Dia: janeiro 28, 2009

Foi apenas um sonho

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Revolutionary Road

Revolutionary road, 2008. De Sam Mendes. Com Kate Winslet, Leonardo DiCaprio e Michael Shannon. 119min. 5.5/10

Em Foi apenas um sonho, Sam Mendes retorna aos subúrbios norte-americanos. E lá se vão nove anos desde Beleza americana.

A comparação pode parecer daquelas absolutamente óbvias, mas não fica só na superfície das coisas. São dois filmes em que o diretor britânico revela as duras verdades que se escondem sob as aparências de bairros organizados, caros, com cercas brancas e casas espaçosas.

A diferença é que o novo é um filme ambientado em 1955. Mas as verdades (melhor: as verdades de Mendes) continuam intocadas: a vida padronizada e aborrecida dos ricos, enfurnados naqueles paraísos artificiais onde nada acontece, só pode mesmo ser um tédio sem fim.

Poderíamos levar o filme como uma simples adaptação literária da obra de Richard Yates (que estou lendo e parece muito boa), mas Beleza americana altera a perspectiva. O discurso de Yates é resgatado como que para garantir um selo de qualidade ao olhar de Mendes.

O que o livro parece ter de mais poderoso (ainda estou no início, não posso concluir nada), pelo menos, o filme tenta preservar. É que, acima da crítica ao conservadorismo ou ao american way of life, Yates narra o apodrecimento do amor – e de uma forma tão detalhada e agonizante que talvez só John Cassavetes teria conseguido evocar com igual intensidade a frustração experimentada por este casal perfeitinho, perdidinho.

Mendes acena para o livro (mas não para Cassavetes) quando concentra grande parte da narrativa entre quatro paredes, em embates verbais entre DiCaprio e Winslet. Os dois dão conta do recado (ela mais que ele), ainda que cada cena pareça desenhada para ser exibida como clipe em cerimônia de premiação.

Aliás, parece até incoerente que um cinema tão controlado, tão polido, venha com essa de atacar a frágil segurança das redomas de felicidade made in USA, de filmar personagens aprisionados nas próprias rotinas. Talvez isso explique a obsessão de Mendes pelo tema: quando se libertar de tanta convenção, quem sabe, encontrará um cinema mais livre.

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