Procedimento operacional padrão

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Standard operating procedure, 2008. De Errol Morris. 116min. 7/10

A crítica quer filmes complexos. Mas o quanto de complexidade há nas críticas?

É uma generalização tola, provavelmente sem resposta, um tiro pela culatra (reconheço meus erros!), mas não consigo pensar em outra coisa. Honestamente: há textos sobre cinema que parecem me tratar, no mínimo, como um asno. 

Já disse isso antes, volto a dizer. Há parágrafos que me atormentam. Leio e fico me perguntando: quem ele quer enganar? Ou melhor: quem ele pensa estar enganando?

Todo mundo tem algo contra críticos de cinema. Também tenho. Os que mais me incomodam são aqueles que tratam o leitor como um ser que, por mais que se esforce, nunca dará conta de assimilar com um certo grau de profundidade a experiência de assistir a um filme.

Talvez essa parcela de críticos tente se comunicar com um certo “espectador médio”, quase sem salvação, coitadinho da silva, fã de fitas de ação desmioladas e de comédias dirigidas por Daniel Filho. Mas, vem cá: se é que existe, esse espectador gastaria tempo lendo críticas de cinema? E o crítico teria essa função evangelizadora?

Dois exemplos recentes que me tiram do sério: Quem quer ser um milionário? e Procedimento operacional padrão

No primeiro caso, há os críticos que não aprovaram o filme (direito deles) e aqueles que, prontos a levar o rebanho para o bom caminho, tomam uma posição semelhante à de um pastor da mais fundamentalista das igrejas evangélicas. O filme de Danny Boyle vira a representação do demônio. Cabe à crítica assumir o papel de um panfleto que alerta os espectadores (pobrezinhos, não sabem nem amarrar os próprios sapatos!) sobre o perigo de brincar com um lobo-em-pele-de-cordeiro. Alguém cai nessa? Soa tão pobre quanto a defesa do longa como uma “montanha-russa de emoções”.

Com Procedimento operacional padrão, acontece algo diferente. Parte da crítica se limita a sublinhar a importância temática do filme, que investiga os abusos cometidos por oficiais norte-americanos contra prisioneiros iraquianos. O documentário de Errol Morris trata de um assunto importante; logo, ele é importante. Os leitores-asnos que se contentem com o argumento de meia-tigela.

Uma lição que aprendi ainda no primário: a forma mais fácil de defender um ponto de vista é eliminar possibilidades de contradição. Um discurso sólido não admite arestas ou hesitação, muito menos possibilidade de erro. Ainda hoje, tenho sérias dúvidas de que esse método quase matemático sirva para analisar obras de arte. No cinema, na literatura, na música… Há certo e errado?

Desconfio que não. Mas estou certo de que, na arte, há meios-tons. Ou deveria haver. Quando um crítico admira um filme, saberá facilmente defendê-lo. Há um sem-número de fórmulas e frases de efeito para justificar um elogio. Quando um crítico detesta um filme, o trabalho será mais automático ainda. Palavras como “pretensioso”, “desengonçado”, “desconjuntado” ou simplesmente “inepto” estão sempre à mão.

O difícil, percebo, é vencer os clichês da crítica e arriscar um diálogo mais direto, mais franco com o leitor. Garanto: ele tem perfeita condição de conversar com o autor da crítica (mas sim, também garanto que pouquíssimas pessoas leem críticas), de argumentar, de notar raciocínios maniqueístas, de perceber frases patéticas, de detectar dogmas vencidos e de, finalmente, cutucar o resenhista com um “mas deixe de ser radical, vá, não somos mais crianças”.

Voltando a Procedimento operacional padrão (e não a Quem quer ser um milionário?, que para mim já esgotou): ao sair do cinema, ouvi comentários sobre o longa-metragem que me pareceram mais sofisticados que a maior parte das resenhas que li sobre o filme. Enquanto muitos críticos reforçam a ladinha da “importância do tema”, ouvi espectadores reclamando do excesso de câmera lenta, dos truques e manias de uma encenação que busca a todo momento um apelo emotivo, uma atmosfera claustrofóbica, um tom enojado de narrativa, às vezes até uma queda pela chantagem sentimental.

