Dia: janeiro 27, 2009

Rebobine, por favor

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kind

Be kind rewind, 2008. De Michel Gondry. Com Jack Black, Mos Def, Danny Glover e Mia Farrow. 102min. 7/10

Rebobine, por favor é filme de diretor de videoclipe. É sim. Disso não há como fugir.

Cada cena sugere uma ideia chamativa, um artifício engraçadinho, uma brincadeira esperta modelada em workshop e, acima de tudo, um aceno para o público que conhece Michel Gondry de maravilhas como Let forever be, do Chemical Brothers, ou Fell in love with a girl, do White Stripes.

E são dos melhores clipes que já vi (se você não tiver clipefobia, recomendo os links acima). Num formato que oscila entre o espírito free-style do curta-metragem e as obrigações comerciais de peças publicitárias, Gondry impôs uma marca, uma grife.

Mesmo sem querer (e talvez não queira, já que os clipes continuam a ser tratados mais como publicidade, menos como arte), Gondry não abandona muitos dos recursos que o consagraram com prêmios da MTV. Filmes como Sonhando acordado e até mesmo Brilho eterno de uma mente sem lembranças são preenchidos com sacadas visuais que poderiam ter sido aproveitadas num vídeo da Björk.

Não sei a opinião de Gondry sobre o assunto (e eu deveria procurar alguma entrevista do sujeito antes de sair escrevendo bobagens), mas desconfio que ele também tenha enfrentado o mesmo tipo de olhar-torto (de uma parte da crítica) que vitimou um Spike Jonze, um David Fincher. No documentário Dave Chappelle’s Block party (2005), por exemplo, ele tenta se livrar do estigma com uma câmera observadora, sóbria, sem passes de mágica. E funciona (mas não é tãããão ele).

Rebobine, por favor aproveita o tema principal de Block party (a vida em comunidade), mas acaba se revelando uma espécie de instrumento de defesa para o cinema de Gondry.

Na trama, a criatividade vence. São as ideias simples porém extraordinárias (aquelas que, num clique, deslumbram a platéia) que garantem o ganha-pão de dois balconistas de locadora que, para salvar o comércio, decidem gravar versões caseiras de sucessos de bilheteria como Os caça-fantasmas e A hora do rush 2.

Nesta fábula, os dois “diretores de videoclipes” se transformam em astros de uma comunidade pequena, mas generosa. Não poderia haver símbolo melhor para os dilemas de Gondry, ídolo da geração -MTV.

O cineasta poderia ter criado um filme tão toscamente siderado quanto as criações da dupla de personagens (Jack Black e Mos Def). Mas não. Apesar de uma ou outra piada realmente hilariante (e os truques visuais muitas vezes são gracinhas secas, e só), Rebobine, por favor mostra a que veio no desfecho, em que Gondry pede licença para prestar homenagens ao poder agregador do cinema – e ao VHS, a depender do referencial.

E é uma cena, um truque emocionante – principalmente para quem adora um videoclipe.