Dia: janeiro 14, 2009

A troca

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troca

Changeling, 2008. De Clint Eastwood. Com Angelina Jolie, John Malkovich e Jeffrey Donovan. 141min. 6/10

Talvez seja o caso de ver mais uma vez – mas ainda admiro A troca meio de longe, bastante desconfiado.

Entendo os elogios ao filme: há quem chame a atenção para o curto-circuito entre a trama principal (um melodrama) e a parelela (um thriller de serial killer), e de fato isso existe. Há quem note o ataque silencioso e generalizado de Eastwood a todo tipo de autoridade (da polícia aos médicos). Está lá. 

Mas são comentários que desviam daquilo que tomei como o centro de tudo. Ou melhor: do que me perseguiu durante toda a projeção. Existe uma pessoa em mais de 80% das cenas e, bem, ela se chama Angelina Jolie.

É que, queira Clint ou não, o sucesso do filme depende muito da performance de Angelina. E aí mora um problema  (o roteiro de J. Michael Straczynski infla exageradamente a trama e há uma sequência de tribunal que me desagrada em tudo, mas é outra história).

Uma protagonista desse tamanho, elo entre o espectador e o filme, merecia uma atriz menos limitada. Sei que muitos discordarão, mas, quando imagino este filme defendido por outra pessoa, enxergo outra coisa. 

Não que seja uma atuação desastrosa. Nada. É correta. Calculadamente correta. Em um ano menos competitivo, talvez lideraria apostas ao Oscar. Mas existe algo corriqueiro e mecânico nesta interpretação que reduz quase toda a carga dramática de algumas cenas que são essenciais para o drama. Não sei definir o que é. Mas, em alguns momentos, até pensei que a mãe desesperada estaria envolvida numa conspiração da polícia de Los Angeles.  

Dizem que o filme é redundante. Pode ser, mas Angelina Jolie é mais. Se Clint não parece confortável como narrador do drama de uma heroína vitimizada, Angelina falha na missão de evocar desamparo, desespero, revolta. Às vezes, enfiada naquele exagero de figurino, fica parecendo um manequim.

Daí que o filme caminha manco, desapaixonado. Há o mérito de sempre: o olhar de Clint transmite aquele velho rigor ético, uma firmeza de princípios que vale por cententas de imperfeições. Mas o cineasta procura em Angelina Jolie um coração: e ele bate muito lentamente.

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