20 melhores filmes de 2008 (Parte II)

Postado em

Antes de encerrar de vez esta saga (como se alguém estivesse muito preocupado com isso, tsc), aí vai uma rápida lista de filmes que viraram meu 2008 do avesso mas que, por não terem sido lançados no circuito de exibição, foram excluídos do top 20. São eles, os cinco (ou seis) outsiders:

1. Sonata de Tóquio – Kiyoshi Kurosawa
2. Aquele querido mês de agosto – Miguel Gomes
3. Diário dos mortos – George A. Romero
4. Boarding gate e Horas de verão – Olivier Assayas
5. Deixe ela entrar – Tomas Alfredson

Talvez vocês sintam falta de um filme chamado A espiã nesta lista de 20 favoritos. Ele entraria muito facilmente neste top caso não tivesse sido incluído, por descuido meu (e propaganda enganosa dos distribuidores), na seleção do ano passado. Espero que algo parecido não aconteça com o sexto colocado da nova lista. Se acontecer, minhas desculpas antecipadas.

fronteiraalvorada

10. A fronteira da alvorada – Philippe Garrel

O cinema de Garrel não é narrado no pretérito perfeito: são poemas sobre a forma como ele, o passado, atormenta o tempo presente. Daí que, apesar das diferenças superficiais, A fronteira da alvorada conversa de igual para igual com Amantes constantes – dois filmes que borram fronteiras entre o antigo e o novo, o sonho e a realidade. Juntos, são um mundo de ilusões em preto-e-branco.

walle

9. Wall-E – Andrew Stanton

Na primeira metade, um filme mudo da era digital. Na segunda, uma ficção-científica apocalíptica com verve crítica herdada de um Stanley Kubrick (talvez filtrado pelo sentimentalismo de Spielberg, mas nada preocupante). Entre um pólo e outro, um herói solitário que talvez não encontraremos nos filmes mais recentes de Hayao Miyazaki. O último romântico. Em uma animação que guardarei para mostrar aos meus netos.

leonera

8. Leonera – Pablo Trapero

O novo de Pablo Trapero talvez não provoque reações tão imediatas quanto os primeiros colocados desta lista, mas é um filme tão maleável às incertezas e aos mistérios da vida que talvez seria melhor admirá-lo por uma luz diferente. Neste pequeno filme, Trapero retrata uma situação pouco conhecida (a vida das presidiárias grávidas) sem esconder todas as questões morais envolvidas num certo ambiente. Há os que cineastas que preferem defender uma posição: Trapero filma a dúvida, o dilema incontornável, a contradição. 

paranoid1

7. Paranoid Park – Gus Van Sant  

Antes de voar alto na bolsa de apostas de Hollywood para o Oscar 2009, Van Sant filmou um conto de juventude que não teria chance alguma de disputar estatuetas. Azar da Academia. Paranoid Park talvez o filme mais positivamente juvenil do cineasta, já que aberto para a descoberta de experiências audiovisuais (o clipe, a videoarte, o cine-poema, o thriller) e para o imprevisível – aliás, onde mais encontraríamos um bate-papo imaginário entre Elliott Smith e Dostoiévski?

junie

6. A bela Junie – Christophe Honoré

O lado B de Canções de amor também é uma ciranda amorosa, mas narrada como uma canção de Nick Drake. Em tons de azul, tomado por sentimentos barrocos, inspirado numa antiga história de amores cruzados (transposta para os corredores de um colégio francês do século 21), feito para a televisão, é o filme em que Honoré finalmente nos convence de que prestar reverências explícitas a François Truffaut nem sempre pode ser considerado um pecado – neste caso, o próprio Truffaut teria se orgulhado de provocar esse tipo de frio na espinha.

questao1

5. A questão humana – Nicolas Klotz

Muito mais que um ensaio provocativo sobre as relações entre os métodos nazistas e os padrões de relacionamento numa grande corporação (ainda que elas existam, argumenta o filme), é uma reflexão tão corajosa sobre as tragédias e traumas do século 21 – e, como em Garrel, sobre um passado que não nos abandona, não nos deixa em paz – que o tamanho das intenções de Klotz superam as eventuais quedas de ritmo da narrativa. E existe ator mais completo que Mathieu Amalric? Um passo para trás, Paul Thomas Anderson.

Sweeney Todd

4. Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da rua Fleet – Tim Burton

Ou: um filme de Tim Burton e Stephen Sondheim, tamanha a qualidade da colaboração entre cineasta e compositor. Burton não se contenta com uma adaptação – ele praticamente se deixa engolir pelo anti-herói da Broadway, e o que nasce desse estranho cruzamento é um filme tão auto-referencial (há cicatrizes de Batman e Ed Wood) quanto estranho, talvez até por soar excessivamente agressivo, dentro do repertório do diretor. A seqüência final é a mais cruel do ano – e trata-se de uma superprodução.  

diabo

3. Antes que o diabo saiba que você está morto – Sidney Lumet

Falando em crueldade… O retorno de Lumet ao mundo dos cineastas vivos é uma tragédia levada às últimas, terríveis conseqüências. Uma trama que poderia ter rendido um thriller esquemático (mais um filme sobre assalto frustrado?) é tratada pelo cineasta como uma questão de vida ou morte. Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke, excepcionais, entram no jogo com a entrega que o projeto exige. O resultado não poupa ninguém – e, se alguém procurava algo do gênero, taí um filme que machuca de verdade.

