Milk – A voz da igualdade

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Milk, 2008. De Gus Van Sant. Com Sean Penn, James Franco, Josh Brolin, Emile Hirsch e Diego Luna. 128min. 7.5/10

Lembro que, no lançamento de Paranoid Park, Gus Van Sant contava que, depois de uma trilogia de imagens compostas com absoluto rigor (Gerry, Elefante e Last days), estava pronto para projetos mais permeáveis, em constante mutação. Um cinema (pelo menos aparentemente) ao sabor do vento, digamos assim.

Daí que, para quem acompanha o cineasta,  Milk provoca um susto inevitável. Que vento brando é esse?

A reação mais imediata a esta cinebiografia de Harvey Milk, o primeiro político assumidamente gay a ocupar um importante cargo público em São Francisco, é tomar o projeto como um desvio de percurso, um flerte tardio com um modelo mais padronizado de narrativa.

No trailer, a referência é Gênio indomável, e aposto que parte do público sairá do cinema perguntando o que o diretor fez desde aquele filme de 1997 escrito por Matt Damon e Ben Affleck. Gus Van Sant? Quanto tempo!

Mas é apenas uma primeira impressão. Aos poucos, Milk revela um cineasta infinitamente mais maduro e consciente dos próprios métodos que o de Gênio indomável. Adotar uma linguagem acessível, linear e “clássica” é, no caso, uma decisão política.

Tiremos o elefante da sala, então: o longa-metragem (que, agora percebo, não tem chance alguma de ganhar o Oscar de melhor filme) acompanha a trajetória política de Milk durante os anos 1970, dos primeiros comícios (improvisados em caixotes de madeira) ao assassinato, em 1978. Entrecortando a ação, legendas contextualizam as principais manifestações pelos direitos dos gays em São Francisco e há flahses da vida doméstica do político, os amores e os desafetos. O roteiro, escrito por Dustin Lance Black (da série Big love), é narrado em forma de testamento pelo próprio Milk.

Ou seja: eis a estrutura tradicional de uma biopic, daquelas que Milos Forman adoraria dirigir.

O fascinante, no caso, é acompanhar como Van Sant lida com o gênero. Adotar um formato convencional garante a Harvey Milk aquilo que o cineasta toma como uma “imagem digna”. É o retrato de um homem público que lutou pelos direitos de minorias. Nada mais justo que filmá-lo com serenidade, clareza e profundo respeito – e é o que Van Sant faz.

Milk não leva o Oscar por ser um drama em tom menor, sem afetações ou conflitos explosivos entre personagens (não procurem aqui um Oliver Stone). Van Sant adota um clima quase solene, e até a trilha de Danny Elfman evita firulas. A interpretação de Sean Penn segue o mesmo ritmo: os trejeitos e discursos não transformam Milk num símbolo frio, mas ressaltam os instantes de fragilidade, de incerteza. Penn escapa da arapuca do one-man-show com bastante elegância – não defende um mártir, mas um homem comum que se faz agente de uma época de transformações.

Perceber como Van Sant altera sutilmente o padrão de uma cinebiografia renderia textos mais interessantes e longos que este. Adianto que, na confusão de imagems documentais com a ficção (e na inserção de slogans e fotografias como parte da narrativa), o diretor faz uma versão light para as experiências de Paranoid Park. E o clímax é filmado exatamente como a cena do massacre de Elefante. É o mesmo movimento de câmera (a fotografia de Harris Savides, aliás, é de emocionar), mas com um efeito diferente. Em vez do choque, o tributo.

Não é o filme do Gus Van Sant radicalmente inventivo com quem nos acostumamos desde Gerry. Mas, mesmo obrigado a negociar com expectativas dos produtores de Beleza americana, o cineasta consegue fazer de Milk um projeto pessoal capaz de canalizar todo o sentimento de mudança da América de 2008. Perto dos longas anteriores, é pequeno. Mas não se trata de um filme simples, muito menos raso, apesar das aparências.   

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