Mês: novembro 2008

No Planeta Terra

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1 | Emergência no Planeta Terra: com quantos decibéis se faz um festival de rock?

2 | O lugar era jóia (a Vila dos Galpões, com um visual underground-de-mentirinha que combinou com a proposta do evento), os convidados prometiam, o público compareceu (15 mil pessoas), mas só faltou um detalhezinho: o som. O som, minha gente. O som, meu pai. Como puderam esquecer disso? Onde foi parar o som?

3 | No palco principal, onde se apresentaram Jesus & Mary Chain, Offspring, Kaiser Chiefs e Bloc Party, as performances soavam tão poderosas quanto uma rádio AM com transmissão abafada. Já o galpão indie, de Spoon, Breeders e Animal Collective, com volume altíssimo, era um pedregulho: distorções mil, sutileza zero. Como faz?

4 | Resultado: sair de um palco em direção ao outro provocava uma espécie de choque térmico. Precisei de uma média de dez minutos para me adaptar à atmosfera de cada ambiente. E ainda não me conformo de ter visto um show de Animal Collective tão tecnicamente desastroso.

5 | A pergunta que não nos deixa dormir: na batalha dos festivais, ganhou o Planeta Terra ou o Tim? Pra mim, deu empate. O Tim pode ter nos decepcionado com ingressos caríssimos e atrações canceladas. Mas pelo menos havia conforto e, principalmente, um som espetacular (exceção: Kanye West). Se bem que um festival não deveria se destacar por cumprir requisitos técnicos que são básicos em eventos musicais. Isso se chama respeito ao público. Simples desse jeito.

6 | Aos shows, em ordem de preferência – e rapidinho, na pressa, como de praxe.

7 | Spoon | Palco Indie | ****

Nos álbuns, o Spoon pode parecer a banda independente mais econômica dos Estados Unidos. No show, a precisão das canções (que alternam momentos dançantes com pirações psicodélicas) ganha um elemento adicional: uma performance simples e emocionante, de arrepiar. Britt Daniel pode não ser o band leader mais acrobático (vide Kaiser Chiefs), mas defende cada criação com o orgulho de um pai coruja (e deixa claro que o álbum favorito dele, para desespero deste fã de Kill the moonlight, é Gimme fiction). As notas da introdução de The way we get by, sozinhas, valeram a noite: a repetição sublime de poucos acordes; o melhor show do ano.

8 | The Breeders | Palco Indie | *** 

Uma grande banda de garagem sabe que nenhum show deve ser levado excessivamente a sério. Kim e Kelley Deal fizeram do palco do Planeta Terra um balcão de bar – e sorte de quem foi convidado para a bagunça. Em meio ao clima de despretensão, uma surpresa: as faixas dos dois álbuns mais recentes da banda ganham o peso merecido (apesar da vergonha alheia de acompanhar o bis cantado em espanhol) e os clássicos de Last splash renascem sujinhos e deslumbrantes. Cannonball foi a catarse indiscutível da noite – mas No aloha despedaçou de vez o coração dos fãs. Alguns pediram Kim Deal (com forma física à Magic Numbers) em casamento. Com toda razão.

9 | The Jesus & Mary Chain | Palco Principal | **

Sabe aquela banda que estourava caixas de som nos anos 80 com uma parede quase insuportável de distorções? Ela não assombra mais ninguém. E precisa? Para os fãs, este foi um dos melhores shows de todos os tempos (se bem que qualquer versão de Teenage lust será comovente). Para o restante do público, quase um aperitivo. Um resumo de melhores momentos da carreira, surpreendentemente clean e agradável, que deve ter deixado um ponto de interrogação plantado no cérebro de quem ainda se espanta com Psychocandy (ou com o ruidoso Munki, o último deles). Mas com um som pífio daqueles, só nos restou fantasiar aquele mesmíssimo show (digno, honesto, íntegro etc) com algum peso.

