Mês: novembro 2008

Drops de FicBrasília (4)

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* O problema deve ser comigo.

* As sessões mais disputadas do Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília) são as de Sinédoque, Nova Iorque. O filme de Charlie Kaufman provoca reações apaixonadas na capital federal. É um hit. Tem neguinho em transe durante os créditos finais, descobrindo o sentido da vida. As filas são intermináveis. Os ingressos esgotam. Semana que vem, aposto que vão criar o primeiro fã-clube brasiliense do cineasta. Eu? Nada. Nehuma surpresa, nenhuma revelação.

* Enquanto isso, as sessões de Liverpool, O canto dos pássaros e Glória ao cineasta provocam debandada. Gente muito irritada abandona as salas de exibição nos 15, 20 primeiros minutos de filme. Será que a culpa da falta de ousadia do nosso circuito dito alternativo pode ser creditada apenas à má vontade dos distribuidores? Sei não.

* E tem muita gente desinformada, caindo de pára-quedas no festival. Dia desses ouvi a conversa de um casal que se preparou para assistir a um “documentário musical” chamado Liverpool. Pior é a turma que pede indicações de filmes às moças da bilheteria. Vá entender. Sabemos que, se existe um grupo de freqüentadores do Fic que não tem tempo para assistir aos filmes, ele é formado pelas pobres coitadas. 

* Aí fica aquele telefone-sem-fio: “Ouvi falar que Leonera é uma comédia porreta”, e já viu. 

* O encerramento é só domingo. Mas, para mim, o Fic acabou ontem. Amanhã viajo para São Paulo (acompanho o Planeta Terra Festival e o show do R.E.M.) e hoje não há um único filme que me faça sair de casa. O balanço da mostra? Desorganizada como nunca, mas ainda importante para a vida cultural da cidade. Impossível torcer contra, mas não dá para fechar os olhos para alguns problemas sérios (as cópias presas na Alfândega, por exemplo).

* As últimas sessões de cinema:

contonatal

* Um conto de Natal | Arnaud Desplechin | ** 

Tão deslumbrante quanto irritante. Entendo perfeitamente quem despreza os vicios e as gordurinhas do filme para tratá-lo como obra-prima: há um excelente longa-metragem aqui dentro, acuado nas 2h30 de uma tour de force exaustiva. Sei que eu deveria ter gostado muito mais deste filme, sei que eu deveria escrever um texto apoteótico sobre laços familiares, mas não consigo. Entrego os pontos: Desplechin é um cineasta com o vigor e o preparo físico de um triatleta – nos dez minutos iniciais, contei três curtas-metragens: um melodrama assumidamente over, uma comédia de costumes e uma paródia de Truffaut -, mas não há como desprezar o quão maneirista é esse cinema. É como se o cineasta testasse uma solução visual surpreendente a cada cena e, enquanto isso, despejasse na tela o que há de mais corriqueiro em matéria de drama familiar (simplificando o simplório: uma reunião natalina serve de gatilho para uma terapia coletiva ao redor da mesa de jantar, com socos, desabafos, tipos excêntricos, flashbacks românticos e uma peça teatral encenada por duas crianças fofas).

Os fãs certamente passarão por cima dos detalhes mais apelativos da narrativa: o importante, eles dirão, é a forma como Desplechin subverte o clichê, o corriqueiro. Não há como discordar. Mas, se as primeiras cenas me impressionaram positivamente pelo excesso de referências e truques (um estilo que lembra tanto o Honoré quanto o Lelouch), com o tempo o filme começou a parecer uma árvore natalina que se deixa derrubar pelo peso dos enfeites. É uma superprodução à francesa talentosa (um talento exibido, auto-referencial, mas um talento), que cobra para si uma grandiosidade que paira acima dos personagens e situações (nisso me lembrou O segredo do grão). É um evento – só que, em alguns momentos, fiquei com vontade de acompanhar uma das personagens e abandonar a festa. 