nocountry

2. Onde os fracos não têm vez – Ethan e Joel Coen

Talvez um ano seja muito pouco para convencer os detratores dos irmãos Coen de que Onde os fracos não têm vez é, além de um belíssimo faroeste moderno, uma senhora encenação da cultura da violência nos Estados Unidos (e aí, meu irmão, favoritismo no Oscar e Queime depois de ler não facilitam a vida de ninguém). O que talvez decepcione quem abriu uma exceção para este filme é que ele não nega (pelo contrário, confirma) uma série de temas e obsessões que podem ser encontrados em longas como Fargo e Barton Fink. Mas, ao adaptar rigorosamente o livro de Cormac McCarthy, os Coen se viram obrigados a limar os tiques de um estilo que já começava a dar pinta de cansaço. Nunca soaram tão econômicos, concisos. Um detalhe. Mas obras-primas são feitas de detalhes.

I'm Not There

1. Não estou lá – Todd Haynes

De tanto escrever sobre I’m not there, acho que lembro mais dos textos estabanados que escrevi (e das minhas defesas em voz altíssima) que do filme em si. Outro dia peguei um trecho na tevê, e percebi que talvez – talvez – eu não teria passado por uma sessão de hipnose. É o grande filme de Todd Haynes (e, quando falamos no diretor de A salvo, não estamos falando de qualquer um), e – mais impressionante que isso – um que consegue vencer o desafio quase impossível de travar um diálogo com a obra de Bob Dylan e deixar que o espírito dessa obra contamine a narrativa. Veja só: ainda há muito o que escrever sobre I’m not there

*

Agora é a hora em que vocês comentam sobre seus filmes favoritos do ano e ficamos quites. Ok?

Anúncios

13 comentários em “20 melhores filmes de 2008 (Parte II)

    Diego disse:
    dezembro 22, 2008 às 4:47 am

    Ih, problema: “A Bela Junie” ficou para primeiro de janeiro de 2009.

    I’m Not There também é meu primeiro, mas, ao contrário de você, não sei muito bem o que escrever sobre ele. Admiro-o mais como experiência audiovisual, como algo sentido, do que como obra acabada, pensada, defendida com grandes argumentos.

    Tiago respondido:
    dezembro 22, 2008 às 10:26 am

    Puts, Diego, eu sabia que isso ia acabar rolando. Mas enfim: deixa quieto. Esse critério da estréia no circuito é tão esquisito (exemplo: aqui em Brasília, “Estamos bem mesmo sem você” só chegou em maio deste ano. Mas, como estreou no Rio no final do ano passado, ficou de fora da minha lista).

    Filipe disse:
    dezembro 22, 2008 às 11:41 am

    Este ano vou ser bem radical, o critério será vistos por mim pela primeira vez em 2008 desde que o filme seja na pior das hipoteses de 2006. Desisti do nosso circuito.

    Tiago respondido:
    dezembro 22, 2008 às 12:34 pm

    Hahahaha. Quase fiz isso, Filipe.

    Lucas Mayor disse:
    dezembro 22, 2008 às 2:54 pm

    Deixar “Um Conto de Natal” fora da lista foi algo deliberado ou esquecimento mesmo?

    Tiago respondido:
    dezembro 22, 2008 às 4:53 pm

    Deliberado… Eu gosto do filme, mas não sou dos fãs. Tem um textinho meu sobre ele no blog.

    Lucas Mayor disse:
    dezembro 22, 2008 às 7:19 pm

    Eu li.

    Daniel Pilon disse:
    dezembro 22, 2008 às 11:43 pm

    I’m Not There também é meu favorito. Seguido de A Espiã, Sangue Negro, No Country e Wall*E.

    Michel Simões disse:
    dezembro 23, 2008 às 3:58 pm

    Ano sem filmes arrebatadores, mas de muitos bons filmes. Eu nunca colocaria I’m not There, por mais que goste, e ainda não sentei p/ fazer a minha. Mas saio com uma certeza, vou ter q assistir o novo do Honoré assim que estrear.

    Tiago respondido:
    dezembro 23, 2008 às 4:23 pm

    Sim, Michel, veja e coloque na sua lista de 2009, já que os putos dos distribuidores decidiram adiar o filme.

    Michel Simões disse:
    dezembro 23, 2008 às 5:14 pm

    hehe, num outro ano eu tb fiz a lista e na primeira semana vi um filme do Loach e tive q refazer a lista de 10!

    Quero fazer um mini-ciclo Honoré em Jan, baixei dois deles.

    Tiago respondido:
    dezembro 23, 2008 às 5:52 pm

    …E aqui em Brasília ainda não lançaram “Canções de amor”.

    Chico disse:
    dezembro 31, 2008 às 8:08 pm

    Tiago, bela lista. “A Bela Junie”, apesar do adiamento, é mesmo excelente.

    E vamos esperar que Kurosawa, Gomes e Alfredson possam ser votados na lista de estréias do ano que vem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s