatia à toda prova. O chato (para mim, e para o balconista, talvez para uma grande parte dos espectadores) é que essas são qualidades demonstradas em excesso, exibidas em fast-forward. Poppy é feliz demais

Quando entra na livraria, ela vai logo à seção de livros infantis. Para curar-se de ressacas, cria máscaras de papelão para as criancinhas do colégio. No clima tenso de uma aula de flamenco coordenada por uma professora maníaca, solta risadas. E isso nos incomoda. Nós, os melancólicos de plantão. Nós, os pessimistas. Nós, os que compraram binóculos para assistir ao apocalipse.

Mike Leigh sabe disso. E sabe melhor do que nós. Numa entrevista recente, ele admite a intenção de compor uma personagem que, de tão otimista, provasse estranheza. Numa primeira impressão, Poppy é o arco-íris extravagante de neon que estraga nosso dia. A intenção do cineasta que, lentamente, nos aproximemos dela. E, aos poucos, entendamos a forma como ela vive. E (quem sabe?) elogiar a coragem da atitude.

Comigo funcionou. Depois dos primeiros 40 ou 50 minutos de projeção, os tiques de Poppy passaram a soar – se não apaixonantes – menos ingênuos do que eu imaginava. A graça do filme está aí – e é bastante sutil: a cada sequência, Leigh adiciona elementos ao perfil da protagonista, até torná-la plausível. Até dá-la razão para ser do jeito que é. Sorte que ele dialoga com uma atriz como Sally Hawkins, pronta a encarar a personagem por inteiro. É uma interpretação tão detalhista quanto a direção de Leigh.

Como em Naked e Segredos e mentiras, o diretor vê o ato de desenhar os personagens como a espinha da narrativa. O filme é nada mais que a rotina de Poppy. Por isso a dificuldade de colocá-lo no papel. Quem sairá de casa para assistir a um filme sobre uma mulher tão comum, que trabalha, vai a festas, namora, conversa com a melhor amiga e aprende a dirigir? Ainda assim, seria a forma mais honesta de descrevê-lo.

Não que Leigh defenda radicalmente essa opção. O filme precisa de certas muletas para manter-se de pé, e a mais frágil delas narra o óbvio contraste entre Poppy e um professor de direção severo e paranoico, a um espirro do colapso nervoso. A situação-limite nos ajuda a compreender o esforço exigido pela decisão de encarar o mundo por uma lente rósea. Mas me parece esquemática dentro de uma narrativa tão (cuidadosamente) solta. Eu preferiria simplesmente seguir Poppy enquanto ela dá aulas – e aí o filme sairia uma espécie de de Entre os muros da escola com os tons cômicos de um seriado de 30 minutos produzido pela BBC 2.

Apesar dessas e outras facilidades meio manjadas (Leigh volta e meia imprime um quê melodramático às rotinas de pessoas comuns, vide Agora ou nunca), o cineasta deixa que a narrativa ganhe um tom de “filme de verão” bastante adequado à personagem. Um tom consciente, não tão instintivo quanto daria a entender – mas quem disse que Poppy é feliz por acidente?

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