(E posso preferir O casamento de Rachel?) 

Glória ao cineasta | Takeshi Kitano | ** 

Era uma vez um cineasta tolo que fazia bons filmes de mafiosos. Um dia, afirmou à imprensa que abandonaria o gênero. Desde então, não consegue mais fazer outro filme de mafiosos. Assim começa a narração em off de Glória ao cineasta, a brincadeira mais pirada e inconseqüente em exibição no FicBrasília (perto disto aqui, Charlie Kaufman fica parecendo um neo-realista). Começa como uma comédia de gags (uma delas parodia os clones de Ozu, um drama em preto-e-branco chamado Aposentadoria) e termina como uma ficção-científica freak-surrealista que leva ao limite a idéia de um filme sobre a falta de inspiração. O espectador sente o choque: o que era cômico passa a soar apenas exótico – como se um episódio de Apertem os cintos, o piloto sumiu tivesse sido contaminado por um inseto extraterrestre e se transformado em um longa experimental universitário. Qualquer nota.

* Acne | Federico Veiroj | **

Uma premissa singela – as aventuras de um menino de 13 anos em busca do primeiro beijo – filmada com as lentes do desconforto. Que ninguém espere uma comédia trivial: ser adolescente, aqui, é assistir à própria imagem num aparelho de tevê e sentir asco. O primo mais novo de Whisky.

* Meu nome é Dindi | Bruno Safadi | **

Um primeiro filme com a estrutura de um carro abre-alas. Ao disparar uma série de referências (e fazer vários filmes de uma vez só), Safadi se apresenta como um fã e um herdeiro do cinema marginal de Sganzerla (o longa é uma ode a Djin Sganzerla e a tudo o que ela representa direta ou indiretamente para o cinema brasileiro) e Bressane (à beira da praia, enquanto dança uma marchinha antiga, parece até que Gustavo Falcão está interpretando Fernando Eiras). É promissor, tem coragem – mas deixa a impressão de ser um prólogo até bastante objetivo para os próximos capítulos da história do diretor.

RocknRolla – A grande roubada

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rocknrolla

RocknRolla, 2008. De Guy Ritchie. Com Gerard Butler, Tom Wilkinson e Thandie Newton. 114min. *

Dica para quem, como eu, procura apartamento para alugar: assistir a RocknRolla, uma comédia cruel sobre os crimes, golpes e canos fumegantes do violentíssimo mercado imobiliário de Londres, não é a maior diversão.

Saí do cinema com uma pergunta quicando no cérebro: existe alguma conexão entre esta pulp fiction de Guy Ritchie e a realidade? O filme parte da premissa de que o negócio de imóveis na Inglaterra se transformou em uma máfia tão sangrenta quanto o tráfico de drogas. É isso mesmo? 100%?

O cinema de Ritchie parece existir em um universo tão diferente do meu que até agora não consigo me importar com nenhuma informação contida em RocknRolla. Nah, é tudo gozação, entretenimento, tiros, piadas e guarda-roupa estiloso.

Ritchie não se leva a sério, é um fanfarrão, e talvez essa seja uma de suas maiores qualidades. Por que eu o levaria? Mas o ponto de partida do novo filme do cineasta não deixa de provocar alguma curiosidade. Ritchie usa um contexto aparentemente inspirado na realidade (se é que podemos bater o martelo em relação a isso…) para compor o típico filme de golpe cartunesco e pateta que costuma fazer. Claro que, no fim das contas, qualquer ambição de conectar a narrativa ao nosso mundo será soterrada pelos truques do diretor.

Penso assim: se tivesse colocado pelo menos um dos pés no chão, RocknRolla poderia ter sido um filme bastante diferente de Jogos, trapaças e dois canos fumegantes e Snatch – Porcos e diamantes. Talvez não melhor, nem tão divertido ou rentável quanto, mas diferente. Vazio como está, opera como mais um fetiche de Ritchie – o tipo de thriller intrincado e bem humorado que, por volta de 1995, caía feito manga madura do pomar dos estúdios supostamente independentes.

