Mês: novembro 2008

Um ano

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O blog, este rapagão, fez ontem um ano de vida e eu nem percebi. Que coisa. Que gafe. Que falta de cortesia. Foi mal aí, filho.

Parabéns, se cuida, é big, é big, você é o cara, não saia no sereno, deus te guarde e te acompanhe, cuide dos estudos, não se iluda com qualquer rabo de saia, deixe que ela se apaixone primeiro, faça vestibular, não tranque o curso para tentar a carreira de modelo, esqueça Comunicação, prefira as universidades públicas (no período de greve, faça viagens curtas), não desista de dirigir no primeiro acidente de trânsito, conheça o Rio de Janeiro (mas nunca no verão), comece pelos Beatles e por David Bowie, cuide dos dentes, durma oito horas por dia, evite gorduras, não se deixe levar pela nostalgia, faça polichinelos.

E não desapareça.

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Little Joy | Little Joy

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A melhor definição para o projeto de Rodrigo Amarante (Los Hermanos) com Fabrizio Moretti (Strokes) é o nome da banda: uma alegriazinha.

Quando o trio (formado ainda por Binki Shapiro) decidiu se batizar com o nome de um bar de Los Angeles, acertou em cheio: mesmo que não queira, parece ostentar um certo orgulho de ser pequeno. De uma banda chamada Little Joy, não esperamos muito além de leveza e despretensão – e cá estamos num típico resort para artistas pop em férias.

Mas não é só isso. Se é esse o formato escolhido (indie, desencanado, sem ambições de faturar alto na bilheteria ou de “começar de novo”), então Little Joy supera expectativas. É quase uma pequena grande banda (e acredito que esse é o maior elogio desejado por eles), que parece ter nascido do pacto de desenhar uma ponte aérea musical entre Rio e Los Angeles. Nem lá nem cá, a banda se move num pop global que, com influências tanto de reggae quanto de standards norte-americanos, combina com o paladar de um Vampire Weekend, de um Ra Ra Riot. 

Como nos projetos de Albert Hammond Jr e de Marcelo Camelo, dá para notar o rescaldo das bandas-matrizes. Evaporar, a única em português, tem a atmosfera mansa de 4, do Los Hermanos (e, sutil, é uma bela surpresa para confundir quem esperava de Amarante algo muito diferente do Camelo solo). Já Keep me in mind lembra a estrutura de uma canção do Strokes, com guitarras tão nervosinhas quanto econômicas (e o curioso aí é como Amarante sobrepõe uma típica melodia do Los Hermanos a essa marca registrada).

Sem negar o passado (nem o deles, nem o da música pop), o Little Joy usa peças conhecidas para formar um painel particular. O clima vintage que paira sobre a gravação é ainda mais pesado que o do primeiro álbum do Strokes, com o cuidado de não agigantar os arranjos e as interpretações das canções. É essa obsessão minimalista que ressalta os detalhes de cada faixa: como os sopros em Brand new start, com cara de single, ou o corinho na abertura de Play the part.

Novato precavido, o Little Joy não dá grandes saltos (e, como band leader lânguido, com um inglês impecável, Amarante vai longe especialmente na ótima Shoulder to shoulder). O que ainda não tem – e talvez nem queira ter – é uma marca capaz de espantar de vez a impressão de que estamos ouvindo apenas um divertido brainstorming entre amigos famosos. Um prazerzinho dos bons – mas que, por enquanto, não provoca frio na barriga.

Primeiro álbum do Little Joy. 11 faixas, com produção de Noah Georgeson. Rough Trade. **

Aluga-se

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Quer uma prova de que nada é perfeito nesta vida? Tente procurar apartamento para alugar.

Estou nesta luta há alguns poucos dias e já desisti de encontrar o que eu quero. Não dá. Não tem. Os arquitetos não planejaram. Deus não quis. Ou tem, mas acabou. Sei lá. 

E o que eu quero é tão simples: apartamento de um quarto, não tão caro (até R$ 800, estourando), na Asa Norte ou no Lago Norte, com um quarto suficientemente espaçoso para abrigar a minha cama. Só isso. Descobri que é extremamente complicado encontrar “só isso”.

É pedir demais? No primeiro que visitei, o quarto era tão pequeno que comportava um aparelho de tevê e três sapatos. No segundo, o quarto era mais amplo, mas a cozinha e a sala formavam um cômodo só (tudo indica que paredes estão fora de moda). No terceiro, a cozinha era separada da sala – mas o apê ficava no primeiro andar, logo acima de uma academia de ginástica (e a coisa está tão árdua que provavelmente ficarei com esse aí mesmo). 

Quem procura apartamentos de um quarto em Brasília descobre que todos eles estão divididos em quatro faixas de preço: os de R$ 700 (que são minúsculos), os de R$ 800 (os minúsculos da Asa Norte), os de R$ 900 (que vêm com armários na cozinha) e os de R$ 1 mil (que não são para o nosso bico). 

