Festival de Brasília | Siri-Ará

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siriara

Em 1993, um ano depois da minha chegada à capital, eu já era um freqüentador do Festival de Brasília. Na época, o cinema brasileiro ainda cambaleava das pancadas recebidas pelo governo Collor, que fechou a Embrafilme e a mostra servia de reflexo melancólico para a crise. Não havia muitas filas para as sessões e os filmes selecionados eram verdadeiras peças de resistência: precários, esqueléticos, eles pareciam celebrar a própria sobrevivência.

Foi exatamente naquele ano que assisti ao meu primeiro Rosemberg Cariry: A saga do guerreiro alumioso. Duvido que algum leitor deste blog dê alguma importância ao diretor cearense. No meu caso, um laço afetivo obriga que eu lembre do cineasta sempre que penso naquele cinema em frangalhos do início dos anos 90. Ele retornaria ao festival com Corisco e Dadá e Lua Cambará, mas foi aquela alegre alegoria do Nordeste, colorida e orgulhosamente pobre, que deve ficar na minha memória como uma espécie de marca d’agua borrada para o estilo de Cariry e para minhas primeiras experiências no festival.

Não consigo descrever muito do longa-metragem, mas tenho absoluta certeza de que ele era – apesar dos excessos visuais, e taí um diretor apegado a excessos – uma viagem espontânea, fluente, por símbolos da cultura regional. Se me perguntarem, direi que gosto do filme, mesmo correndo o risco de estar redondamente enganado (e não pensamos poucas bobagens aos 14 anos de idade).

Por que o flashback? É que retornei àquela sessão de 1993 ontem à noite, na sessão do novo filme de Cariry, Siri-Ará. Não por uma boa razão, infelizmente. Logo no início da sessão, abandonei o setor de poltronas reservado à imprensa e decidi assistir ao filme nas últimas fileiras, junto com o público que fez filas e comprou ingressos. A experiência não foi nostálgica nem nada – foi só triste.

Se o público já parecia minguado para uma noite de sexta-feira, a debandada no início da sessão deixou várias poltronas vazias e um clima de abandono que me atirou instantaneamente a 1993. O filme não ajudou: Cariry parece ter perdido o entusiasmo, a vibração desajeitada que ainda vive na minha memória (talvez como uma forma de miragem, não sei). Parecia até o fim da festa.

Otimismo é bom e a gente gosta, mas taí a realidade difícil que corre entre as poltronas: este Festival de Brasília, com exatamente esses mesmos filmes que estão na seleção, poderia ter ocorrido em 1993. Num dos piores momentos do cinema brasileiro. É verdade: estamos sim diante de um dos festivais mais sofríveis de todos os tempos.

Parece até Gramado. Sério.

Ainda faltam três documentários e podemos sim tropeçar numa obra-prima. Mas as uma simples comparação com qualquer outra edição da mostra deixará o ano de 2008 em séria desvantagem. O júri terá um trabalhão para escolher os vencedores, e por enquanto não vimos nenhum filme com perfil de ganhador (e, goste ou não de Baixio das bestas, é um longa que resolve várias questões básicas de conceito ou narrativa que faltam a cada noite da competição).

Sejamos sinceros, pelo menos uma vez (e a tradição que cerca o festival abafa esse tipo de opinião direta): dá até desânimo acompanhar as sessões. Há esperanças de surpresas, mas acompanhar uma mostra à 1993 em pleno 2008 deixa a sensação incontornável de que há algo muito errado em cena. Não com o cinema brasileiro, que vai razoavelmente bem. Mas com a organização do evento cultural mais importante da cidade. Deu tilt?

Siri-Ará | Rosemberg Cariry | «

Em Siri-Ará, Cariry dá continuidade ao resgate histórico e folclórico do sertão nordestino com um delírio que, em muitos momentos, chega a lembrar os momentos mais abstratos de Júlio Bressane. Na trama, um homem velho que retorna da Europa adentra o sertão cearense acompanhado de uma índia – e perseguido por guerreiros do reisado, banda de pífanos e alucinações que remetem a um Nordeste lírico, imaginário. Para tecer essa visagem, o diretor nega o convencional: o filme corre com a liberdade de um fluxo de consciência. 

É uma idéia que poderia ter soado fascinante, mas o que continua a incomodar em Cariry é a forma pouco imaginativa (eis a ironia da coisa), e até tosca, como ele compõe alegorias – e alegoria não é para qualquer um. Apesar da secura da fotografia, é um filme que quase nunca deslumbra (as fotos de divulgação provocam mais impacto que qualquer cena do longa) e se arrasta numa narrativa truncada, que penaliza o espectador com uma lição enfadonha de história popular brasileira desde os créditos iniciais. É superior a Lua Cambará – mas sente o peso de traduzir uma premissa delirante com os recursos limitados de uma produção de baixo orçamento.

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