20 melhores álbuns de 2008 (Parte II)

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Antes de continuarmos, preciso lembrar de alguns ótimos disquinhos que ficaram (infelizmente!) de fora da minha lista dos 20 melhores. Sabe como é: nem sempre cabe mais um. Para vocês terem uma idéia de como a disputa foi acirrada, o último colocado (Offend Maggie, do Deerhoof) é um dos discos que continuo ouvindo insistentemente a cada trinta minutos.

Então, façam o favor de perdoar a ausência do Nick Cave, do Why?, do Los Campesinos, do Destroyer, do Atlas Sound, do Stephen Malkmus, do Fucked Up, do Of Montreal (deus! até eles!), do Bonnie ‘Prince’ Billy e de uma galera que quase-quase entrou na seleção que vocês terminam de ler agora.

E, antes que eu esqueça, aí vão os cinco melhores álbuns brasileiros do ano (ao contrário do que já aconteceu em outros anos, nenhum deles entraria no top 20 final. Páreo duro, filho).

1. Terceiro mundo festivo – Wado
2. Artista igual pedreiro – Macaco Bong
3. Donkey – CSS
4. Sou/Nós – Marcelo Camelo
5. Uma tarde na fruteira – Júpiter Maçã

De volta à programação normal… 

CC ALBUM ACETATE CONCEPT

10. In ghost colours – Cut/ Copy

Hercules and Love Affair? Entraria numa lista de 30 melhores do ano. Mas, na missão de adicionar sabores pop à dance music, ninguém acertou tanto quanto Dan Whitford. Mais que copiar e recortar referências, Dan toma as lembranças de canções baratas como plataforma para uma colagem sentimental que pode ser guardada na sua estante ao lado de Discovery, do Daft Punk, e It’s never been like that, do Phoenix.

vampiregrande

9. Vampire Weekend – Vampire Weekend

O álbum de rock mais importante de 2008 (nem bem saiu da fábrica, já influenciava uma dúzia de novíssimas bandas) está longe da perfeição. Acontece. No papel, eles praticamente lideraram um movimento de indie rock global (e engomadinho, e irônico, e lo-fi etc). Na prática, trata-se da estréia mais econômica desde Is this it, do Strokes. As canções não são assim tão inesquecíveis quanto gostaríamos de ter encontrado – mas nem sempre se pode ter tudo, certo?

bon iver cover 5

8. For Emma, forever ago – Bon Iver

Para um álbum de canções gravadas aos suspiros – como bilhetes de amor largados no matagal -, ainda espanta o alcance atingido por For Emma, forever ago. O sinal de fumaça de Bon Iver foi visto até na abertura do show do The National. O que ele tem? Sem os dotes vocais de Jeff Buckley ou as referências sessentistas de Elliott Smith, Iver ainda assim parece lapidar arranjos com navalhadas. Cada canção soa como a última chance – e, se a música pop depende desse tipo de sinceridade visceral, então taí: encontramos um trovador confiável para seguir.

deerhuntergrande

7. Microcastle – Deerhunter

Bradford Cox não descansou em 2008: lançou um belo álbum de ambient (no projeto Atlas Sound) e passou a levar a sério o potencial pop do Deerhunter. Talvez nenhum fã da banda tenha esperado de Cox um álbum tão ruidoso e delicado (e, como se não bastasse, acessível) quanto Loveless, do My Bloody Valentine. Microcastle se aproxima disso – e, deitado numa nuvem de distorção, apresenta um band leader agoniado, com talento para habitar a história do rock e se apropriar de referências que mais o interessam. A aparência do próximo disco? Não me pergunte.

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6. Get awkward – Be Your Own Pet

Uma história de perdedores: depois de lançar um álbum de punk rock deliciosamente juvenil, a petizada do Be Your Own Pet disse adeus ao mundo pop. O que fazer? Resta a esperança de que ninguém deixe a velocidade das coisas devorar este grande disco: contra a megalomania que reina no pop rock, a gangue encenou o entusiasmo – e a crueldade – adolescente em canções que ainda soam como crônicas escritas no calor do momento. E viveu intensamente a alegria de fazer parte de uma banda de rock. Um estrondo – enquanto durou.

jamiegrande

5. Jim – Jamie Lidell

Muito já foi dito sobre os superestimados: bons álbuns que arrastam silenciosamente para as brechas de listas de melhores do ano e, quando nos damos conta, dominam as redações de dez entre dez revistas especializadas. Mas e os subestimados? Os discos que, vítimas de espancamento precoce, desaparecem na multidão de vítimas de comentários apressados. Sem o verniz experimental que se esperava dele, o novo álbum de Jamie Lidell foi tratado como uma descartável (e excessivamente polida) homenagem a ídolos do passado. Ouça novamente: no trabalho pop menos complexado do ano, Lidell faz uma ode sincera, mas não inocente, às canções perfeitinhas (hoje veiculadas em comerciais de margarina) que o ensinaram a amar a soul music. Captar a atmosfera dessas lembranças, eis o desafio.  isso. E chega de dogmas. 

