Years of refusal | Morrissey

Postado em Atualizado em

morrissO site oficial se chama, muito apropriadamente, It’s Morrissey World. E aí nos lembramos que poucos são os ídolos pop com cacife para essas extravagâncias: os álbuns de Morrissey sempre nos levam a um mundo de fácil reconhecimento. Basta um acorde e sabemos onde estamos.

Algumas viagens são menos corriqueiras que outras. Em Ringleader of the tormentors, de 2006, o mártir dos solitários anônimos nos surpreendia com uma lua-de-mel fogosa em Roma, plena de revelações (e, no caso dele, revoluções) sexuais. Mas o verão acabou.

Years of refusal retorna ao roteiro habitual, com canções supostamente confessionais compostas provavelmente de madrugada, possivelmente num quarto vazio. O Morrissey que conhecemos  – e do ponto em que o igualmente amargo You are the Quarry havia parado.

Em quase tudo, soa como uma continuação do álbum de 2004. A começar pela produção simplezinha de Jerry Finn, de bandas como Blink 182 e Offspring. Finn morreu pouco depois da conclusão do disco, o que só acentua o tom desiludido de um repertório que, apesar de explorar praticamente todos os temas recorrentes da discografia do cantor (amores turtuosos, vaidade, solidão), soa mais mórbido que o habitual.

O que não significa, de forma alguma, que este seja um momento introspectivo. Morrissey não conseguiria. Com o auxílio de Finn, a primeira metade do disco é para tocar nas rádios: toda tomada por guitarras meio anêmicas, pasteurizadas, mas enérgicas (imagine um hit do Paramore).  O empobrecimento musical valoriza os versos de Morrissey. E, convenhamos, é o que importa.

É nesse aspecto aí que Moz continua em estado de alerta, hilariante e cruel. Um disco para ser lido, este. Faixas como That’s how people grow up e Something is squeezing my soul provam que o rei do sarcasmo não deixou o castelo. “Não há amor nem amigos verdadeiros na vida moderna”, dispara, certamente com um sorrisinho cínico no rosto. Mais adiante, em I’m throwing my arms around Paris, dá prosseguimento ao ritual fake de auto-humilhação: “apenas pedras e metal aceitam meu amor”.

Para variar, Morrissey comentou que Years of refusal é um álbum para “pessoas reais” e que, por isso, será odiado pelos críticos. O curioso é que, com o passar do tempo (e com exceção do disco anterior), o personagem de Morrissey passa a parecer cada vez menos real e cada vez mais uma compilação de trejeitos previsíveis, de movimentos repetitivos, de piadas prontas.   

Por enquanto ele ainda está bastante vivo. Mas, para um mestre da acidez, a acomodação pode acabar se revelando o pior dos venenos.

Nono álbum de Morrissey. 12 faixas, com produção de Jerry Finn. Universal Music. 6.5/10

7 comentários em “Years of refusal | Morrissey

    Diego disse:
    janeiro 9, 2009 às 10:37 pm

    Tem jeito de piloto automático até em alguns versos, mas a produção “simplezinha”, como você disse, me agradou bastante. Deixa o álbum mais direto, dá espaço pras letras.

    Sem contar que acho corajoso um tiozão beirando os 50 reclamar da vida feito adolescente de 16 anos que tomou o primeiro pé na bunda.

    Smaily Prado disse:
    janeiro 10, 2009 às 12:08 am

    Oi Tiago! Acho que não tem muito a ver com seu blog, mas como eu decidi participar e tenho que chamar 6 pessoas, bom, enfim, convido vc pra participar de um meme (não sabe o que é? bom, eu também não sabia) passa lá no Expressionando.

    Um Abraço!

    Daniel Pilon disse:
    janeiro 10, 2009 às 12:20 am

    Meus preferidos dele ainda são o primeiro e o Ringleader. E eu concordo plenamente que lido esse disco é bem melhor que quando ouvido. Aliás, isso acontece constantemente na carreira solo do Morrissey, imo.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 10, 2009 às 5:13 pm

    Diego, não sei se é corajoso… O cara faz isso em absolutamente todos os discos.

    Daniel, pois é, às vezes bate saudades do Johnny Marr.

    Diego disse:
    janeiro 10, 2009 às 7:09 pm

    Mas agora ele beira os cinquenta. Ele só vai parar quando morrer. Vai remoer as decepções amorosas de adolescente em público pra sempre.

    Francamente, é muito corajoso.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 10, 2009 às 10:08 pm

    Depende do ponto de vista! Pode ser uma boa jogada de marketing também.

    Pedro Santos disse:
    janeiro 14, 2009 às 5:29 pm

    Essa capa de “Years of Refusal” de Morrissey é soberba! Estou ansioso para que o disco chegue logo… Morrissey e o Smiths sempre tiveram boas capas e esta vem justamente comprovar isso. Já muito se escreveu sobre o Smiths, o fenômeno que a banda gerou e a revolução, feita a partir do centro da pop, que patrocinou. Mas nunca até hoje tinha lido com tanto prazer sobre o culto das capas dos discos! Essa matéria faz isso e bem:
    http://cotonete.clix.pt/quiosque/especiais/smiths/index.asp

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s