Gran Torino

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Gran Torino, 2008. De Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Bee Vang e Christopher Carley. 116min. 8.5/10

Depois de ter me frustrado razoavelmente com A troca (os textos sobre o filme me animam bastante, entretanto), eu estava um tanto cético em relação a Gran Torino. Tudo o que li parecia genérico demais.  Uma síntese da carreira de Clint Eastwood? Um acerto de contas com Dirty Harry? Preferi cautela.

Na última cena, minhas expectativas pessimistas foram abatidas a golpes de picareta. Não é um velho filme de Clint Easwtood. E não é um filme sobre o velho Clint Easwtood. Talvez seja um filme de velho, no melhor sentido. Revela uma sábia simplicidade, como em Manoel de Oliveira. E precisão, como em Sidney Lumet.

O próprio Eastwood enruga a película, no papel de um homem velho. Walt Kowalski não fala, rosna. Os personagens secundários são desenhados com poucos traços. Se aproximam da caricatura, como um cenário desfocado por onde o herói transita. Quase uma paisagem. Um filme de golpes curtos, movimentos econômicos, substantivos sem adjetivos.

Li muitos elogios sobre as variações de humor da narrativa de A troca. Gran Torino me parece o oposto disso: compacto, exato e, por isso, impressionante. Nada sobra. Cada sequência tem um sentido muito específico dentro do filme. Podemos nos incomodar, por exemplo, com o retrato unidimensional da família de Walt – uma corja de interesseiros. Mas sabemos que Clint quis o filme exatamente daquela forma. Não há dúvidas.

Daí a clareza como o cineasta vai criando os pontos de contato com Os imperdoáveis (na estrutura à western), com Cartas de Iwo Jima (num discurso multiculural e pacifista, bastante explícito), com Sobre meninos e lobos (na reflexão sobre a cultura da violência), com Um mundo perfeito (na relação entre o velho e o menino). 

Entendo quem trata o filme como uma espécie de resumo da obra. Mas o que me parece surpreendente é como as experiências acumuladas por Clint passam por um processo de refinamento. É como um compositor que vai reduzindo os excessos de uma canção. Um poeta que vai descobrindo a beleza do verso curto.

E é por isso, ou talvez seja por isso, que Gran Torino periga ser incompreendido. Por isso não é tratado como aposta para o Oscar. Por isso fica na surdina. Não dá para encará-lo como qualquer filme. O espectador deve fazer algum esforço (e quem quer fazer esforço numa sala de cinema?) para vê-lo da forma como é. 

E este é um filme que, até nas imperfeições, não se esconde.

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5 comentários em “Gran Torino

    Chico disse:
    março 26, 2009 às 11:28 pm

    É um filme surpreendente sobre o óbvio.

    Tiago Superoito respondido:
    março 27, 2009 às 2:26 am

    Pra mim é o melhor do ano até aqui.

    Chico disse:
    março 27, 2009 às 8:34 pm

    Eu tenho dúvidas entre ele, “O Lutador” e “A Bela Junie”. E “Amantes”, do James Gray, vem aí. Prepare-se.

    Tiago Superoito respondido:
    março 27, 2009 às 8:42 pm

    Vou ver em breve, Chico. Mas lembre-se que não sou dos grandes fãs do Gray.

    rafagoom disse:
    março 29, 2009 às 3:37 pm

    Posso dizer que achei o filme raso?
    Escrevi uns parágrafos sobre lá no blog. Acho demais a vida e obra de Clint, só que nesse filme achei que faltou profundidade. Tudo é simples demais.
    Talvez seja minha imaturidade cinematográfica, ou minha rabugencia.

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