10 | Animal Collective | Palco Indie | **

Eu esperava qualquer coisa do Animal Collective. O que recebi foi bem isso: qualquer coisa. Nocauteados por uma confusão sonora (uma falha técnica que pouco tem a ver com as experimentações do grupo) que deixou o público zonzo, a selvageria da fase Strawberry jam soou ainda mais agressiva, quase impenetrável. O rolo compressor azedou a doce Fireworks e provocou contrangimento logo na primeira canção, interrompida bruscamente. Ainda assim, dá gosto ver uma banda que faz o que bem entende, com liberdade absoluta, com nojo das fórmulas do pop rock. Prova disso é que abriram o show com Comfy in nautica, do álbum solo de Panda Bear, e terminaram com uma batucada não menos que infernal.

11 | Kaiser Chiefs | Palco Principal | **

O oposto do Jesus & Mary Chain: uma banda populista – quase uma sessão de aeróbica – que sabe como arrancar o último suspiro de entusiasmo de uma platéia cansada. Um show bastante eficiente e alegre, apesar do som, mas que confirma o Kaiser Chiefs como uma banda divertida, esforçada (quantos hits eles têm!) e só.

12 | Mallu Magalhães | Palco Principal | **

Menina precoce: depois de passar por uma fase folk à The freewheelin’ Bob Dylan, Mallu rompe o namoro e sai à estrada com sua The Band (e olha lá, ela está usando uma cartola!). Dou seis meses para que ela grave um desiludido Blood on the tracks e, em crise depressiva, enfrente os fantasmas da existência numa espécie de Time out of mind. Continua cantando lindamente bem, apesar do crescimento acelerado e desgovernado. 

13 | Foals | Palco Indie | ** 

Só vi as três últimas músicas, mas foi o necessário: uma banda ainda tão nova, mas já disposta a não ser engolida por obviedades do indie rock. Estão a meio caminho entre Bloc Party e Battles – mas ainda não dá para saber de que lado vão sambar.

14 | The Offspring | Palco Principal | w/o  

Vi as três primeiras músicas. Em Come out and play, entendi por que, naqueles estranhos anos 90, eu preferia Pavement e Breeders. Como disse um colega meu, californiano demais.

15 | Bloc Party | Palco Principal | w/o

Duas músicas e a definição viva para a palavra fake.

16 | E hoje à noite tem R.E.M. Espero que o som inconstante da Via Funchal não me decepcione mais uma vez. Seria o fim do mundo (como o conhecemos). Será que rola Everybody hurts?

Drops de FicBrasília (4)

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* O problema deve ser comigo.

* As sessões mais disputadas do Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília) são as de Sinédoque, Nova Iorque. O filme de Charlie Kaufman provoca reações apaixonadas na capital federal. É um hit. Tem neguinho em transe durante os créditos finais, descobrindo o sentido da vida. As filas são intermináveis. Os ingressos esgotam. Semana que vem, aposto que vão criar o primeiro fã-clube brasiliense do cineasta. Eu? Nada. Nehuma surpresa, nenhuma revelação.

* Enquanto isso, as sessões de Liverpool, O canto dos pássaros e Glória ao cineasta provocam debandada. Gente muito irritada abandona as salas de exibição nos 15, 20 primeiros minutos de filme. Será que a culpa da falta de ousadia do nosso circuito dito alternativo pode ser creditada apenas à má vontade dos distribuidores? Sei não.

* E tem muita gente desinformada, caindo de pára-quedas no festival. Dia desses ouvi a conversa de um casal que se preparou para assistir a um “documentário musical” chamado Liverpool. Pior é a turma que pede indicações de filmes às moças da bilheteria. Vá entender. Sabemos que, se existe um grupo de freqüentadores do Fic que não tem tempo para assistir aos filmes, ele é formado pelas pobres coitadas. 

* Aí fica aquele telefone-sem-fio: “Ouvi falar que Leonera é uma comédia porreta”, e já viu. 