  holdgrande

4. Stay positive – The Hold Steady

A crônica dos meninos e meninas da América chega ao capítulo em que os amigos de adolescência, agora crescidos, decidem construir algo durante o verão. Não é tão simples: nesta seqüência sombria para a longa (e fascinante) série de filmes do Hold Steady, a morte ronda os protagonistas, que tropeçam em cadáveres na floresta (One for the cutters), se estapeiam (Slapped actress) ou se envolvem em casos de amor atormentados (Lord, I’m discouraged). A influência de Bruce Springsteen aos poucos é substituída por outra: John Cassavetes é o padrinho de um álbum de fúria literária – cinema indie norte-americano, como nos bons tempos. 

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3. Nouns – No Age

É pegar ou abandonar: a estréia do No Age (lançado na esteira de uma ótima compilação de EPs) talvez termine o ano como o álbum menos disposto à unanimidade. Nenhum, porém, foi tão incisivo. Largados num vendaval de ruídos que aponta tanto para o Sonic Youth dos anos 80 quanto para os primeiros álbuns do grunge, Randy Randall e Dean Allen Spunt viram do avesso a imagem reluzente de Los Angeles e apresentam uma cena que desloca o indie rock para um ambiente mais perigoso que as trilhas sonoras de seriados de tevê. Passado o susto, trata-se um álbum de canções construídas em mínimos detalhes – talvez o detalhe mais impressionante desta viagem insólita.

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2. Brighter than creation’s dark – Drive-By Truckers

Vejam bem, não há nada de extraordinário aqui: um épico do country rock (se lançado em 1972, teria sido um baita álbum duplo) gravado por uma banda em processo de reconstrução, que ainda acredita num formato tido como “fora de moda”. Enquanto Wilco e My Morning Jacket buscam uma atualização via soft rock, o Drive-By Truckers preferiu gravar o clássico perdido do alt-country dos anos 90. Previsível que ninguém tenha dado tanta atenção ao disco (que, canção a canção, é mais robusto que qualquer Department of Eagles, por exemplo), mas Peterson Hood e Mike Cooley querem compor para um outro tempo, para outra América – de imaginação, de cinema. Não é à toa que o disco termine nos bastidores de um filme de John Ford. Uma imagem de dignidade para um álbum de pulso firme e alma lavada.

tvgrande

1. Dear science – TV on the Radio

Uma banda que tenta tudo (e sempre!) não deveria conseguir metade do que o TV on the Radio consegue. Mas cá estão eles, numa nova sessão de testes de um inesgotável laboratório pop. Depois de Return to cookie mountain, quem apostaria numa nova surpresa? Dear science é ainda melhor: o momento em que a fusão de afro-punk e rock progressivo (e o que mais?) atinge um impressionante ponto de fervura, muito perto daquilo que chamaríamos de pop. Só que ainda não: entre Ok computer e Billie Jean, o TV on the Radio tritura referências com um olhar curioso – e hiperativo – que, em última análise, diz muito sobre a forma ansiosa e descontrolada como passamos a consumir música. Para um álbum que se assume como uma carta à ciência – em defesa dos instintos, da irracionalidade -, nada soaria mais apropriado que uma intensa confusão. Dear science é esse maremoto.

*

Agora, até para não criar um climão de constrangimento, vocês poderiam revelar seus favoritos aí na caixa de comentários. Pode ser? Obrigado.

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23 comentários em “20 melhores álbuns de 2008 (Parte II)

    Diego disse:
    dezembro 14, 2008 às 11:33 pm

    O meu primeiro é o mesmo que o seu.

    guilherme semionato disse:
    dezembro 14, 2008 às 11:51 pm

    rapaz, se eu te contar que eu so ouvi tres albuns de 08 (fleet foxes, jukebox e brighter than etc.), voce acredita?

    baixei o ultimo especialmente pela sua recomendaçao (somada a do filipe). achei maravilhoso. enfiei os dois pes no country-rock esse ano.

    Rodrigo disse:
    dezembro 15, 2008 às 12:56 am

    No seu top 10, tem dois que não sairiam de jeito nenhum do meu: Dear Science e Microcastle (o Weird Era Cont. é ótimo também, não sei se você chegou a ouvir). Eu também gosto muito desse do No Age e não colocaria nem a pau o Be Your Own Pet e o do Vampire numa lista de melhores, hehe. No meu top 10 também entram o Visiter, Third, Fleet, Walkmen, todos maravilhosos. :)

    Tiago respondido:
    dezembro 15, 2008 às 1:07 am

    Ouvi sim, Rodrigo. Mas pouco.

    Guilherme, foram boas escolhas. Apesar de que Jukebox acho meio caído.

    E aí, Diego, quando sai sua lista?

    Diego disse:
    dezembro 15, 2008 às 2:33 am

    Em breve.