Se não podemos esperar de Ritchie uma espécie de Syriana (muito menos um Gomorra) sobre o submundo londrino, então tá: tentemos embarcar na típica graphic novel filmada que o diretor repete desde o início da carreira. Trata-se de um filme melhor que Swept away – mas isso lá é elogio? Qualquer filme do mundo tem o dever de ser pelo menos um pouquinho melhor que Swept away. Trata-se de um retorno a uma fórmula que o público parece ter aprovado – mas não conheço ninguém que considere Jogos, trapaças e dois canos fumegantes uma obra-prima. Alguém?

Em vez de seguir em frente, Ritchie comete o erro de tomar o filme mais bem sucedido da carreira como uma espécie de referência cristalizada de qualidade e marca autoral. Não é. RocknRolla é uma espécie de auto-análise: cá estão a galeria de personagens exóticos (e muito bem vestidos), a trilha sonora de punk rock, as subtramas que praticamente se devoram antes que consigamos decifrá-las, os tipos marginais-chiques que traem e são traídos por armações mirabolantes e golpes do acaso. Só faltou uma razão para repetir um formato pop-espertinho que, num certo momento, parece ter incomodado o próprio Ritchie. Tanto que ele tentou partir para outra.

Uma forma de neutralizar o próprio veneno seria, creio eu, aprofundar as relações desse cinema fantasioso com a nossa vida, o nosso mundo. Qual é a extensão do crime no mercado de imóveis na Inglaterra? Como ele afeta as pessoas que compram ou alugam apartamentos? O que isso significa para a economia do país? RocknRolla não quer, talvez não consiga, provocar nenhuma discussão sobre temas palpáveis, e tem o direito de não querer. Este é o filme que Guy Ritchie preferiu fazer. O problema é que este filme eu já vi.

I had a dream

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obama

Minha vó ficou radiante com a vitória do Obama. “É um moço muito simpático”, avaliou. Dia desses ela comentou algo do tipo sobre o Cauã Reymond. Mas é aquela coisa: se o presidente conseguiu apoio incondicional até da minha vó, que costuma confundir o noticiário com as cenas da novela das oito, o que dizer? O sujeito é um furacão, um galã. Ele merece.

Hoje cedo esse era o assunto quente aqui no bloco. Os aposentados, que ocupam o playground enquanto as crianças saem para a escola, só falavam nisso. “O bom do Obama é que ele não é daqueles negros norte-americanos. Ele é misturado“, disse a voz da insensatez. Até o menino que vende morangos fazia prognósticos sobre a influência do novo governo na política internacional.

Eu, que acompanhei a movimentação dos delegados do Colégio Eleitoral até desabar de sono, fui acordado às três da madrugada com a notícia. “Obama, deu Obama”, e interromperam meu sonho mais perfeito. I had a dream. Eu, 12 anos de idade, afogado numa bacia de chocolate meio-amargo. “Que bom. Tudo se encaminhava pra isso, não?”, e não consegui articular um comentário mais antenado e inteligente. Desmaiei.

Pela manhã vi trechos do discurso da vitória. Obama encarna com tanta convicção o papel de homem público que até o sorriso parece exaustivamente ensaiado para soar natural. E convence horrores. As pessoas choram. Eu mesmo quase chorei – e não sei ainda por que razão.

Todos esperam grandes mudanças. Eu também espero. A partir de agora, Michael Moore passa a dirigir comédias românticas e a Rolling Stone volta a falar sobre música. McCain? Eu não votaria num velhinho com nome de batata congelada – e que troca abraços com o Schwarzenegger. “Eu não sou George W. Bush”, ele disse. Também pudera: só faltaria isso.