* O encerramento é só domingo. Mas, para mim, o Fic acabou ontem. Amanhã viajo para São Paulo (acompanho o Planeta Terra Festival e o show do R.E.M.) e hoje não há um único filme que me faça sair de casa. O balanço da mostra? Desorganizada como nunca, mas ainda importante para a vida cultural da cidade. Impossível torcer contra, mas não dá para fechar os olhos para alguns problemas sérios (as cópias presas na Alfândega, por exemplo).

* As últimas sessões de cinema:

contonatal

* Um conto de Natal | Arnaud Desplechin | ** 

Tão deslumbrante quanto irritante. Entendo perfeitamente quem despreza os vicios e as gordurinhas do filme para tratá-lo como obra-prima: há um excelente longa-metragem aqui dentro, acuado nas 2h30 de uma tour de force exaustiva. Sei que eu deveria ter gostado muito mais deste filme, sei que eu deveria escrever um texto apoteótico sobre laços familiares, mas não consigo. Entrego os pontos: Desplechin é um cineasta com o vigor e o preparo físico de um triatleta – nos dez minutos iniciais, contei três curtas-metragens: um melodrama assumidamente over, uma comédia de costumes e uma paródia de Truffaut -, mas não há como desprezar o quão maneirista é esse cinema. É como se o cineasta testasse uma solução visual surpreendente a cada cena e, enquanto isso, despejasse na tela o que há de mais corriqueiro em matéria de drama familiar (simplificando o simplório: uma reunião natalina serve de gatilho para uma terapia coletiva ao redor da mesa de jantar, com socos, desabafos, tipos excêntricos, flashbacks românticos e uma peça teatral encenada por duas crianças fofas).

Os fãs certamente passarão por cima dos detalhes mais apelativos da narrativa: o importante, eles dirão, é a forma como Desplechin subverte o clichê, o corriqueiro. Não há como discordar. Mas, se as primeiras cenas me impressionaram positivamente pelo excesso de referências e truques (um estilo que lembra tanto o Honoré quanto o Lelouch), com o tempo o filme começou a parecer uma árvore natalina que se deixa derrubar pelo peso dos enfeites. É uma superprodução à francesa talentosa (um talento exibido, auto-referencial, mas um talento), que cobra para si uma grandiosidade que paira acima dos personagens e situações (nisso me lembrou O segredo do grão). É um evento – só que, em alguns momentos, fiquei com vontade de acompanhar uma das personagens e abandonar a festa. 

(E posso preferir O casamento de Rachel?) 

Glória ao cineasta | Takeshi Kitano | ** 

Era uma vez um cineasta tolo que fazia bons filmes de mafiosos. Um dia, afirmou à imprensa que abandonaria o gênero. Desde então, não consegue mais fazer outro filme de mafiosos. Assim começa a narração em off de Glória ao cineasta, a brincadeira mais pirada e inconseqüente em exibição no FicBrasília (perto disto aqui, Charlie Kaufman fica parecendo um neo-realista). Começa como uma comédia de gags (uma delas parodia os clones de Ozu, um drama em preto-e-branco chamado Aposentadoria) e termina como uma ficção-científica freak-surrealista que leva ao limite a idéia de um filme sobre a falta de inspiração. O espectador sente o choque: o que era cômico passa a soar apenas exótico – como se um episódio de Apertem os cintos, o piloto sumiu tivesse sido contaminado por um inseto extraterrestre e se transformado em um longa experimental universitário. Qualquer nota.

* Acne | Federico Veiroj | **

Uma premissa singela – as aventuras de um menino de 13 anos em busca do primeiro beijo – filmada com as lentes do desconforto. Que ninguém espere uma comédia trivial: ser adolescente, aqui, é assistir à própria imagem num aparelho de tevê e sentir asco. O primo mais novo de Whisky.