    Daniel Pilon disse:
    dezembro 15, 2008 às 4:44 pm

    O meu:

    1 “Dear Science”, TV On the Radio
    2 “Microcastle”, Deerhunter
    3 “Stay Positive”, The Hold Steady
    4 “Brighter than the creation’s dark”, Drive-By Truckers
    5 “Nouns”, No Age
    6 “Jim”, Jamie Lidell
    7 “In Ghost Colours”, Cut Copy
    8 “Modern Guilt”, Beck
    9 “OH (Ohio)”, Lambchop
    10 “Artista Igual Pedreiro”, Macaco Bong

    Tiago respondido:
    dezembro 15, 2008 às 4:47 pm

    Bem parecida com a minha, Pilon.

    Daniel Pilon disse:
    dezembro 15, 2008 às 4:52 pm

    Pois é, só 3 diferentes.

    Ah, esqueci de ressaltar que eu desprezo Be Your Own Pet. :-D

    Tiago respondido:
    dezembro 15, 2008 às 4:54 pm

    Ok, Pilon. Nem tudo é perfeito.

    guilherme semionato disse:
    dezembro 15, 2008 às 6:44 pm

    cara, cade lucinda williams ai? voce pelo menos ouviu o novo album dela?

    Filipe disse:
    dezembro 15, 2008 às 7:21 pm

    O Be Your Own Pet é a pegadinha do Tiago, só pode. Mas o Top 10 esta foda. Legal que acho que o meu top 10 é formado ou por disco do Top 20 do Tiago ou por discos que ele não tem nem no log hehe.

    Tiago respondido:
    dezembro 15, 2008 às 8:16 pm

    Certo, só eu gostei do Be Your Own Pet. Mas vou com ele até o fim, hehe.

    Tiago respondido:
    dezembro 15, 2008 às 8:17 pm

    Vou ouvir o da Lucinda Williams e depois te digo, Guilherme. São tantos os discos que ouço superficialmente e deixo de lado…

    guilherme semionato disse:
    dezembro 16, 2008 às 1:37 am

    obrigado pelas indicaçoes de bon ivers e jamie lidell. li o que v. tinha a dizer, BATEU A IDENTIFICAÇAO, baixei os albuns e os ouvi nesse meio-tempo.

    o do sr. ivers é excelente, o outro fica um degrauzin’ abaixo, mas é otimo tambem.

    peguei tambem vampire. the hype made me do it! gostei, mas é lesser.

    entao vamos la:

    top 7 de 2008

    1. drive-by
    2. bon ivers
    3. fleet
    4. lidell
    5. cat power
    6. lucinda
    7. vampires

    depois pego o do nick cave e o hold steady.

    guilherme semionato disse:
    dezembro 16, 2008 às 1:38 am

    ok, é iver em vez de ivers.

    pelo menos ta melhor que antes: bEn ivers.

    eu nunca vou acertar esse nome, putaqueopariu.

    Diego disse:
    dezembro 16, 2008 às 3:31 am

    Eu adoro Be Your Own Pet! E desprezo Deerhoof.

    Daniel Pilon disse:
    dezembro 16, 2008 às 10:49 am

    E 2009 começou com um disco bacana do Andrew Bird.

    Tiago respondido:
    dezembro 16, 2008 às 11:21 am

    A lista tá boa, Guilherme.

    Tô ouvindo esse disco, Pilon. Ainda não sei o que pensar sobre.

    Daniel Pilon disse:
    dezembro 16, 2008 às 12:23 pm

    E Blind do Hercules and Love Affair é a preferida da Pitchfork. Já dá pra prever que o álbum vai estar bem colocado no ranking do ano.

    Filipe disse:
    dezembro 17, 2008 às 1:34 am

    Comecei a postar lá no muito abandonado Roadrunner minha lista de melhores com aquela generosidade/elasticidade em listas que me é habitual.

    Tiago respondido:
    dezembro 17, 2008 às 2:05 am

    Vou ver, Filipe.

    Tiago disse:
    dezembro 18, 2008 às 11:09 am

    Olá, sou portuguÊs e andava a ver de listas de melhores discos brasileiros, quando achei o teu site.

    Os primeiros lugares da tua lista internacional não diferem muito da minha, onde também coloquei TV On The Radio, The Hold Steady e Drive-By Truckers. Era trocar o de No Age pelo de Fleet Foxes para ficar basicamente igual eheh :) .

    Na lista dos brasileiros conheço o 3º, 4º e 5º, mas não os acho nada de extraordinário. Não gosto de CSS, o do Marcelo parece-me que poderia estar melhor se fosse mais trabalhado, e o de Júpiter Maçã acho que apesar de atingir momentos muito altos não é muito sólido.

    Aparentemente, este ano o Brasil não teve edições muito entusiasmantes, ein :) .

    Tiago respondido:
    dezembro 18, 2008 às 12:23 pm

    Pois é, Tiago, não teve não. Foi meio difícil fazer a listinha dos brasileiros, mas o do Wado é bacana, confira.

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