Tonight: Franz Ferdinand | Franz Ferdinand

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franzÉ um pesadelo ou o Franz Ferdinand realmente conseguiu gravar um terceiro álbum menos vibrante e criativo que o último do Kaiser Chiefs?

Deixa eu ouvir de novo, calma aí. (40 mornos minutos depois). Pff, é isso mesmo.

Quem lê este blog de vez em quando sabe que os escoceses têm uns 850 mil fãs mais entusiasmados que eu. Confesso que não me apaixonei terrivelmente nem pela estreia do quarteto, apesar de admitir (com um pouco de… frio na barriga?) que o disquinho está entre os mais importantes da década.

Quando o segundo disco deles era tratado como a última festa decente do deserto (tipo: não é tão legal repetir a mesma ladainha, mas eles podem!), eu lamentava: podia ter soado tão melhor!

O tempo fez deles uma espécie de gigante indie, mas continuo encarando o Franz Ferdinand como uma ótima banda de singles (Take me out, Matinee, Do you want to?, Walk away) que se convenceu de que consegue gravar bons álbuns.

Tonight, por exemplo, abre com dois hits perfeitinhos: Ulysses e Turn it on. Que soam extremamente agradáveis, dançantes e nota 10 até o momento em que se nota o quanto eles se parecem com todos os outros hits que a banda emplacou por aí.

Alex Kapranos, além de cínico e muito cool, é também bastante honesto em relação à grife sonora do Franz Ferdinand: “Seremos sempre uma daquelas bandas que soam iguais, não importa o que façam”, comentou. Taí uma descrição perfeita para Tonight. O álbum segue uma série de trajetos diferentes para, no fim da linha, chegar exatamente naquilo que esperamos do Franz Ferdinand.

Até aí, tudo bem: cada década tem o Ramones que merece, e, se até o Strokes não conseguiu abandonar o formato que o consagrou (e o Libertines praticamente se implodiu no processo), por que o Franz se safaria? O que vejo como problemático é que Tonight foi erguido com planos mirabolantes que nunca se concretizaram. Isso é legal?

Há alguns meses, Kapranos nos avisou que este seria um “álbum de dance music”, com “influências de dub e música africana” , com um “conceito pop” (inicialmente, o produtor seria Brian Higgins, do Xenomania) e canções “sobre a vida real”. Há um pouco disso tudo em Tonight (e as faixas Send him away e Can’t stop feeling realmente têm um quê afro na percussão), mas diluído num caldo exageradamente familiar.

É como se o Franz Ferdinand quisesse seguir em frente sem largar algumas barras de proteção – o que faz de Tonight um tipo bastante seguro de álbum de transição (e sinceramente espero que eles consigam completar essa transição sabe-se-lá-pra-onde).

Se o exagero de sintetizadores remete aos anos 1980 (sem as belas sacadas do Cut Copy ou o espírito kitsch de um Daft Punk), Tonight só será tomado como um álbum de dance music pela própria banda. Novamente, Kapranos se diz entediado, em busca de diversão (Ulysses é neo-Take me out), e, como letrista, segue atirando versos curtos, auto-irônicos, slogans que você memoriza na primeira audição. Há algumas novidades nas bordas de Tonight, mas a polpa continua rigorosamente conservada.

Para que não me acusem de má vontade, faço uma ressalva: o disco só diz a que veio nas três últimas faixas. Se há um “novo Franz Ferdinand”, ele está escondido aí: na poeira eletrônica que encerra Lucid dreams, na psicodelia fofa (essa sim, inspirada, com frescor) de Dream again e na baladinha acústica Katherine kiss me, que ainda assim fica parecendo lado B de single.

No mais, o álbum encerra as suspeitas de que o Franz Ferdinand faria justiça às comparações com o Talking Heads. De alquimistas eles têm muito pouco. Agora, para quem se satisfaz com o poder (inegável, vá) de um saboroso refrão sem sentido… Os hitmakers estão chegando.    