* Meu nome é Dindi | Bruno Safadi | **

Um primeiro filme com a estrutura de um carro abre-alas. Ao disparar uma série de referências (e fazer vários filmes de uma vez só), Safadi se apresenta como um fã e um herdeiro do cinema marginal de Sganzerla (o longa é uma ode a Djin Sganzerla e a tudo o que ela representa direta ou indiretamente para o cinema brasileiro) e Bressane (à beira da praia, enquanto dança uma marchinha antiga, parece até que Gustavo Falcão está interpretando Fernando Eiras). É promissor, tem coragem – mas deixa a impressão de ser um prólogo até bastante objetivo para os próximos capítulos da história do diretor.

RocknRolla – A grande roubada

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rocknrolla

RocknRolla, 2008. De Guy Ritchie. Com Gerard Butler, Tom Wilkinson e Thandie Newton. 114min. *

Dica para quem, como eu, procura apartamento para alugar: assistir a RocknRolla, uma comédia cruel sobre os crimes, golpes e canos fumegantes do violentíssimo mercado imobiliário de Londres, não é a maior diversão.

Saí do cinema com uma pergunta quicando no cérebro: existe alguma conexão entre esta pulp fiction de Guy Ritchie e a realidade? O filme parte da premissa de que o negócio de imóveis na Inglaterra se transformou em uma máfia tão sangrenta quanto o tráfico de drogas. É isso mesmo? 100%?

O cinema de Ritchie parece existir em um universo tão diferente do meu que até agora não consigo me importar com nenhuma informação contida em RocknRolla. Nah, é tudo gozação, entretenimento, tiros, piadas e guarda-roupa estiloso.

Ritchie não se leva a sério, é um fanfarrão, e talvez essa seja uma de suas maiores qualidades. Por que eu o levaria? Mas o ponto de partida do novo filme do cineasta não deixa de provocar alguma curiosidade. Ritchie usa um contexto aparentemente inspirado na realidade (se é que podemos bater o martelo em relação a isso…) para compor o típico filme de golpe cartunesco e pateta que costuma fazer. Claro que, no fim das contas, qualquer ambição de conectar a narrativa ao nosso mundo será soterrada pelos truques do diretor.

Penso assim: se tivesse colocado pelo menos um dos pés no chão, RocknRolla poderia ter sido um filme bastante diferente de Jogos, trapaças e dois canos fumegantes e Snatch – Porcos e diamantes. Talvez não melhor, nem tão divertido ou rentável quanto, mas diferente. Vazio como está, opera como mais um fetiche de Ritchie – o tipo de thriller intrincado e bem humorado que, por volta de 1995, caía feito manga madura do pomar dos estúdios supostamente independentes.

Se não podemos esperar de Ritchie uma espécie de Syriana (muito menos um Gomorra) sobre o submundo londrino, então tá: tentemos embarcar na típica graphic novel filmada que o diretor repete desde o início da carreira. Trata-se de um filme melhor que Swept away – mas isso lá é elogio? Qualquer filme do mundo tem o dever de ser pelo menos um pouquinho melhor que Swept away. Trata-se de um retorno a uma fórmula que o público parece ter aprovado – mas não conheço ninguém que considere Jogos, trapaças e dois canos fumegantes uma obra-prima. Alguém?

Em vez de seguir em frente, Ritchie comete o erro de tomar o filme mais bem sucedido da carreira como uma espécie de referência cristalizada de qualidade e marca autoral. Não é. RocknRolla é uma espécie de auto-análise: cá estão a galeria de personagens exóticos (e muito bem vestidos), a trilha sonora de punk rock, as subtramas que praticamente se devoram antes que consigamos decifrá-las, os tipos marginais-chiques que traem e são traídos por armações mirabolantes e golpes do acaso. Só faltou uma razão para repetir um formato pop-espertinho que, num certo momento, parece ter incomodado o próprio Ritchie. Tanto que ele tentou partir para outra.