A cobertura da imprensa brasileira, aliás, foi de antologia. Um circo. Um espetáculo. Uma festa desvairada a favor de Obama, com presepadas mil (nunca na história da tevê a palavra “histórica” foi usada com tanto despudor), uma tradução simultânea sem pé nem cabeça e aquela comoção linda que se espera de uma transmissão do Oscar. Se minha avó tivesse visto, ela certamente pensaria que os americanos sim, taí um povo que sabe votar com glamour.

That’s showbusiness. E viva a democracia.

Drops de FicBrasília (3)

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* Duas baixas importantes no Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília): Night and day e Ballast, com cópias presas na alfândega, serão exibidos em DVDs de serviço. Uma experiência que eu não desejaria nem ao bebê estridente que fica gritando no apartamento aqui de cima.

* E é estranho assistir a um filme que contém um aviso insistente de que, por lei, aquela cópia não pode ser exibida ao público. Sei lá. Eu me sinto meio… sujo, tio. Tipo: posso baixar na internet e cobrar R$ 12 para uma sessão privê aqui na sala? Com qualidade superior de projeção?

* Youth without youth é outro que está bombando na Mostra Internacional de Cinema da Alfândega. Nem sinal dele, por enquanto.

* Ou seja: O canto dos pássaros pode até não ser uma comédia, mas este festival…

* E o desrespeito com o público? Na sessão das sete, Sinedoque, Nova Iorque começou com nada menos que 30 minutos de atraso, o que certamente complicou a vida de muita gente que pretendia pegar a sessão das nove (o longa tem 124 minutos). De tropeção em tropeção, este é o Fic em que assistirei a menos filmes. 

* Agora sério, mais uma vez: DVD a gente vê no conforto do lar, com pipoca de microondas e travesseiros, certo? O resto é picaretagem.

* Mas cinéfilo é bicho bobo e persistente. Aí vão os três filmes que vi de domingo para cá.

leonera

* Leonera | Pablo Trapero | ***

Eu esperava encontrar em Leonera o sinal luminoso de uma nova fase para Pablo Trapero. Tudo o que li sobre o filme havia me preparado para o perfil visceral, sem ranço sociológico, de uma mulher numa situação-limite. O que vi foi algo até melhor que isso: o filme não marca exatamente um avanço para o cineasta, mas um retorno muito bem-vindo aos métodos usados em Do outro lado da lei, de 2002. Como naquele filme, Trapero parte da observação da realidade (naquele caso, uma polícia sucateado; neste, um caso de exceção dentro do sistema penitenciário) para identificar o embate cotidiano que existe entre as regras fixas definidas pela sociedade e as nossas vidas tão confusas.

Por isso, noto sem medo ou vergonha: existe sim em Leonera um olhar para a vida na Argentina, um registro às vezes quase documental (e ele nos revela uma situação que não conhecemos), ainda que sem a carga de denúncia que esse tipo de reflexão costuma acarretar. Enquanto acompanha a personagem principal – uma presidiária grávida, que terá o filho dentro da cadeia -, Trapero não desvia de uma série de questões que aquela situação específica provoca (por exemplo: seria saudável submeter filhos de presidiários à vida de confinamento da cadeia? Eles seriam mais felizes se afastados das mães?). 

O diretor não faz julgamentos, e esse distanciamento (sem frieza) me parece o tom mais correto para um filme que permite que sintamos o desespero da heroína sem necessariamente defender suas decisões. Leonera é um filme sobre uma mulher – mas que não fecha os olhos para o país que existe ao redor dela.

* Sinedoque, Nova Iorque | Charlie Kaufman | *

Um monumento oco. Eu estava até pensando em entrar na brincadeira metametametametalinguística de Kaufman, mas desisti na cena em que a personagem de Dianne Wiest decide facilitar o trabalho do espectador e traçar didaticamente o perfil psicológico do protagonista, um perturbado autor de peças teatrais empenhado em criar a maior (e mais verdadeira) obra de arte do mundo. Sem as filosofices sobre crises existenciais, não pareceria uma interminável sessão de terapia. Criado sob medida para o público que ainda se espanta com roteiros dentro de roteiros dentro de roteiros dentro de roteiros. Ele existe: na platéia, teve gente comparando a David Lynch.  

