Dia: fevereiro 26, 2009

It’s blitz! | Yeah Yeah Yeahs

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yeahyeahcapaAos que até agora não entenderam que o Yeah Yeah Yeahs é uma banda pop, It’s blitz! encerrará o assunto de uma vez por todas. O álbum serve como uma explicação didática, em amarelo fosforescente e gel cor-de-rosa, de que Karen O sempre esteve mais para Debbie Harry que para alguma das meninas do Sleater-Kinney.

O que nunca me pareceu um problema – até agora. Em Show your bones (2006), o trio saiu do casulo indie-punk para se remodelar como uma banda de arena, colorida e vibrante, numa reviravolta auto-irônica que me lembrou a fase Celebrity skin do Hole. Uma jogada que decepcionou muita gente, mas que me pareceu uma forma digna de escapar de alguns clichês que dominavam o rock nova-iorquino do início da década.

It’s blitz! acrescenta neon e sintetizadores ao figurino do disco anterior. Soa como uma versão remixada de canções que já conhecíamos. Pior que isso: um passo para trás. Já que o grupo se contenta com uma pegada indie-dance que nos leva de volta ao electroclash de Miss Kittin, a House of jealous lovers, do Rapture e ao primeiro álbum do LCD Soundsystem. Ou seja: a 2002, ou um pouco antes disso.

Ao contrário do Franz Ferdinand, o Yeah Yeah Yeahs veste o modelito dançante dos pés à cabeça. Pelo menos não fugiram da raia. O álbum inteiro, com produção corretinha de Dave Sitek (TV on the Radio), tem climas de dance musica setentista, ora saltitante (Heads will roll e Zero, os dois melhores momentos), ora um tanto dark (Skeletons).

Joy Division é uma das influências declaradas. Donna Summer é outra. Ambas são tratadas de forma rasa, com doses moderadas de angústia ou catarse, na linha inofensiva do remix que o The Killers gravou para Shadowplay. E as letras são qualquer nota (e tem gente interpretando Zero como uma canção sobre soldados em guerra, mas também pode ser sobre qualquer outra coisa).

Mais que nunca, o Yeah Yeah Yeahs soa como uma banda fashion, de grife – daquelas que se adaptam confortavelmente às cores da estação. Trocar guitarras por sintetizadores (pobre Nick Zinner) pode ser uma boa sacada. Convidar Tunde Adebimpe para fazer backing vocals também. No caso, porém, faltou timing. Tanto que, aposto dez reais, o álbum será comparado ao pop camaleônico (e unidimensional) do MGMT.  

Em Show your bones, o trio brincou com os artifícios do pop. It’s blitz! é o próprio artifício. Uma bala de festim, uma decepção.

Terceiro álbum do Yeah Yeah Yeahs. 10 faixas, com produção de Dave Sitek e Nick Launay. Interscope Records. 5/10

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2 ou 3 parágrafos | Ponyo on the cliff by the sea

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ponyo

O filme deve ser lançado aqui no Brasil só em outubro, por isso serei mais ou menos breve e bastante superficial (se bem que, no caso de uma animação de Hayao Miyazaki, isso é quase um crime). Lendo tudo o que escreveram até agora sobre Ponyo on the cliff by the sea (8/10), não consigo vê-lo simplesmente como uma tentativa de retorno do cineasta ao espírito de Meu vizinho Totoro, ainda que seja um projeto claramente identificado com o universo infantil. Apesar da premissa (que sugere uma versão oriental de A pequena sereia, o conto de fadas) e do visual em tom pastel, é um filme tão siderado quanto os três longas anteriores do diretor.

Em um resumo bem rasteiro e enganador, a trama narra a amizade entre um menino de cinco anos e um peixe que, depois de fugir do oceano, se transforma numa menina. Parece simplezinho, mas Miyazaki faz com que detalhes surrealistas alterem toda a nossa percepção da trama. A fábula é encenada num ambiente habitado por extravagantes deuses marinhos (e peixinhos com feições de criança) e atormentado por ondas em formato de imensos cardumes, que aprisionam cidades inteiras em bolhas gigantes. Um sonho bizarro, como os outros, só que em azul-bebê.

E um delírio (como de hábito) bastante lírico, coberto pela névoa que é a excelente trilha de Joe Hisaishi e com todo um subtexto de conflitos domésticos que rende uma das mais belas cenas compostas pelo diretor – com flashes de luz, o pai marinheiro se comunica com o filho, que o espera na janela de casa. Não é tão complexo quanto A viagem de Chihiro. Mas que deslumbra, deslumbra.