Uma forma de neutralizar o próprio veneno seria, creio eu, aprofundar as relações desse cinema fantasioso com a nossa vida, o nosso mundo. Qual é a extensão do crime no mercado de imóveis na Inglaterra? Como ele afeta as pessoas que compram ou alugam apartamentos? O que isso significa para a economia do país? RocknRolla não quer, talvez não consiga, provocar nenhuma discussão sobre temas palpáveis, e tem o direito de não querer. Este é o filme que Guy Ritchie preferiu fazer. O problema é que este filme eu já vi.

I had a dream

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obama

Minha vó ficou radiante com a vitória do Obama. “É um moço muito simpático”, avaliou. Dia desses ela comentou algo do tipo sobre o Cauã Reymond. Mas é aquela coisa: se o presidente conseguiu apoio incondicional até da minha vó, que costuma confundir o noticiário com as cenas da novela das oito, o que dizer? O sujeito é um furacão, um galã. Ele merece.

Hoje cedo esse era o assunto quente aqui no bloco. Os aposentados, que ocupam o playground enquanto as crianças saem para a escola, só falavam nisso. “O bom do Obama é que ele não é daqueles negros norte-americanos. Ele é misturado“, disse a voz da insensatez. Até o menino que vende morangos fazia prognósticos sobre a influência do novo governo na política internacional.

Eu, que acompanhei a movimentação dos delegados do Colégio Eleitoral até desabar de sono, fui acordado às três da madrugada com a notícia. “Obama, deu Obama”, e interromperam meu sonho mais perfeito. I had a dream. Eu, 12 anos de idade, afogado numa bacia de chocolate meio-amargo. “Que bom. Tudo se encaminhava pra isso, não?”, e não consegui articular um comentário mais antenado e inteligente. Desmaiei.

Pela manhã vi trechos do discurso da vitória. Obama encarna com tanta convicção o papel de homem público que até o sorriso parece exaustivamente ensaiado para soar natural. E convence horrores. As pessoas choram. Eu mesmo quase chorei – e não sei ainda por que razão.

Todos esperam grandes mudanças. Eu também espero. A partir de agora, Michael Moore passa a dirigir comédias românticas e a Rolling Stone volta a falar sobre música. McCain? Eu não votaria num velhinho com nome de batata congelada – e que troca abraços com o Schwarzenegger. “Eu não sou George W. Bush”, ele disse. Também pudera: só faltaria isso.

A cobertura da imprensa brasileira, aliás, foi de antologia. Um circo. Um espetáculo. Uma festa desvairada a favor de Obama, com presepadas mil (nunca na história da tevê a palavra “histórica” foi usada com tanto despudor), uma tradução simultânea sem pé nem cabeça e aquela comoção linda que se espera de uma transmissão do Oscar. Se minha avó tivesse visto, ela certamente pensaria que os americanos sim, taí um povo que sabe votar com glamour.

That’s showbusiness. E viva a democracia.

Drops de FicBrasília (3)

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* Duas baixas importantes no Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília): Night and day e Ballast, com cópias presas na alfândega, serão exibidos em DVDs de serviço. Uma experiência que eu não desejaria nem ao bebê estridente que fica gritando no apartamento aqui de cima.

* E é estranho assistir a um filme que contém um aviso insistente de que, por lei, aquela cópia não pode ser exibida ao público. Sei lá. Eu me sinto meio… sujo, tio. Tipo: posso baixar na internet e cobrar R$ 12 para uma sessão privê aqui na sala? Com qualidade superior de projeção?

* Youth without youth é outro que está bombando na Mostra Internacional de Cinema da Alfândega. Nem sinal dele, por enquanto.

* Ou seja: O canto dos pássaros pode até não ser uma comédia, mas este festival…

* E o desrespeito com o público? Na sessão das sete, Sinedoque, Nova Iorque começou com nada menos que 30 minutos de atraso, o que certamente complicou a vida de muita gente que pretendia pegar a sessão das nove (o longa tem 124 minutos). De tropeção em tropeção, este é o Fic em que assistirei a menos filmes. 

