Dia: janeiro 25, 2009

Lost | Because you left + The lie

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lostquinta

Imagino o desespero de quem tentou começar a acompanhar Lost a partir da quinta temporada. Diante do tsunami de informações que varreu as cenas iniciais da premiere, exibida quarta-feira passada nos Estados Unidos, eu desligaria a tevê nos cinco primeiros minutos, e depois correria para o colo de um episódio de Two and a half men.

Não me surpreendo com a notícia de que a audiência despencou. Não há como fugir da impressão de que o programa passou a dialogar exclusivamente com os fãs. Aposto que os executivos da rede ABC estão matutando para facilitar o trabalho de uma multidão de novatos, mas os criadores da série não parecem muito incomodados com isso. A estreia da nova temporada, Because you left, é um capítulo tão frenético que será revisto inúmeras vezes pelos fãs – e descartado imediatamente pelos não-iniciados.

Chegamos num ponto em que qualquer redundância pode ser fatal. Se o desfecho da temporada anterior transportava a série para o ambiente da fantasia mais desvairada (a ilha se move e desaparece, eis a regra do jogo), este recomeço confirma que Lost só tem a ganhar com os saltos imaginativos.

A série que, lá no começo de tudo, parecia um cruzamento bizarro de Survivor com Arquivo X, hoje engrossa o caldo pop com referências de De volta para o futuro e física quântica. A ilha, descobrimos agora, não apenas sumiu do mapa – ela pula, como um disco arranhado, entre passado, presente e futuro. “Se eu começar a explicar, você não vai conseguir entender”, explica o personagem especialista em física. É o recado dos roteiristas Damon Lindelof e Carlton Cuse: ao espectador, resta embarcar na viagem insólita – ou tomar outro avião.

Sem priorizar os recursos de flashbacks ou flash-fowards (já que a meta agora é fisgar a atenção do público aceleradamente), os dois primeiros episódios alternam duas tramas igualmente intensas: na ilha, os sobreviventes se deslocam no tempo a cada clarão; fora dela, os Oceanic 6 tentam retornar à ilha para resgatar os abandonados. Seria uma questão de simples solução, mas (e taí outra questão que deve mover a temporada) nem todos querem voltar.

Cada vez menos apegada ao sentimentalismo rasteiro, e mais dedicada à ação pura e simples, a série promete crescer muito se mantiver o ritmo desses dois primeiros episódios. The lie, o segundo, segue o formato de um típico capítulo da quarta temporada (com a revelação em doses homeopáticas de elementos que serão essenciais para compor o desfecho da trama). Mas é na taquicardia de Because you left que Lost vai ao paraíso: como nenhuma outra série, esta leva em conta as vantagens de uma época em que podemos ver e rever cenas quantas vezes quisermos (no YouTube, via DIVX etc). Confia que o público será capaz de juntar as peças do quebra-cabeças por conta própria.

Claro que nem todo mundo está disposto à brincadeira: mas, para aqueles fãs que criam novas teorias sobre o enigma a cada episódio, é um tipo de passatempo provocativo que ainda se mantém um passo a frente do espectador. Há programas mais complexos e sofisticados – mas desconfio que Lost mereça ser tratado de outra forma, como um outro tipo de entretenimento: é uma série, mas também um jogo. E esta nova partida, tomara, será para experts. 

Episódios: Because you left (Damon Lindelof e Carlon Cuse, 8), The lie (Edward Kitsis e Adam Horowitz, 7.5).

Fever Ray | Fever Ray

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feverrayDizem que Brasília tem o céu mais bonito do mundo. Não duvido. Mas, na estação das chuvas, não é raro olhar para o alto e se deparar com um espetáculo às avessas. A imagem não é exatamente agradável. São camadas cinzentas de nimbostratus, cortadas por relâmpagos e neblina espessa – uma colcha densa que devora a paisagem e, incontrolável, parece formar um túnel largo para uma dimensão terrível onde eu, sinceramente, não tiraria férias.

Há uma semana ouço obsessivamente o primeiro álbum do Fever Ray, projeto paralelo da sueca Karin Dreijer Andersson – que, com o irmão Olof Dreijer, forma o duo The Knife. Nos episódios mais automáticos da minha rotina (durante o banho, antes de dormir, enquanto leio o jornal, quando brigo com a torradeira ou tento regar as plantas da sala com a quantidade suficiente de água para que elas não caiam afogadas e morram), são canções que me assombram e hipnotizam – de tal forma que deixam a impressão de que eu poderia viver com elas, e apenas com elas, trancado num apartamento de um quarto.

Eu mentiria se afirmasse que essa sensação é rara – não é. Este é um daqueles discos (e há muitos desses discos, não sejamos injustos) que, por uns 40 ou 50 minutos, nos dominam completamente. Não somos nada perto deles. Depois, quando afastados, aí passamos a considerar racionalmente uma série de fraquezas, inconsistências e redundâncias, até tomarmos o disco como qualquer outro.