* La rabia | Albertina Carri | *

O equivalente argentino a Baixio das bestas: uma tour infernal num rincão podre e abandonado onde homens são bichos e os animais são esquartejados com o auxílio de um competentíssimo diretor de fotografia. O típico exercício de sordidez disfarçado de denúncia social que sempre, sempre será bem visto pelas curadorias de festivais de cinema.

Encarnação do demônio

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zedocaixao

Brasil, 2008. De José Mojica Marins. Com José Mojica Marins, Jece Valadão, Adriano Stuart e Milhem Cortaz. 91min. ***

Dizem que Encarnação do demônio, o tão adiado retorno de José Mojica Marins ao cinema, é um fracasso. Não aqui em Brasília, onde o filme foi exibido ontem – e apenas ontem – com salas lotadas e gritinhos de entusiasmo. No final da sessão, ganhou aplausos e tudo.

Para azar da Fox Films, que preferiu não lançar o longa-metragem na capital, existe sim um fã-clube do Zé do Caixão na cidade. Ele é heterogêneo (de metaleiros a dondocas amedrontadas, estavam todos lá), conhece minimamente a trajetória de Mojica e, o melhor de tudo, sabe se divertir com um ótimo filme de horror.

Claro que essa gente se sujeitou ao banho de sangue também por outro motivo: ele foi exibido a módicos R$ 2 num festival de cinema brasileiro bancado pelo Cinemark. Mas aquela platéia (imensa, o que prova que há algo bastante errado com os nossos ingressos inflacionados) poderia ter optado por Última parada: 174Ensaio sobre a cegueira, Era uma vez, Sexo com amor e Guerra dos Rocha. Meio escondido na programação, em apenas três horários, Zé do Caixão mostrou as garras.

A seita se encontrou numa sessão descontraída, com risadas misturadas a grunhidos de nojo e a alguns comentários em voz alta mais ou menos desencontrados. “O bom de filme brasileiro é que não tem esse negócio de dublagem”, ouvi alguém falar. Dois ou três comemoravam o fato de assistir pela primeira vez a um filme de Mojica no cinema. É o meu caso, aliás. Eu, que ainda não me perdoei por ter perdido uma mostra especial do CCBB, vi a maior parte dos filmes do cineasta nas madrugadas da Rede Manchete e em DVD.

O teste da platéia confirmou que, apesar da má vontade dos distribuidores, corre sangue quente nas veias de Mojica. É um cinema que renasce pulsante, pop, torto, engraçado, auto-referencial, capaz de brincar espertamente com os signos criados em torno de Zé do Caixão nos mais de 40 anos que separam este filme do início da trilogia, À meia noite levarei sua alma

Na mostra-relâmpago do Cinemark, é o prato que mais destoa do cardápio do cinema nacional (sim, havia Febre de bola, mas esse é outro assunto). É como se fosse necessário criar uma nova categoria para abrigá-lo. Mojica não atende às exigências das senhoras do circuito alternativo nem dos adolescentes e dos casais que superlotam o circuito comercial. A sensação de assistir a Encarnação do demônio nas poltronas acolchoadas do multiplex é a de se quebrar uma regra, de uma contravenção.

O descompasso traduz até a própria condição de Zé do Caixão dentro da trama do filme – aqui, ele reaparece como um demônio desnorteado que, depois de passar décadas na cadeira, encontra um país de pernas para o ar – por um lado, cada vez mais apegado às crendices que ele tanto abomina; por outro, um vale-tudo intolerante, brutal. Um filme de horror brasileiro é, aqui, necessariamente confuso – tente separar os mocinhos dos vilões.