* Agora sério, mais uma vez: DVD a gente vê no conforto do lar, com pipoca de microondas e travesseiros, certo? O resto é picaretagem.

* Mas cinéfilo é bicho bobo e persistente. Aí vão os três filmes que vi de domingo para cá.

leonera

* Leonera | Pablo Trapero | ***

Eu esperava encontrar em Leonera o sinal luminoso de uma nova fase para Pablo Trapero. Tudo o que li sobre o filme havia me preparado para o perfil visceral, sem ranço sociológico, de uma mulher numa situação-limite. O que vi foi algo até melhor que isso: o filme não marca exatamente um avanço para o cineasta, mas um retorno muito bem-vindo aos métodos usados em Do outro lado da lei, de 2002. Como naquele filme, Trapero parte da observação da realidade (naquele caso, uma polícia sucateado; neste, um caso de exceção dentro do sistema penitenciário) para identificar o embate cotidiano que existe entre as regras fixas definidas pela sociedade e as nossas vidas tão confusas.

Por isso, noto sem medo ou vergonha: existe sim em Leonera um olhar para a vida na Argentina, um registro às vezes quase documental (e ele nos revela uma situação que não conhecemos), ainda que sem a carga de denúncia que esse tipo de reflexão costuma acarretar. Enquanto acompanha a personagem principal – uma presidiária grávida, que terá o filho dentro da cadeia -, Trapero não desvia de uma série de questões que aquela situação específica provoca (por exemplo: seria saudável submeter filhos de presidiários à vida de confinamento da cadeia? Eles seriam mais felizes se afastados das mães?). 

O diretor não faz julgamentos, e esse distanciamento (sem frieza) me parece o tom mais correto para um filme que permite que sintamos o desespero da heroína sem necessariamente defender suas decisões. Leonera é um filme sobre uma mulher – mas que não fecha os olhos para o país que existe ao redor dela.

* Sinedoque, Nova Iorque | Charlie Kaufman | *

Um monumento oco. Eu estava até pensando em entrar na brincadeira metametametametalinguística de Kaufman, mas desisti na cena em que a personagem de Dianne Wiest decide facilitar o trabalho do espectador e traçar didaticamente o perfil psicológico do protagonista, um perturbado autor de peças teatrais empenhado em criar a maior (e mais verdadeira) obra de arte do mundo. Sem as filosofices sobre crises existenciais, não pareceria uma interminável sessão de terapia. Criado sob medida para o público que ainda se espanta com roteiros dentro de roteiros dentro de roteiros dentro de roteiros. Ele existe: na platéia, teve gente comparando a David Lynch.  

* La rabia | Albertina Carri | *

O equivalente argentino a Baixio das bestas: uma tour infernal num rincão podre e abandonado onde homens são bichos e os animais são esquartejados com o auxílio de um competentíssimo diretor de fotografia. O típico exercício de sordidez disfarçado de denúncia social que sempre, sempre será bem visto pelas curadorias de festivais de cinema.

Encarnação do demônio

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zedocaixao

Brasil, 2008. De José Mojica Marins. Com José Mojica Marins, Jece Valadão, Adriano Stuart e Milhem Cortaz. 91min. ***

Dizem que Encarnação do demônio, o tão adiado retorno de José Mojica Marins ao cinema, é um fracasso. Não aqui em Brasília, onde o filme foi exibido ontem – e apenas ontem – com salas lotadas e gritinhos de entusiasmo. No final da sessão, ganhou aplausos e tudo.

Para azar da Fox Films, que preferiu não lançar o longa-metragem na capital, existe sim um fã-clube do Zé do Caixão na cidade. Ele é heterogêneo (de metaleiros a dondocas amedrontadas, estavam todos lá), conhece minimamente a trajetória de Mojica e, o melhor de tudo, sabe se divertir com um ótimo filme de horror.

