Dia: março 5, 2009

Veckatimest | Grizzly Bear

Postado em Atualizado em

grizzlyVeckatimest é uma pequena ilha deserta perto de Massachusetts. E o nome do terceiro álbum do quarteto nova-iorquino Grizzly Bear, que retorna três anos depois da sensação indie Yellow house.

Posso interpretar como uma metáfora? Tipo: contra as expectativas de quem torce para que eles se transformem num gigante à Arcade Fire, a banda liderada por Daniel Rossen e Ed Droste prefere continuar habitando um mundo miúdo e misterioso, um refúgio tão distante e tão próximo da civilização.

O isolamento, para eles, é um porto seguro. Fazem bem. A banda não se deixou afetar pelo hype que a alçou ao paraíso do rock independente, nem tomou uma via mais acessível. O EP Friend, de 2007, indicava o início de uma fase menos abstrata e mais pop, com guitarras distorcidas, influência de dance music (no remix do CSS, por exemplo) e doçura. Era um bom disco, mas Veckatimest soa como uma verdadeira continuação para Yellow house.

Não só genuína, mas até cuidadosamente desenhada para dar sequência às ideias do disco anterior. Aquele era um álbum que tomava melodias razoavelmente convencionais (como a de Knife, que poderia ter sido gravada por um grupo vocal feminino dos anos 60) como base para experimentações psicodélicas, epifanias rurais e uma interpretação bastante atual  (à luz das invenções de um Animal Collective, por exemplo) para a lisergia musical do final dos anos 60.

É exatamente nessa base em que Veckatimest se sustenta. O que, para os fãs que esperavam uma grande novidade, pode soar frustrante. Em vez da ruptura, o Grizzly Bear adiciona alguns elementos a uma sonoridade precocemente consagrada (e reprisada no álbum do Department of Eagles, de Rossen). As guitarras de Friend rasgam boa parte das faixas, mas a atmosfera ainda é a de um ciclo barroco de canções, à Van Dyke Parks.  

Não só isso: o que transparece no álbum é absoluto detalhismo – e a intenção de forjar uma identidade sonora a todo custo. Tanto que os 54 minutos, densos, chegam a parecer exaustivos num primeiro contato (com o tempo, garanto que a familiaridade com as canções facilitará o processo). Os momentos de leveza de Yellow house (e não eram poucos) são trocados por faixas que insistem obsessivamente uma mesma estrutura: começam como pequenos mantras que desaguam em linhas melódicas tão assobiáveis quanto as de uma música do Fleet Foxes.

Essa busca por coesão rende um disco quase uniforme, com uma ou outra saída de emergência (a delicada Hold still, o desfecho Foreground). Mas fico com a impressão de que qualquer julgamento precipitado será falho. Ouço o álbum há três dias e ainda não consigo tirar conclusões definitivas. Faixas como Southern point, Two weeks, Cheerleader e Ready, able me parecem tão fortes quanto os melhores momentos do álbum anterior. Mas existe algo impenetrável e árido neste disco, como se precisássemos forçar a porta para entrar.

O que é um bom sinal. Cada vez acreditamos estar mais perto do Grizzly Bear. Veckatimest faz com que a banda chegue aos nossos ouvidos como um objeto estranho e sedutor. Mais uma vez.  

Terceiro álbum do Grizzly Bear. 12 faixas, com produção de Chris Taylor. Warp Records. 8/10

2 ou 3 parágrafos | Dexter, terceira temporada

Postado em Atualizado em

dexter

É comum que as séries aparem as próprias arestas lá pela terceira, quarta temporada. Nessa altura, o público já está familiarizado com os personagens e os roteiristas se sentem mais confortáveis (ou mais pressionados, em alguns casos) para tratar os conflitos da trama com um pouco mais de complexidade. De Arquivo X a Gilmore girls, a regra costuma ser essa. Mas não é o que acontece com Dexter, que vai envelhecendo mal.

A terceira temporada (6.5/10) é a mais frágil e desinteressante de todas, ainda que se dedique bravamente a explorar traços de personalidade do protagonista – acima de tudo a relação entre Dexter e o pai (agora transformado num espectro, quase um coadjuvante fantasmagórico). Ele próprio prestes a assumir a condição de papai e chefe de família, nosso herói serial killer vive um conflito introspectivo que a série – ainda sustentada em fórmulas de thriller – não dá conta de mapear (quem sabe na próxima temporada?).

Como se esse drama não fosse suficientemente forte (os roteiristas não acreditaram nele, essa é a verdade), as subtramas acabaram vencendo – o que dá a esta fase da série um tom quase descartável. São as Novas Aventuras de Dexter, apenas. A amizade entre o psicopata e um promotor tã-tã  (Jimmy Smits) e a caça a um assassino que arranca a pele das vítimas dominaram os episódios – talvez por causa dessa narrativa pouco nutritiva, nunca os atores se destacaram tanto. E uma série com Michael C. Hall e Jennifer Carpenter quase não precisa de texto. Quase.