Veckatimest | Grizzly Bear

Postado em Atualizado em

grizzlyVeckatimest é uma pequena ilha deserta perto de Massachusetts. E o nome do terceiro álbum do quarteto nova-iorquino Grizzly Bear, que retorna três anos depois da sensação indie Yellow house.

Posso interpretar como uma metáfora? Tipo: contra as expectativas de quem torce para que eles se transformem num gigante à Arcade Fire, a banda liderada por Daniel Rossen e Ed Droste prefere continuar habitando um mundo miúdo e misterioso, um refúgio tão distante e tão próximo da civilização.

O isolamento, para eles, é um porto seguro. Fazem bem. A banda não se deixou afetar pelo hype que a alçou ao paraíso do rock independente, nem tomou uma via mais acessível. O EP Friend, de 2007, indicava o início de uma fase menos abstrata e mais pop, com guitarras distorcidas, influência de dance music (no remix do CSS, por exemplo) e doçura. Era um bom disco, mas Veckatimest soa como uma verdadeira continuação para Yellow house.

Não só genuína, mas até cuidadosamente desenhada para dar sequência às ideias do disco anterior. Aquele era um álbum que tomava melodias razoavelmente convencionais (como a de Knife, que poderia ter sido gravada por um grupo vocal feminino dos anos 60) como base para experimentações psicodélicas, epifanias rurais e uma interpretação bastante atual  (à luz das invenções de um Animal Collective, por exemplo) para a lisergia musical do final dos anos 60.

É exatamente nessa base em que Veckatimest se sustenta. O que, para os fãs que esperavam uma grande novidade, pode soar frustrante. Em vez da ruptura, o Grizzly Bear adiciona alguns elementos a uma sonoridade precocemente consagrada (e reprisada no álbum do Department of Eagles, de Rossen). As guitarras de Friend rasgam boa parte das faixas, mas a atmosfera ainda é a de um ciclo barroco de canções, à Van Dyke Parks.  

Não só isso: o que transparece no álbum é absoluto detalhismo – e a intenção de forjar uma identidade sonora a todo custo. Tanto que os 54 minutos, densos, chegam a parecer exaustivos num primeiro contato (com o tempo, garanto que a familiaridade com as canções facilitará o processo). Os momentos de leveza de Yellow house (e não eram poucos) são trocados por faixas que insistem obsessivamente uma mesma estrutura: começam como pequenos mantras que desaguam em linhas melódicas tão assobiáveis quanto as de uma música do Fleet Foxes.

Essa busca por coesão rende um disco quase uniforme, com uma ou outra saída de emergência (a delicada Hold still, o desfecho Foreground). Mas fico com a impressão de que qualquer julgamento precipitado será falho. Ouço o álbum há três dias e ainda não consigo tirar conclusões definitivas. Faixas como Southern point, Two weeks, Cheerleader e Ready, able me parecem tão fortes quanto os melhores momentos do álbum anterior. Mas existe algo impenetrável e árido neste disco, como se precisássemos forçar a porta para entrar.

O que é um bom sinal. Cada vez acreditamos estar mais perto do Grizzly Bear. Veckatimest faz com que a banda chegue aos nossos ouvidos como um objeto estranho e sedutor. Mais uma vez.  

Terceiro álbum do Grizzly Bear. 12 faixas, com produção de Chris Taylor. Warp Records. 8/10

7 comentários em “Veckatimest | Grizzly Bear

    guilherme semionato disse:
    março 6, 2009 às 3:33 pm

    vazô o novo do camera obscura, aka banda favorita em 2005-06.

    é bem mais do mesmo, sinto que perdi a paciência com esses bombons orquestrados com violinos tentando suprir a voz anêmica da vocalista. vá corar essas bochechas, tracyanne, e depois volte a mim.

    no seu sistema, 5,5 em 10.

    o da neko case é ótimo, ótimo.

    Tiago Superoito respondido:
    março 6, 2009 às 4:29 pm

    Baixei também, Guilherme. Em breve ouço (mas já estou decepcionado, depois dessa sua reação).

    Daniel Pilon disse:
    março 6, 2009 às 6:28 pm

    Eu até gostei do Camera Obscura, mas é mais do mesmo sim. Mas é aquela velha conversa das armadilhas… hehe.

    guilherme semionato disse:
    março 6, 2009 às 9:19 pm

    ouvi mais duas vezes, fica pior. chaaato.

    baixei o animal collective. acho bem inaturável. por incrível que pareça prefiro “pullhair rubeye”.

    recomendo a você algo que o sr. já deve ter. “painted from memory”, dazzling parceria entre elvis costello e burt bacharach.

    Tiago Superoito respondido:
    março 6, 2009 às 9:28 pm

    Já ouvi, Guilherme. É muito bom mesmo.

    Rodrigo disse:
    março 8, 2009 às 1:13 am

    Eu acho que o Yellow House é um dos cinco melhores discos dessa década e esse novo deles eu tô achando maravilhoso. Eu acho até mais acessível que o anterior, tem mais momentos mais pop (Two Weeks e While You Wait for the Others), mas eu gosto de como o hype do Yellow não parece ter subido a cabeça deles, é uma banda que continua bastante intimista. E “I Live With You” é fenomenal, das melhores que eles já fizeram.

    Aliás, Tiago, eu queria saber se tu conhece algum site que tenha as letras do novo do Bonnie Prince Billy. Já entrei em um bocado de site gringo e não encontro nada. (na verdade, eu tinha perguntado isso no post sobre o Beware, mas você não deve ter visto, até porque a postagem era antiga, hehehe). ;)

    Tiago Superoito respondido:
    março 8, 2009 às 8:07 pm

    Não conheço, Rodrigo. Veja se encontra no songmeanings.net

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s