Dia: março 27, 2009

Living thing | Peter Bjorn and John

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petercapaO terceiro álbum do trio Peter Bjorn and John, aquele do hit Young folks, chama-se Writer’s block. Mas é o novo, Living thing, que merecia o título.  Um disco de crise. Provavelmente provocado por um bloqueio criativo daqueles que arrancam pedaço.

As angústias de astros pop sempre nos parecerá risível. Deve ser tããããão triste passar madrugadas autografando cadernetas cor-de-rosa de menininhas emocionadas, né mesmo? O que dizer do momento em que uma multidão de fãs canta o refrão que você compôs enquanto cortava as unhas do pé? Um martírio.

Ainda assim, eu não queria estar no lugar de Peter Morén, Björn Yttling e John Eriksson. Não. Uma coisa é fazer sucesso planetário às custas de videclipes grandiloquentes, hits produzidos por Kanye West e poses autoirônicas em revistas de fofocas. Outra é estourar nas paradas com uma canção que destoa de quase tudo o que você já gravou.

Bingo.

Quem ouviu Writer’s block do início ao fim (cerca de 40% dos fãs de Young folks, aposto) entende a situação: é um oceano de melancolia shoegazer com algumas ilhotas pop. A partir daí, a banda tinha a opção de faturar em cima do hit e compor mais 12 canções para levarmos no assobio. Ou de seguir em frente (e é o que fazem).

O álbum seguinte, Seaside rock, era o típico projeto experimental criado para adiar as pressões do fã-clube: influências literárias disparadas num idioma árido, lembranças de infância narradas como sonhos desfocados. Nada fofo. De certa forma, a introdução perfeita para Living thing.

Que é um álbum que manipula elementos do pop e do rock, não duvide. Mas decididamente novo, pelo menos para os padrões do grupo. Se você reparar, Writer’s block já indicava essa inquietação. Cada faixa, apesar da névoa de romantismo demodé, abria uma nova possibilidade sonora (e é possível dizer que, sem essa fome de renovação, eles nunca teriam conseguido criar algo tão familiar e ao mesmo tempo tão alienígena quanto Young folks).

Ao arrancar da banda as próprias barras de sustentação, Living thing vai ainda mais longe: troca a doçura adolescente pelos ritmos duros de base percussiva que passa feito um trator por canções às vezes até rancorosas, mas que não perdem um senso de humor fino, sarcástico e autodepreciativo. “Sou um Picasso do período azul, pendurado na parede, no meio de um hall em Barcelona, tentando imaginar como descer dali. Esta solidão está me deprimindo”, cantam, em Blue period Picasso.

“As coisas não estão funcionando como deveriam, mas pelo menos estão funcionando”, confessam, na honesta-de-doer Stay this way.

É uma mutação que já podia ser identificada no DNA dos primeiros singles do disco, Lay it down e Nothing to worry about. São canções quase mecânicas, dançantes, compactas e poderosas, que aproximam mais de um hit antigo da Björk (Army of me, vai) do que das manhas agradáveis que esperamos de uma típica banda sueca. Tudo mudou, eles avisam.

E avisam didaticamente na faixa-título, The feeling (que abre com o minimalismo à krautrock, com palmas robóticas e ruídos esparsos). “É fácil fazer com que as coisas acabem. Por favor, prepare-se para uma mudança.”

Há algo no ar poluído desse álbum urbano, superpovoado (por referências, traumas, crises sentimentais), ruidoso. A faixa seguinte, It don’t move me, nos leva para o dance rock saltitante do New Order, fase Republic. Mas os versos estão mais para Joy Division: “Os livros e revistas não me emocionam mais. Leve-os para longe.” Já Join the past, logo em seguida, tem um refrão que soa como uma atualização para The river, de Brian Eno. É o início da brincadeira.

Que, mais adiante, passa por uma espécie de afropop (Living thing) e por algumas daquelas canções de amor agoniadíssimas que só eles sabem compôr (I want you!, Stay this way e Last night). Antes, I’m losing my mind soa como uma versão em marcha lenta para She drives me crazy, do Fine Young Cannibals.

É frequente a sensação de que a banda tateia no breu, experimenta referências para descartá-las em seguida. Que não sabe o que fazer com a própria insatisfação. Talvez por isso o disco se aproxime menos da ruptura de um Kid A (consciente, sólida) que da aventura torta de um 13, do Blur (mais escorregadio, ainda fascinante).

Mas o título não nos engana: Peter Bjorn and John deram luz a um organismo vivo. E ele está à solta. 

Quinto álbum de Peter Bjorn and John. 12 faixas. Lançamento Wichita/Almost Gold Recordings. 8/10

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2 ou 3 parágrafos | O visitante

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visitor

Eu estava pronto para descartar O visitante (6/10) quando fui contrariado por um elemento-surpresa: raro é o filme capaz de ressaltar com tanta convicção a bondade dos personagens. Thomas McCarthy volta a câmera para a generosidade  – e o faz delicadamente, sobriamente, sem soar como um menino inocente e choroso de dois anos de idade.

É um traço que, para mim, compensa a inconsistência do projeto. Apesar de simpático e tudo, é um filme inconsistente. O cineasta é daqueles que ficam em cima do muro: filma economicamente, mas sem flertar com o minimalismo; controla a dose sentimental da narrativa, mas vive apelando para golpes baratos (há forma mais simples de tratar das tensões pós-11 de setembro que trancar dois estrangeiros e um americano dentro de um apartamento em Nova York?). Na falta de um estilo, McCarthy adota a estratégia-padrão do cinema independente norte-americano: é clean e nada mais.

Mas, acima do diretor, acima do filme que ele dirige, acima das mensagens de solidariedade (batidíssimas), há os personagens e os atores que os interpretam. Daí o mérito de Richard Jenkins, que, se excluirmos dois momentos-Oscar (o clímax e o desfecho), compõe um tipo complexo, já que tão sisudo e introspectivo quanto frágil, íntegro e, por isso, adorável. Não merecia a estatueta (Mickey Rourke, né), mas justifica a existência do filme.