Terceiro álbum do Franz Ferdinand. 12 faixas, com produção de Dan Carey. Domino Records. 6/10

Ulysses – Franz Ferdinand

(Eu fico imaginando o quão interessante teria sido se o álbum soasse tão noturno e paranoico quanto sugere o videoclipe aí em cima… Mas ok, é um clipe sem grandes arroubos criativos, o que combina com a ocasião)

12 comentários em “Tonight: Franz Ferdinand | Franz Ferdinand

    feliperezende disse:
    janeiro 11, 2009 às 5:45 pm

    Equivalente europeu do Kings of Leon. Sempre espero um discão e sempre acaba em decepção. Dessa vez quase me convenceram, as músicas que vazaram eram muito boas (e eu prefiro tanto Lucid Dreams quanto Ulysses na versão pré-álbum).

    E num disco ‘dance’, a melhor música ser uma baladinha acústica não é dos melhores sinais.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 11, 2009 às 5:49 pm

    Pô, comparar com Kings of Leon é sacanagem, hehe. Mas eles também sempre me decepcionam, já que cada álbum me deixa esperando uma evolução – e ela nunca vem.

    Pra mim a melhor é ‘Dream again’.

    Diego disse:
    janeiro 11, 2009 às 8:22 pm

    A minha é Turn It On.

    Bom, acho que, trabalhando dentro dos limites dos dance-rock que eles sempre tiveram, dá pra notar esboços de mudanças significativas nesse terceiro disco. Só esboços.

    Acho divertido e tal, redondinho e tal, gostosinho e tal, mas esperava mais também. Kapranos falou demais.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 11, 2009 às 8:58 pm

    Concordo, Diego. Dá pra ver que eles querem mudar, mas estão ainda bem tímidos.

    guilherme semionato disse:
    janeiro 12, 2009 às 2:38 pm

    coloque acento em paranoico, cristo.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 12, 2009 às 3:43 pm

    Reforma ortográfica, meu filho.

    Filipe Torres disse:
    janeiro 12, 2009 às 5:26 pm

    Engraçado que eu acho que o disco parece dividido em três: as primeiras músicas é o mesmo Franz de Sempre, o meio do disco dá uma embolada no tal “processo de renovação” que eles dizem… e as coisas só vão ser esclarecidas nas três últimas músicas.

    É esquisito, mas ainda é o mesmo Franz de Sempre.

    Filipe Furtado disse:
    janeiro 12, 2009 às 8:19 pm

    Pelas minhas contas este é seu terceiro texto em pouco mais de semana onde o principal argumento negativo a respeito de um disco é de que ele é mais do mesmo.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 12, 2009 às 8:35 pm

    Antony and the Johnsons, A.C. Newman e Franz? Ok, Filipe, você venceu.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 12, 2009 às 8:39 pm

    E Morrissey! haha. Cara, mas realmente, não sei se você percebe que o problema não é ser simplesmente fazer a mesma coisa disco a disco, mas me incomodo mesmo é quando tentam mudar e não conseguem.

    Diego disse:
    janeiro 13, 2009 às 1:39 am

    Pera. Então é melhor não tentar mudar nunca?

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 13, 2009 às 2:01 am

    Claro que não, né. Mas eu estava pensando nisso hoje… Sobre minhas bandas preferidas e o porquê de eu gostar tanto delas. Acho que tem a ver com essa ideia de uma obra em progresso, que vai se desdobrando disco e disco. Isso me interessa, acho que é o que mais me interessa na música pop (e, se eu for puxar de onde isso vem, vou acabar chegando nos Beatles, em Bob Dylan, nos Pixies, etc, e isso aqui vai virar uma obviedade só). Mas é óbvio que há inúmeras exceções aí, e eu posso listar várias bandas maravilhosas que ficam andando em círculos, que se contradizem. Enfim: não vou ficar criando tabus, cada disco é um disco e não ouço nada com cinco pedras na mão (nem o Franz Ferdinand, de que não sou exatamente fã).

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