Estou tentando me contentar com a idéia de morar num de R$ 700. Um cafofo daqueles que a gente fica com vergonha de mostrar para a própria mãe. Mas com vaga na garagem. Se bem que isso nem importa. Se somarmos o valor aluguel com a taxa de condomínio, as contas de luz e água, alimentação e gastos do dia-a-dia, devo investir mais da metade do meu salário nessa brincadeira. Por isso, nada de restaurantes caros e visitas a megastores. Nada de extrapolar nas passagens aéreas ou de ingressos para shows internacionais.

A partir de agora sou o homem dos eventos com entrada franca e das mostras de cinema no CCBB. Existe um preço que se paga para abandonar a condição de filhinho da mamãe, e não é barato.

Juro que quero ser otimista diante da situação. Mas suspeito que, na minha próxima visita, o apartamento de R$ 700 se revelará um bunker inabitável. Saudades das partidas de Banco imobiliário: “Quero a Rua Augusta. Inteirinha”. Não é fácil.

Drops de FicBrasília (2)

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* E cá estamos nós no festival que pedimos a deus.

* O curioso sobre o Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília) é que a programação impede o cinéfilo de assistir a mais de dois filmes minimamente interessantes por dia. Podemos optar pela sessão iniciada por volta das 19h ou por aquela que começa em torno das 21h. É isso. Às 17h, só filmes em DVD.

* Como era de se esperar (e isso infelizmente não é privilégio de Brasília), a mostra marca o domínio absoluto das projeções toscas de DVD e, principalmente, daquele digital que nos deixa com saudades do radinho de pilha. Quando é que alguém vai interditar a Rain, hem?

* Isso sem contar as gafes de sempre – que, de tão comuns, o espectador encara com bom humor. Na sessão de um documentário sobre Michael Moore, em DVD, faltaram legendas – além disso, foram exibidos cinco trailers do DVD antes do longa. E na de Filth and wisdom, ficamos uns cinco minutos assistindo à montanha verde do descanso de tela do Windows. Me senti num show do Kanye West. 

* Ainda bem que há os filmes em película. Para os que moram em Brasília, uma dica: quase todos os sobreviventes passam no Academia Hall, a salona para três mil pessoas.

* Outra decepção do festival (a mais grave de todas, creio eu) é o desprezo do público, que não está nem aí para filmes como O canto dos pássaros ou Liverpool, com sessões quase às moscas. Assim nem dá para cobrar uma mostra mais parruda.

* Os filmes? Por enquanto: um pequeno milagre e três pecados.

 

* O canto dos pássaros | Albert Serra | ***

Um daqueles filmes maravilhosamente estranhos que só encontramos em mostras de cinema (daí a vontade de congelar o momento da sessão para poder retornar a ele num outro dia qualquer), o longa de Serra é um paradoxo: de tão simples, exige dedicação absoluta do público. Aos que se permitem levar pela fé cinematográfica do diretor, é uma bela viagem: além de narrar uma versão radicalmente pessoal para uma história de domínio público (o encontro dos três reis magos com o menino Jesus), Serra deixa a lente aberta para captar, nas texturas e formas da natureza, uma intervenção divina a cada plano. Como faço para ver o anterior dele, Honor de cavalleria?

* The wackness | Jonathan Levine | *

O vencedor do prêmio de público em Sundance é um indie que, na linha de Juno e Pequena Miss Sunshine, trata personagens outsiders com o sentimentalismo e de uma típica comédia romântica de multiplex. No papel de um terapeuta doidão, Ben Kingsley poderia até conseguir uma indicação ao Oscar (com uma campanha agressiva, claro). Mas é um filme medroso, que parece tomar sempre o caminho mais acessível para amenizar o desconforto de algumas situações da trama. Começa como o perfil de um traficante adolescente (e como um retrato do submundo nova-iorquino dos anos 90) e termina como um conto de primeiro amor como tantos que já vimos. 

* Ninho vazio | Daniel Burman | *

Se as crônicas familiares de Burman pareciam cada vez mais flácidas (já havia uma queda entre O abraço partido e Leis de família), Ninho vazio é tedioso: revela a saturação prematura de um estilo. É como se o diretor se contentasse com pouco: no caso, identificar as crises de um casal em ponto morto, que precisam reconstruir a própria rotina depois que os filhos crescem. Prova de que uma boa observação do cotidiano não é para qualquer um. 

* Filth and wisdom | Madonna | sem estrelas

Um filme precário, errado – há trabalhos de alunos primeiro semestre de Cinema que dão um banho nesse painel de peixes fora d’água. O pior é que o projeto não seria de se jogar fora – misturar um documentário sobre o Gogol Bordello com uma trama de ficção sobre a dura vida de migrantes, quem sabe, poderia ter rendido um musical divertido. Mas Madonna, que poderia ter convocado um Michel Gondry ou um Spike Jonze como assistente, confunde sabedoria com filosofia de livros de auto-ajuda. E há coisas que nem um diretor competente salvaria: o falatório insuportável do personagem de Eugene Hutz, cheio de pérolas do auto-conhecimento, certamente foi escrito pela pop star.