Dia: dezembro 23, 2008

Noble beast | Andrew Bird

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andrewAntes de se transformar num artesão do indie rock, o violinista Andrew Bird gravou três álbuns de influência jazzística, inspirados na sonoridade das big bands. Nós conhecemos os artistas que caminham do popular em direção ao erudito. Andrew fez o percurso contrário.

Ele se apaixonou pelo pop (por Radiohead e Jeff Buckley, num primeiro momento) e, em seguida, o pesquisou com a dedicação de um aluno aplicado. Os álbuns gravados a partir de The swimming hour (2001) registram essa descoberta, essa labuta, e soam um pouco como objetos de estudo.

The mysterious production of eggs (2005) e Armchair apocrypha (2007) tratam (com distanciamento) do rock barroco. Noble beast analisa o folk – e, às vezes na mesma faixa, encontra as conexões prováveis e improváveis entre Nick Drake, Radiohead e o Beck de Mutations

Andrew não define uma hierarquia clara entre referências do passado e do presente, o que faz deste álbum uma delícia para o obcecado por música pop: Masterswarm, por exemplo, evoca tanto as melodias escorregadias de In rainbows quanto as orquestrações tristes de Five leaves left. A abertura, Oh no, começa toda pomposa, à Van Dyke Parks – mas acaba soando como uma homenagem aos arranjos econômicos do Shins.

E não dá para subestimar as letras rebuscadíssimas, que mesclam poesia hippie, expressões esnobes (que caíram em desuso) e delírios de ficção-científica. Em Not a robot, but a ghost, os versos de Andrew parecem brincar com os acordes. Uma ingênua zoeira eletrônica faz pano de fundo para a confissão de um robô (ou seria um fantasma?) que conhece decifra o código para terminar a guerra.

Andrew demorou mais de sete meses para lançar Noble beast. É mesmo um álbum de detalhes, de notas delicadas e etéreas, de letras precisas (provavelmente reescritas à exaustão), e que dedica atenção absoluta à atmosfera que costura as canções bucólicas, dedilhadas ao violão. 

Se existe um grande problema é que, com 14 faixas, o modelo acaba se repetindo cedo demais. Mas, se existe uma grande qualidade, e que faz deste o melhor disco do compositor, ela está no modo como Andrew passou a se sentir confortável dentro desse pop cerebral, esse pop-maquete, esse pop de recortar e colar e estudar e recriar. 

Ele constrói lindas canções a partir da criação dos outros. E, se você decidir enxergar beleza nessa brincadeira, Noble beast deixará de soar óbvio e começará a parecer um tantinho sublime. 

Oitavo álbum de Andrew Bird. 14 faixas, com produção de Andrew Bird. Lançamento Fat Possum. 7/10

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Crepúsculo

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Twilight, 2008. De Catherine Hardwicke. Com Kristen Stewart, Robert Pattinson, Billy Burke e Ashley Greene. 122min. 4/10

Britney Spears, emocore, Lindsay Lohan, porntape, twitter, Gossip Girl: deve ser muito, muito complicado ter 15 anos de idade em 2008.

Daí que entendo perfeitamente por que tanta menininha está caída por Crepúsculo – o livro, o filme, a trilha sonora (tem Paramore!) e a marca de perfume. A protagonista, Bella, também se sente deslocada neste mundo cruel que a subestima, emburrece e, mais importante, não a compreende.

E válvulas de escape para a frustração adolescente sempre adotaram táticas mais ou menos sujas, né? Álbuns de heavy metal, livros de Stephen King, super-heróis atormentados e vampiros, sempre, muitos, sedentos, irresistíveis, os outsiders por excelência.

Três marcos da minha estranha juventude: Cláudia Ohana com dentes afiados e olheiras profundas, Winona Ryder toda lânguida em Drácula de Bram Stoker e Garotos perdidos.

Por isso sei do apelo de Crepúsculo. Já estive lá. Que garotinha inocente nunca desejou se apaixonar terrivelmente por um vampiro topetudo, obviamente metrossexual, empapado em pó-de-arroz e com aquela aparência blasé de me-sinto-bem-mais-velho-que-vocês? Que garotinho inocente nunca torceu para acordar com o visual de um integrante de banda de rock gótico?

É tudo tão simples! Perdoo o descontrole da menina da poltrona ao lado, que, durante a sessão do filme, não parava de elogiar para as amigas a suposta beleza incomparável e hipnótica de um ator que parece atado a uma máscara de pierrot. 

A tendência é que, em dez anos, Crepúsculo seja encarado por esse público como uma lembrança tola. Já que, como filme de horror ou como filme de amor (e quase toda história de vampiros tem um pouco dos dois elementos), trata-se de um brinquedinho medíocre. Desculpa aí, meninada, mas o negócio aqui é de arrepiar o cérebro.

Até tentei encontrar alguma graça neste Romeu e Julieta from hell, mas essa tal de Catherine Hardwicke é osso duríssimo de roer. Se Aos treze era uma estocada de grosseria, aqui ela consegue conceber as cenas de suspense mais desengonçadas e toscas da temporada, sempre recorrendo a um fumacê medonho para evocar tensão. E há as florestas sombrias. Sempre as florestas, sempre sombrias.

Isto aqui pode ser encarado como tipo bastante inofensivo de filme B. Mas o complicado mesmo, pelo menos para mim, foi suportar a companhia da personagem principal, uma heroína entediada e aborrecida, encantada por um morto-vivo tão expressivo quanto uma lápide. Eles se merecem.

Mas ok, tá certo, esta nunca foi uma fase fácil da vida.