Noble beast | Andrew Bird

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andrewAntes de se transformar num artesão do indie rock, o violinista Andrew Bird gravou três álbuns de influência jazzística, inspirados na sonoridade das big bands. Nós conhecemos os artistas que caminham do popular em direção ao erudito. Andrew fez o percurso contrário.

Ele se apaixonou pelo pop (por Radiohead e Jeff Buckley, num primeiro momento) e, em seguida, o pesquisou com a dedicação de um aluno aplicado. Os álbuns gravados a partir de The swimming hour (2001) registram essa descoberta, essa labuta, e soam um pouco como objetos de estudo.

The mysterious production of eggs (2005) e Armchair apocrypha (2007) tratam (com distanciamento) do rock barroco. Noble beast analisa o folk – e, às vezes na mesma faixa, encontra as conexões prováveis e improváveis entre Nick Drake, Radiohead e o Beck de Mutations

Andrew não define uma hierarquia clara entre referências do passado e do presente, o que faz deste álbum uma delícia para o obcecado por música pop: Masterswarm, por exemplo, evoca tanto as melodias escorregadias de In rainbows quanto as orquestrações tristes de Five leaves left. A abertura, Oh no, começa toda pomposa, à Van Dyke Parks – mas acaba soando como uma homenagem aos arranjos econômicos do Shins.

E não dá para subestimar as letras rebuscadíssimas, que mesclam poesia hippie, expressões esnobes (que caíram em desuso) e delírios de ficção-científica. Em Not a robot, but a ghost, os versos de Andrew parecem brincar com os acordes. Uma ingênua zoeira eletrônica faz pano de fundo para a confissão de um robô (ou seria um fantasma?) que conhece decifra o código para terminar a guerra.

Andrew demorou mais de sete meses para lançar Noble beast. É mesmo um álbum de detalhes, de notas delicadas e etéreas, de letras precisas (provavelmente reescritas à exaustão), e que dedica atenção absoluta à atmosfera que costura as canções bucólicas, dedilhadas ao violão. 

Se existe um grande problema é que, com 14 faixas, o modelo acaba se repetindo cedo demais. Mas, se existe uma grande qualidade, e que faz deste o melhor disco do compositor, ela está no modo como Andrew passou a se sentir confortável dentro desse pop cerebral, esse pop-maquete, esse pop de recortar e colar e estudar e recriar. 

Ele constrói lindas canções a partir da criação dos outros. E, se você decidir enxergar beleza nessa brincadeira, Noble beast deixará de soar óbvio e começará a parecer um tantinho sublime. 

Oitavo álbum de Andrew Bird. 14 faixas, com produção de Andrew Bird. Lançamento Fat Possum. 7/10

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