Claro que essa gente se sujeitou ao banho de sangue também por outro motivo: ele foi exibido a módicos R$ 2 num festival de cinema brasileiro bancado pelo Cinemark. Mas aquela platéia (imensa, o que prova que há algo bastante errado com os nossos ingressos inflacionados) poderia ter optado por Última parada: 174Ensaio sobre a cegueira, Era uma vez, Sexo com amor e Guerra dos Rocha. Meio escondido na programação, em apenas três horários, Zé do Caixão mostrou as garras.

A seita se encontrou numa sessão descontraída, com risadas misturadas a grunhidos de nojo e a alguns comentários em voz alta mais ou menos desencontrados. “O bom de filme brasileiro é que não tem esse negócio de dublagem”, ouvi alguém falar. Dois ou três comemoravam o fato de assistir pela primeira vez a um filme de Mojica no cinema. É o meu caso, aliás. Eu, que ainda não me perdoei por ter perdido uma mostra especial do CCBB, vi a maior parte dos filmes do cineasta nas madrugadas da Rede Manchete e em DVD.

O teste da platéia confirmou que, apesar da má vontade dos distribuidores, corre sangue quente nas veias de Mojica. É um cinema que renasce pulsante, pop, torto, engraçado, auto-referencial, capaz de brincar espertamente com os signos criados em torno de Zé do Caixão nos mais de 40 anos que separam este filme do início da trilogia, À meia noite levarei sua alma

Na mostra-relâmpago do Cinemark, é o prato que mais destoa do cardápio do cinema nacional (sim, havia Febre de bola, mas esse é outro assunto). É como se fosse necessário criar uma nova categoria para abrigá-lo. Mojica não atende às exigências das senhoras do circuito alternativo nem dos adolescentes e dos casais que superlotam o circuito comercial. A sensação de assistir a Encarnação do demônio nas poltronas acolchoadas do multiplex é a de se quebrar uma regra, de uma contravenção.

O descompasso traduz até a própria condição de Zé do Caixão dentro da trama do filme – aqui, ele reaparece como um demônio desnorteado que, depois de passar décadas na cadeira, encontra um país de pernas para o ar – por um lado, cada vez mais apegado às crendices que ele tanto abomina; por outro, um vale-tudo intolerante, brutal. Um filme de horror brasileiro é, aqui, necessariamente confuso – tente separar os mocinhos dos vilões.

A produção de Paulo Sacramento e dos Gullane – e a colaboração de Dennison Ramalho no roteiro – reforça o gore das cenas de tortura com cores contemporâneas (apesar de recorrente na obra do cineasta, esses momentos parecem agora quase mecânicos, redundantes, como se fossem elementos obrigatórios no filme), mas ela nunca vence o olhar de Mojica para o cinema de fantasia. Encarnação do demônio é um belíssimo filme de pesadelo – que fica ainda mais poderoso quando o diretor deixa a imaginação correr solta (como na seqüência da orgia selvagem de Zé Celso ou no clímax dentro de um parque de diversão).

Para uma parte do público – mais dedicada à obra de Mojica – é mais curioso reparar o jogo que ele faz com os filmes anteriores da série (e sabotar o desfecho de Esta noite encarnarei em teu cadáver é um golpe genial digno de Rogério Sganzerla, a quem o filme é dedicado) e como o longa às vezes parece um documentário sobre o legado de Mojica, sobre a força e a permanência da imagem de Zé do Caixão no imaginário do brasileiro.

Apesar de sessões como as de ontem, Encarnação do demônio será um filme brasileiro para pouquíssimos. Aqui em Brasília, ninguém sabe quando entrará em cartaz. Uma pena, já que deveria ser exibido na tevê aberta – tanto faz se num canal fajuto -, de preferência na hora do jantar.

Plantão FicBrasília

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canto

O papel afixado na bilheteria do Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília) avisa que o filme O canto dos pássaros é em preto-e-branco e não é uma comédia. Entenderam bem? É em preto-e-branco. E não é uma comédia.

(No mais, taí o que acontece quando tento tirar uma fotografia com o telefone celular e comprar um ingresso ao mesmo tempo).