A produção de Paulo Sacramento e dos Gullane – e a colaboração de Dennison Ramalho no roteiro – reforça o gore das cenas de tortura com cores contemporâneas (apesar de recorrente na obra do cineasta, esses momentos parecem agora quase mecânicos, redundantes, como se fossem elementos obrigatórios no filme), mas ela nunca vence o olhar de Mojica para o cinema de fantasia. Encarnação do demônio é um belíssimo filme de pesadelo – que fica ainda mais poderoso quando o diretor deixa a imaginação correr solta (como na seqüência da orgia selvagem de Zé Celso ou no clímax dentro de um parque de diversão).

Para uma parte do público – mais dedicada à obra de Mojica – é mais curioso reparar o jogo que ele faz com os filmes anteriores da série (e sabotar o desfecho de Esta noite encarnarei em teu cadáver é um golpe genial digno de Rogério Sganzerla, a quem o filme é dedicado) e como o longa às vezes parece um documentário sobre o legado de Mojica, sobre a força e a permanência da imagem de Zé do Caixão no imaginário do brasileiro.

Apesar de sessões como as de ontem, Encarnação do demônio será um filme brasileiro para pouquíssimos. Aqui em Brasília, ninguém sabe quando entrará em cartaz. Uma pena, já que deveria ser exibido na tevê aberta – tanto faz se num canal fajuto -, de preferência na hora do jantar.

Plantão FicBrasília

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canto

O papel afixado na bilheteria do Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília) avisa que o filme O canto dos pássaros é em preto-e-branco e não é uma comédia. Entenderam bem? É em preto-e-branco. E não é uma comédia.

(No mais, taí o que acontece quando tento tirar uma fotografia com o telefone celular e comprar um ingresso ao mesmo tempo).

Um ano

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O blog, este rapagão, fez ontem um ano de vida e eu nem percebi. Que coisa. Que gafe. Que falta de cortesia. Foi mal aí, filho.

Parabéns, se cuida, é big, é big, você é o cara, não saia no sereno, deus te guarde e te acompanhe, cuide dos estudos, não se iluda com qualquer rabo de saia, deixe que ela se apaixone primeiro, faça vestibular, não tranque o curso para tentar a carreira de modelo, esqueça Comunicação, prefira as universidades públicas (no período de greve, faça viagens curtas), não desista de dirigir no primeiro acidente de trânsito, conheça o Rio de Janeiro (mas nunca no verão), comece pelos Beatles e por David Bowie, cuide dos dentes, durma oito horas por dia, evite gorduras, não se deixe levar pela nostalgia, faça polichinelos.

E não desapareça.

Little Joy | Little Joy

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A melhor definição para o projeto de Rodrigo Amarante (Los Hermanos) com Fabrizio Moretti (Strokes) é o nome da banda: uma alegriazinha.

Quando o trio (formado ainda por Binki Shapiro) decidiu se batizar com o nome de um bar de Los Angeles, acertou em cheio: mesmo que não queira, parece ostentar um certo orgulho de ser pequeno. De uma banda chamada Little Joy, não esperamos muito além de leveza e despretensão – e cá estamos num típico resort para artistas pop em férias.

Mas não é só isso. Se é esse o formato escolhido (indie, desencanado, sem ambições de faturar alto na bilheteria ou de “começar de novo”), então Little Joy supera expectativas. É quase uma pequena grande banda (e acredito que esse é o maior elogio desejado por eles), que parece ter nascido do pacto de desenhar uma ponte aérea musical entre Rio e Los Angeles. Nem lá nem cá, a banda se move num pop global que, com influências tanto de reggae quanto de standards norte-americanos, combina com o paladar de um Vampire Weekend, de um Ra Ra Riot. 