Taí: o público do filme percebe muito claramente que Morris trabalha o tempo inteiro com elementos de ficção para reconstituir situações supostamente reais (que só podem ser comprovadas por fotografias), e que essa forma de filmar, simplesmente isso, renderia debates mais interessantes (eu não entendo, por exemplo, por que usar slow motion para filmar um ovo quebrando). 

Enfim: é só um traço do filme (há muitos outros). Outro dia li uma resenha de O casamento de Rachel quase toda sustentada numa comparação com Festa de família. Boa parte dos espectadores do filme de Jonathan Demme (um diretor tratado pelo crítico como… hmm, quase um asno) provavelmente pensou nessa comparação. Pensou nela e em outras. Pensou e construiu raciocínios mais elaborados. Enquanto isso, o crítico (pobrezinho) continuou lá atrás.

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20 comentários em “Procedimento operacional padrão

    Diego disse:
    março 9, 2009 às 5:06 pm

    SENSACIONAL.

    Bruno Amato disse:
    março 9, 2009 às 5:19 pm

    “aqueles que, prontos a levar o rebanho para o bom caminho”

    No meu caso é pior, eu quero converter os críticos de cinema a minha causa! Brincadeira… ou nem tanto. Após ler seu post eu reli o texto do meu blog atentamente, preocupado em perceber se fui arrogante ou não. Como eu realmente não gostei de nada no filme, foi dificil pra mim escrever um texto menos agressivo. Preferi ser sincero comigo mesmo ao passar pro leitor os meus fortes sentimentos com o filme. Espero que quem o ler e discordar dele, não se sinta desencorajado a dar seus próprios argumentos.

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2009 às 5:27 pm

    Ops, Bruno, eu não tinha lido seu texto, foi mal.

    Minha intenção não era atacar um texto específico ou alguém, acho que foi mais um desabafo que qualquer outra coisa… Realmente sinto falta de textos que tratem os filmes e os leitores com um pouco mais de maturidade, sem um olhar pedante, “de cima pra baixo”. Por mais que a crítica radical seja sedutora (e aí o rebanho cresce que é uma beleza), não vejo graça em entrar em clubinhos a favor ou contra os filmes/cineastas.

    Rafael Souza disse:
    março 9, 2009 às 5:27 pm

    Acho muito mais interessante a interpretação que um crítico possa trazer com a sua realidade do que simplesmente enaltecer ou destruir a imagem do filme.

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2009 às 5:30 pm

    Também acho mais interessante, Rafael. Mas anda difícil encontrar algo assim…

    Bruno Amato disse:
    março 9, 2009 às 5:44 pm

    Tiago, imaginei mesmo que vc não tinha lido e que seu post não era uma resposta direta ao meu – mas, mesmo se fosse, não teria problema porque sei separar as coisas, admitir erros, mudar de opinião, etc. Aliás, devo dizer que embora não goste nada de Extermínio, nunca odiei Boyle e sempre vi com simpatia mesmo seus filmes mais fracos. Gostaria muito de rever Trainspotting, que só vi uma vez quando era jovem e me impressionou – hoje me pergunto se tal visão se sustentaria. Possivelmente, não.

    Relendo o que escrevi no meu blog, não acho que eu tenha partido pro radicalismo e sim exposto questões minhas sobre cinema, minha preocupação com o a importância do visual de um filme e como isso parece estar sendo deixado de lado. Pelo menos espero que entendam o que escrevi assim.

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2009 às 5:49 pm

    Acho que você deixou claro isso no texto, Bruno.

    E olha, eu mesmo vivo escrevendo textos pra marcar posição – e entendo que isso aconteça com filmes muito elogiados ou premiados, é uma reação previsível. Só que, 90% das vezes, retorno a esses meus textos com bastante frustração.

    Diego disse:
    março 9, 2009 às 8:06 pm

    Tá, pode dizer que, no caso de “Milionário”, você falava do Inaciô Arraújô.

    Diego disse:
    março 9, 2009 às 8:12 pm

    Ok, não precisa dizer, mas é: o texto dele sobre o filme é messiânico.