Eu estava procurando argumentos para defender este álbum, e só encontrei um suficientemente forte quando saí de casa ontem à tarde e fui surpreendido por um temporal violentíssimo, daqueles que alteram nossa percepção do céu da cidade. As árvores tombavam nos canteiros, os carros quase mergulhavam em poças de lama, o baruho dos trovões restremeciam as lâmpadas dos postes. E, nos meus ouvidos tensos, Karin sussurrava: “não há nada a temer”.

Sabemos que a eletrônica do The Knife é uma inesgotável trilha sonora para um filme de horror (o duo cita o cinema de terror coreano como uma das influências, ao lado de David Lynch e do videogame Doom). Por essa lógica cinematográfica, o Fever Ray pode ser tratado como uma impressionante obra de suspense psicológico – daquelas em que os monstros habitam a alma dos personagens.

Eu ficaria muito satisfeito se, superadas as comparações (inevitáveis) com Silent shout, do The Knife, o álbum encontrasse conforto na mesma prateleira de Dummy, do Portishead. São discos que criam atmosferas de agonia, de pavor contido, um meio-termo fascinante entre cotidiano e pesadelo. Karin é a única verdadeira sucessora de Beth Gibbons: a voz do desespero, a Miss Estranheza congelada no tempo.

É aí que Fever Ray se distancia do álbum do The Knife: se aquele era um disco para as pistas (e, de olho na performance dos singles, mais diversificado e extrovertido), o novo de Karin vem carregado daquele despojamento intimista típico de projetos paralelos como The eraser, de Thom Yorke: é o gemido, a encenação assustadora construída com longos planos-sequência. Nessa composição de um clima uniforme, de um tema, o álbum beira a perfeição: logo na primeira música, If I had a heart, somos atirados no inferno: “Se eu tivesse um coração, poderia te amar. Se eu tivesse uma voz, cantaria”, apresenta-se Karin, mascarada pelo recurso de alteração digital de vozes que marcou Silent shout e embala o disco inteiro.

Ao contrário do deslumbramento de um Kanye West, Karin usa os artifícios para rasgar a própria voz de uma forma monstruosa, como quem encarna uma série de personagens num longo drama. As peças se encaixam em When I grow up, veículo para pensamentos inconfessáveis: “Eu nunca gostei do olhar triste de alguém que quer ser amado”, ela admite. Divide o segredo, e assim cria imediatamente uma impressão de cumplicidade com quem a ouve. 

Aí já estamos presos. A faixa seguinte, Dry and dusty, compara dois amantes a cápsulas de energia. Enquanto as melodias dialogam com a secura dub típica do trip hop, a sonoridade electro nunca parece óbvia – cada ruído, cada batida é um achado. Eis que a quarta canção, Seven, avança rumo ao pop e vai à estratosfera – é uma das maiores do ano. Nos versos, Karin narra o encontro com um velho amigo. “Aos sete anos, sob um céu pesado, eu pedalava com a minha bicicleta”, ela lembra. E o céu continua a esmagar tudo.

Depois de um início com aparência de obra-prima, o restante do álbum inevitamente se revela bem menos poderoso. Mas é que nossas expectativas, agora, estão nas alturas: sem pressa, Karin faz de Concrete walls um lamento à Tricky que, na sexta audição, periga ofuscar o disco inteiro. Keep the streets empty for me é outra que (e aí é impossível não lembrar novamente de Portishead) poderia se transformar num standard para novas cantoras de jazz. Mas alguma delas teria coragem de cantar versos como “numa cama de teia de aranha, imagino em como posso me reinventar”?

O álbum termina com uma extensa viagem instrumental chamada Coconut, que sugere uma canção de ninar com letra agora incompreensível, empoeirada. Karin vai desaparecendo aos poucos, e o disco termina como uma paisagem um pouco menos acinzentada, mas ainda pronta para desabar a qualquer momento. É como o céu de Brasília logo depois de uma tempestade, no mês de janeiro: novamente encantador, mas sempre a apenas uma trovoada de fazer das nossas vidas um lugar mais sombrio.

Primeiro álbum do Fever Ray. 10 faixas, com produção de Karin Dreijer Andersson. Rabid Records. 8.5/10  

BÔNUS TRACKS

handsomeFace control | Handsome Furs | 7.5

Por falar em electropop mal-assombrado (e em projetos paralelos que soam tão ou mais instigantes que os pratos principais), o segundo disco do Handsome Furs é o reflexo invertido do Fever Ray e pode ser encarado como o irmão dançante e pop de At Mount Zoomer, do Wolf Parade. O duo liderado por Dan Boeckner (a face menos áspera do Wolf Parade) toma referências como Bowie e New Order para embalar a matriz pós-punk do compositor, e o resultado é o disco mais imediatamente acessível e polido (no caso, uma opção estética) de Boeckner.

Gravado no mesmo Mount Zoomer, o álbum prova o rigor conceitual dos canadenses – o que às vezes rende canções excessivamente racionais, que apenas materializam a ideia de como um determinado disco de rock deve soar (nisso, Face control se aproxima de uma versão indie para Eagles of Death Metal). Ainda assim, faixas como I’m confused e All we want, baby, is everything estão à altura do Wolf Parade – e podem virar ouro nas mãos da Sub Pop.