The Spirit – O filme

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The Spirit, 2008. De Frank Miller. Com Gabriel Macht, Jaime King, Eva Mendes, Samuel L. Jackson e Scarlett Johansson. 108min. 4/10

No blog de The Spirit – O filme, Frank Miller trata Will Eisner com Mentor (assim, com maiúscula). “Eisner quis criar algo novo, inteligente e exploratório. Foi isso que ele fez. É isso que estou fazendo”, escreveu, sobre a adaptação da HQ.

Comparações desse tipo dão a entender que existiu, no mínimo, um entrosamento de ideiais entre os estilos de Eisner, que morreu em 2005, e os traços de Miller, autor de Sin City, 300, Batman: ano um. Mas existiu mesmo? E em que sentido? (Algum fã pode me ajudar?)

Não conheço tão bem os dois ídolos das graphic novels. Estou de gaiato no navio, perdão. Porém, se houve esse tipo de comunhão, esta tradução de Spirit parece perdê-la completamente de vista. Até onde sei, Eisner é o arquiteto das metrópoles, cujos personagens (bastante vivos) convivem num ambiente de prédios, chuva e concreto – e, não raramente, são devorados pelos perímetro urbano. Já Miller me parece obcecado por conflitos chapados, dramas físicos, pela violência bestial que explode no mundo. Um me impressiona por uma elegância melancólica, discreta; o outro é um bruto.

The Spirit – O filme força o encontro entre Miller e Eisner. Não li a série original, mas existe uma tensão permanente em cena que deve interessar aos fãs dos escritores. E também um descompasso estranho, que faz do filme uma peça incompleta, fria, um projeto que não deu certo.

Admito que assistir à sessão foi uma experiência desagradável. Não provocada por excessos visuais e ambição desmedida (como acontece com Watchmen) ou pelo clima de matinê aguada (caso de Quarteto fantástico, digamos). Miller prefere o meio-termo – e como neva em Central City! Mas acredito que por não parecer uma homenagem fluente ou minimamente intrigante – para quem não leu a graphic novel, como eu, deixa até a sensação de que o gibi é uma enganação. 

Não dá para ser injusto e reclamar da ausência de Robert Rodriguez (não imagino qual teria sido a extensão do trabalho de Miller em Sin City), mas fica muito visível o desconforto de Miller com o cinema. Sem intimidade com o meio, ele se cerca de efeitos visuais e adota uma encenação noir chapada (olha o estilo duro do sujeito aí), com muitos trechos monocromáticos e detalhes de animação – um formato que se aproxima demais de Sin City e, ao mesmo tempo, maltrata os personagens, tratados como caricaturas. 

É uma transcrição bastante seca, desarranjada, quase um borrão. Nas primeiras cenas, Miller até consegue compor a atmosfera típica de Eisner (o herói morto-vivo declara amor à cidade decadente), mas não dá conta de tirar do papel quase nenhum conflito entre os personagens – e os vilões extravagantes, que deveriam provocar risos (ou sabotar a trama, sabe-se lá), provocam o efeito de uma ingênua comédia pastelão. Todo o miolo da narrativa é confuso, frouxo – a cada cena, dá para imaginar o mico que os atores pagaram diante da tela verde. 

Vão dizer que Sin City já era mecânico assim. Não era. O mundo artificial de Rodriguez jogava o tempo todo com elementos do cinema e dos quadrinhos. O quanto de gibi tem o cinema noir? O quanto de noir tem o gibi de Miller? Eram essas as perguntas. The Spirit trata o experimento de Miller como uma fórmula, mas se contenta em construir um filme-gibi – falta vontade de cinema, mas antes disso, o diretor simplesmente não parece saber o que fazer com as câmeras, os atores, o texto e os efeitos.

Fiquei com um pouquinho de saudades de Zack Snyder, admito. E isso não está certo.

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6 comentários em “The Spirit – O filme

    Daniel Pilon disse:
    março 18, 2009 às 6:02 pm

    Nessa semana, prioridade é Gran Torino, hehe. Até tava a fim de ver The Spirit, mas depois de ler algumas coisas por aí, nem sei..

    Você vai ver Radiohead em SP?

    Tiago Superoito respondido:
    março 18, 2009 às 6:06 pm

    Vou sim. Domingo estarei lá. Depois de ter visto Iron Maiden sexta-feira aqui em Brasília.

    E espero sobreviver ao show, pq tenho que trabalhar na semana seguinte.

    Daniel Pilon disse:
    março 18, 2009 às 6:21 pm

    Eu tenho que trabalhar no dia seguinte, hehe.

    Tiago Superoito respondido:
    março 18, 2009 às 6:51 pm

    Meu voo sai segunda cedinho. Estamos no mesmo barco, amigo.

    Chico disse:
    março 23, 2009 às 12:19 pm

    Tá pra nascer um filme mais sem graça e sem lugar no mundo.

    Igor disse:
    junho 25, 2009 às 12:36 am

    Vi o filme em DVD e, por causa de um trabalho que pretendia fazer, procurei críticas na internet. O seu texto foi o melhor que li até agora, tratando desde a autopropagada fidelidade de Miller até o resultado final e as comparações com Sin City, tudo em um tom bastante sensato. Muito bom!

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