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2009 às 8:22 pm

    Mas ele é um caso meio à parte, né, Diego? Uma figura meio folclórica, quase.

    E eu achei o texto dele engraçado. O garoto tomando banho de merda como “a cena mais grotesca da história do cinema”… Espero que ele não veja Watchmen.

    Bet disse:
    março 9, 2009 às 8:23 pm

    Bom texto. E impressionante a quantidade de jornalistas que são EXATAMENTE do modo que vc descreve e que deram link para o texto. É uma forma de se livrar: opa, dei link, quer dizer que não sou assim!

    Diego disse:
    março 9, 2009 às 8:33 pm

    Ih, Bet. Nomes, vai.

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2009 às 8:35 pm

    Eita. Tem muita gente dando link do texto, é?

    Diego disse:
    março 9, 2009 às 8:37 pm

    Blame it on me, que joguei a bagaça no Twitter, hahahah

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2009 às 8:39 pm

    Ih, agora já viu.

    Diego disse:
    março 9, 2009 às 8:40 pm

    E olha, Tiago, o REF não é menos “folclórico” que o Inácio. Experiência/popularidade não justificam “cagarregrismos”, in my humble opinion.

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2009 às 8:42 pm

    O Rubens é o evil twin do Inácio. E eles são chapas, você sabia?

    Eduarda disse:
    março 10, 2009 às 3:32 am

    Muito bom o texto, no geral a crítica é isso aí mesmo. Depreciar dá IBOPE.

    Guga disse:
    março 10, 2009 às 4:25 am

    Acho que não é tão simples. No caso de Quem Quer Ser Um Milionário, entendo que muitas das reações negativas e radicais são geradas pelo fato de que o filme é um sucesso imenso (tendo conquistado público, crítica, ganhado tantos prêmios e sendo ao mesmo tempo tão ruim!). Titanic me vem à cabeça como outro exemplo desses. Mas acho que há outros casos.

    Tropa de Elite e Dogville, por exemplo (só pra ficar em dois recentes). São filmes que geraram reações bastante radicais e em muitos textos foram vistos quase que como “a representação do demônio”, como vc diz. Mas até onde é simplismo do crítico e adesão fácil a clubinho contra ou a favor, ou reações radicais que tinham de ser radicais mesmo.

    É óbvio que o crítico não vai estar sempre certo, mas se ele não defender com convicção suas posições, qual o sentido do trabalho?

    Tiago Superoito respondido:
    março 10, 2009 às 10:32 am

    Como você, Guga, eu entendo a reação a filmes como o ‘Milionário’. Entendo como algo natural. Outro exemplo são as superproduções tipo ‘Batman – O cavaleiro das trevas’, cercadas de expectativas – quem não gosta automaticamente fica na defensiva etc.

    Eu não vejo nenhum problema em defender com convicção um ponto de vista. Meu problema é: como essa defesa é feita? O que ela esconde?

    Digamos: você é um crítico de cinema e ficou bastante incomodado com a forma elogiosa como ‘Quem quer ser um milionário’ foi recebido. Até aí, tudo certo. Eu mesmo fiquei incomodado com isso. Daí você escreve um texto sobre o filme e concentra seus argumentos num ataque frontal, até como estratégia para sustentar sua reação. Certo, taí seu texto.

    Mas aí eu, Tiago, te encontro por acaso no cinema. Puxo assunto sobre sua crítica. E percebo que, além dos argumentos simplesmente contrários ao filme, suas ideias sobre o longa de Boyle (espero!) não se resumem a eles. Depois de uma ou duas perguntas minhas, elas acabam se revelando um pouco mais COMPLEXAS – e olha que estou descontando aqui todos os críticos que simplesmente têm cérebro de papelão. Minha questão é: por que essa complexidade não pode ser levada para a crítica? Por que, muitas vezes, as críticas soterram a dúvida e as contradições em prol de um discurso supostamente “com convicção”?

    Agora, claro, se o crítico não tem nada a dizer sobre o filme além do “gostei” ou “não gostei”, ficamos nisso e pronto.

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