Como nos projetos de Albert Hammond Jr e de Marcelo Camelo, dá para notar o rescaldo das bandas-matrizes. Evaporar, a única em português, tem a atmosfera mansa de 4, do Los Hermanos (e, sutil, é uma bela surpresa para confundir quem esperava de Amarante algo muito diferente do Camelo solo). Já Keep me in mind lembra a estrutura de uma canção do Strokes, com guitarras tão nervosinhas quanto econômicas (e o curioso aí é como Amarante sobrepõe uma típica melodia do Los Hermanos a essa marca registrada).

Sem negar o passado (nem o deles, nem o da música pop), o Little Joy usa peças conhecidas para formar um painel particular. O clima vintage que paira sobre a gravação é ainda mais pesado que o do primeiro álbum do Strokes, com o cuidado de não agigantar os arranjos e as interpretações das canções. É essa obsessão minimalista que ressalta os detalhes de cada faixa: como os sopros em Brand new start, com cara de single, ou o corinho na abertura de Play the part.

Novato precavido, o Little Joy não dá grandes saltos (e, como band leader lânguido, com um inglês impecável, Amarante vai longe especialmente na ótima Shoulder to shoulder). O que ainda não tem – e talvez nem queira ter – é uma marca capaz de espantar de vez a impressão de que estamos ouvindo apenas um divertido brainstorming entre amigos famosos. Um prazerzinho dos bons – mas que, por enquanto, não provoca frio na barriga.

Primeiro álbum do Little Joy. 11 faixas, com produção de Noah Georgeson. Rough Trade. **

Aluga-se

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Quer uma prova de que nada é perfeito nesta vida? Tente procurar apartamento para alugar.

Estou nesta luta há alguns poucos dias e já desisti de encontrar o que eu quero. Não dá. Não tem. Os arquitetos não planejaram. Deus não quis. Ou tem, mas acabou. Sei lá. 

E o que eu quero é tão simples: apartamento de um quarto, não tão caro (até R$ 800, estourando), na Asa Norte ou no Lago Norte, com um quarto suficientemente espaçoso para abrigar a minha cama. Só isso. Descobri que é extremamente complicado encontrar “só isso”.

É pedir demais? No primeiro que visitei, o quarto era tão pequeno que comportava um aparelho de tevê e três sapatos. No segundo, o quarto era mais amplo, mas a cozinha e a sala formavam um cômodo só (tudo indica que paredes estão fora de moda). No terceiro, a cozinha era separada da sala – mas o apê ficava no primeiro andar, logo acima de uma academia de ginástica (e a coisa está tão árdua que provavelmente ficarei com esse aí mesmo). 

Quem procura apartamentos de um quarto em Brasília descobre que todos eles estão divididos em quatro faixas de preço: os de R$ 700 (que são minúsculos), os de R$ 800 (os minúsculos da Asa Norte), os de R$ 900 (que vêm com armários na cozinha) e os de R$ 1 mil (que não são para o nosso bico). 

Estou tentando me contentar com a idéia de morar num de R$ 700. Um cafofo daqueles que a gente fica com vergonha de mostrar para a própria mãe. Mas com vaga na garagem. Se bem que isso nem importa. Se somarmos o valor aluguel com a taxa de condomínio, as contas de luz e água, alimentação e gastos do dia-a-dia, devo investir mais da metade do meu salário nessa brincadeira. Por isso, nada de restaurantes caros e visitas a megastores. Nada de extrapolar nas passagens aéreas ou de ingressos para shows internacionais.

A partir de agora sou o homem dos eventos com entrada franca e das mostras de cinema no CCBB. Existe um preço que se paga para abandonar a condição de filhinho da mamãe, e não é barato.

Juro que quero ser otimista diante da situação. Mas suspeito que, na minha próxima visita, o apartamento de R$ 700 se revelará um bunker inabitável. Saudades das partidas de Banco imobiliário: “Quero a Rua Augusta. Inteirinha”. Não é fácil.

Drops de FicBrasília (2)

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* E cá estamos nós no festival que pedimos a deus.

