Festival de Brasília | Filmefobia

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fobia

Passou um furacão aqui na cidade: ele se chama Filmefobia. Todo Festival de Brasília tem um filme que monopiliza os debates e divide opiniões do público e da crítica. Geralmente esse papel é assumido por um Júlio Bressane ou um Cláudio Assis. Com o filme de Kiko Goifman acontece algo parecido: muitos detestam, outros respeitam, ninguém sai apático das sessões.

Ontem à noite houve debandada do público e (previsíveis) vaias nos créditos finais. Os dois curtas que o antecederam também foram vaiados – e, como eram filmes que não rezavam a ladainha das histórias com início, meio e fim, dá para desconfiar de uma certa má vontade da platéia (que provavelmente preferiria assistir a mais um clipe do Dominguinhos).

Muita gente reclamou das cenas de tortura (é um documentário fictício que submete fóbicos a verdadeiras máquinas do terror) e alguns não compraram o jogo de Goifman, acusado de ter feito um experimento excessivamente cerebral. Eu gostei. Do longa (que, se não é um grande filme, tem idéias para três ou quatro edições do festival) e dos curtas (No 27 e Cidade vazia são um tanto singelos, mas que privilegiam as sensações dos personagens às obrigações de um roteiro fechadinho).

Por falta de tempo (e para não repetir o trabalho de uma manhã inteira, tenham paciência), aí vai uma versão reduzida e sutilmente modificada do textinho sobre Filmefobia que escrevi para o jornal (a versão integral sai amanhã vocês sabem onde).

Filmefobia | Kiko Goifman | ««

O diretor Kiko Goifman chama Filmefobia de “filme torto”. No contexto do 41º Festival de Brasília, seria melhor defini-lo como um artefato explosivo. Atirado em meio à polêmica sobre o predomínio de documentários na seleção da mostra, o primeiro longa-metragem de ficção do cineasta é um ataque despudorado – e cerebral – às certezas dos que teimam em delimitar fronteiras entre gêneros e artes. Gostar ou não desta provocação é o de menos – difícil mesmo é classificar um experimento que bagunça signos do horror psicológico e da comédia e, sem obedecer a regras de conduta, se deixa envenenar pelas artes plásticas, pela fotografia e pelo ensaio acadêmico.

Que filme é este? Documentarista experiente, Kiko levou para o terreno da ficção a crise de um formato que ele questiona a cada novo projeto (em 33, o cineasta adotou clima noir para narrar a própria jornada em busca da mãe biológica). Registro inacabado desse processo, Filmefobia provoca incômodo ao disparar um jorro de possibilidades narrativas e de perguntas que ficarão sem respostas.

Metido num jogo intelectual, cabe ao espectador a decisão de participar do debate ou de, incrédulo, simplesmente abandonar a sala (ou zombar da “pretensão” da premissa, sobre o medo e o status da imagem no mundo contemporâneo). Mais complicado é adotar uma posição de passividade diante de uma sucessão de grotescas (e às vezes cômicas) cenas de tortura catalogadas com o distanciamento de um relatório científico.

Em um determinado momento da trama, Zé do Caixão (José Mojica Marins) é convidado para dar palpites na direção do falso documentário que confronta um grupo de fóbicos com bizarros objetos de terror. O público não sabe se deve rir ou se irritar como o “mau gosto” do diretor, que aplica a descarga de angústia num elenco de cobaias apavoradas por borboletas, palhaços, botões e ralos de banheiro.

A falta de traquejo de Kiko com a ficção responde, para o bem e para o mal, pela estranheza do que bate na tela – do tom onírico acoplado às máquinas delirantes construídas pela artista plástica Cris Bierrenbach à queda pelo trash e pela escatologia. No tiroteio de artimanhas, não são poucas as que resultam gratuitas e pueris (como a agulhada no olho de Jean-Claude, interpretado pelo crítico Jean-Claude Bernadet, justificada didaticamente logo em seguida). O perfil de Jean-Claude, que serve de eixo para a narrativa, é quase sabotado por um roteiro que privilegia as divagações filosóficas do anti-herói ao mergulho numa imaginação doentia.

Mais decisivo é notar como, sob o barulho intencionalmente provocado pelo show de pavor, Kiko vence pelo menos um desafio: filma o medo sem condenar o público a uma sessão de sadismo.

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2 comentários em “Festival de Brasília | Filmefobia

    Filipe disse:
    novembro 23, 2008 às 4:26 am

    Não tinha uma estrela a mais aqui ontem?

    Tiago respondido:
    novembro 23, 2008 às 1:21 pm

    Não, Filipe, acho que foi impressão sua.

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