Festival de Brasília | Ñande Guarani

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Se a seleção de longas-metragens do Festival de Brasília já provocava reações de desânimo antes da exibição dos filmes, já podemos afirmar com alguma certeza que os pessimistas não estavam errados. Faltam dois concorrentes na mostra 35mm (um Evaldo Mocarzel e um Geraldo Sarno) e, por enquanto, o clima oscila entre a mais decadente edição de Gramado e uma morna seleção do Festival Internacional de Cinema Ambiental de Goiás Velho.

Isto é: um festival nas últimas (e, para mim, não é nada engraçado ou divertido chegar a essa conclusão). A insatisfação é geral: está nas conversas de jornalistas, no bate-papo da praça de alimentação e até no júri. Aliás, atiraram uma batata quente para os jurados: como eleger a melhor atriz numa seleção que não apresentou nenhum papel feminino de destaque (e nem vai apresentar, já que os próximos filmes são documentários)? Mistério.

Tudo indica que o melhor longa da programação será mesmo Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte, que passa hoje na Mostra Brasília (seleção de filmes da cidade excluídos da competição). O curioso é que, ontem, a sessão paralela exibiu o novo longa de André Luiz Oliveira, Sagrado segredo – que, ainda que irregular, provoca mais interesse que todos os filmes escolhidos como atrações principais (com exceção de Filmefobia).

O que aconteceu com o Festival de Brasília? Provavelmente um curto-circuito entre a organização da mostra, que se recusa a rever as regras do evento, e uma postura conservadora da seleção de comissão de longas, que privilegiou documentários puramente informativos que ficariam escondidos na grade da TV Sesc.

Sagrado segredo | André Luiz Oliveira | «

O projeto mais pessoal do diretor de Meteorango Kid caminha em pelo menos três direções: é um documentário sobre a via sacra da cidade de Planaltina (um espetáculo comunitário que mobiliza uma multidão todos os anos), um ensaio sobre religiosidade e a encenação da crise existencial do cineasta, que não lança um longa desde Louco por cinema (vencedor do Festival de Brasília em 1994).

Com apenas 70 minutos de duração, o filme é (perdoem o trocadilho) uma via crúcis que acumula informações de uma forma errática, mas quase sempre provocativa (é um documentário sobre a encenação da via crúcis ou sobre Jesus Cristo?). Para um longa maldito que demorou nove anos para ser concluído, o resultado não frustra as expectativas de ninguém: é caótico e bastante precário, todo manco (e escorrega na pregação de uma religiosidade introspectiva). Mas trata-se pelo menos de uma experiência cinematográfica arriscada, inclassificável, que por isso não deve ser tratada apenas como a egotrip (ainda que seja um pouco isso) de um cineasta em transe. 

Ñande Guarani (Nós Guarani) | André Luís da Cunha | «

Um documentário que cumpre um papel muito específico (foi encomendado pelo Ministério Público para registrar as condições de vida dos índios Guarani) com função exclusivamente informativa. Segue a cartilha do formato com austeridade, mas sem a fluência que se espera de uma produção que quer apenas transmitir uma série de dados e depoimentos ao espectador. A situação dos índios é mesmo grave – mas não me peçam para explicar por que a comissão de seleção decidiu incluir este relatório maçante na mostra competitiva de um festival de cinema.

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