* O curioso sobre o Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília) é que a programação impede o cinéfilo de assistir a mais de dois filmes minimamente interessantes por dia. Podemos optar pela sessão iniciada por volta das 19h ou por aquela que começa em torno das 21h. É isso. Às 17h, só filmes em DVD.

* Como era de se esperar (e isso infelizmente não é privilégio de Brasília), a mostra marca o domínio absoluto das projeções toscas de DVD e, principalmente, daquele digital que nos deixa com saudades do radinho de pilha. Quando é que alguém vai interditar a Rain, hem?

* Isso sem contar as gafes de sempre – que, de tão comuns, o espectador encara com bom humor. Na sessão de um documentário sobre Michael Moore, em DVD, faltaram legendas – além disso, foram exibidos cinco trailers do DVD antes do longa. E na de Filth and wisdom, ficamos uns cinco minutos assistindo à montanha verde do descanso de tela do Windows. Me senti num show do Kanye West. 

* Ainda bem que há os filmes em película. Para os que moram em Brasília, uma dica: quase todos os sobreviventes passam no Academia Hall, a salona para três mil pessoas.

* Outra decepção do festival (a mais grave de todas, creio eu) é o desprezo do público, que não está nem aí para filmes como O canto dos pássaros ou Liverpool, com sessões quase às moscas. Assim nem dá para cobrar uma mostra mais parruda.

* Os filmes? Por enquanto: um pequeno milagre e três pecados.

 

* O canto dos pássaros | Albert Serra | ***

Um daqueles filmes maravilhosamente estranhos que só encontramos em mostras de cinema (daí a vontade de congelar o momento da sessão para poder retornar a ele num outro dia qualquer), o longa de Serra é um paradoxo: de tão simples, exige dedicação absoluta do público. Aos que se permitem levar pela fé cinematográfica do diretor, é uma bela viagem: além de narrar uma versão radicalmente pessoal para uma história de domínio público (o encontro dos três reis magos com o menino Jesus), Serra deixa a lente aberta para captar, nas texturas e formas da natureza, uma intervenção divina a cada plano. Como faço para ver o anterior dele, Honor de cavalleria?

* The wackness | Jonathan Levine | *

O vencedor do prêmio de público em Sundance é um indie que, na linha de Juno e Pequena Miss Sunshine, trata personagens outsiders com o sentimentalismo e de uma típica comédia romântica de multiplex. No papel de um terapeuta doidão, Ben Kingsley poderia até conseguir uma indicação ao Oscar (com uma campanha agressiva, claro). Mas é um filme medroso, que parece tomar sempre o caminho mais acessível para amenizar o desconforto de algumas situações da trama. Começa como o perfil de um traficante adolescente (e como um retrato do submundo nova-iorquino dos anos 90) e termina como um conto de primeiro amor como tantos que já vimos. 

* Ninho vazio | Daniel Burman | *

Se as crônicas familiares de Burman pareciam cada vez mais flácidas (já havia uma queda entre O abraço partido e Leis de família), Ninho vazio é tedioso: revela a saturação prematura de um estilo. É como se o diretor se contentasse com pouco: no caso, identificar as crises de um casal em ponto morto, que precisam reconstruir a própria rotina depois que os filhos crescem. Prova de que uma boa observação do cotidiano não é para qualquer um. 

* Filth and wisdom | Madonna | sem estrelas

Um filme precário, errado – há trabalhos de alunos primeiro semestre de Cinema que dão um banho nesse painel de peixes fora d’água. O pior é que o projeto não seria de se jogar fora – misturar um documentário sobre o Gogol Bordello com uma trama de ficção sobre a dura vida de migrantes, quem sabe, poderia ter rendido um musical divertido. Mas Madonna, que poderia ter convocado um Michel Gondry ou um Spike Jonze como assistente, confunde sabedoria com filosofia de livros de auto-ajuda. E há coisas que nem um diretor competente salvaria: o falatório insuportável do personagem de Eugene Hutz, cheio de pérolas do auto-conhecimento, certamente foi escrito pela pop star.