Dia: novembro 19, 2008

Festival de Brasília | Abertura

Postado em

sbernardo

Parece até tradição: não existe Festival de Brasília de Cinema Brasileiro sem polêmica. Mas algo estranho parece ter acontecido na edição deste ano. Antes, os filmes provocavam controvérsia. Agora, o que se discute é a seleção dos filmes. 

Dos seis longas concorrentes na mostra de 35mm, quatro são documentários – os outros dois são filmes de ficção com forte inspiração do gênero. Filmefobia, de Kiko Goifman, é definido como “o making of de um documentário fictício”. Há um filme sobre a sanfona no Brasil. E outro sobre os índios Guarani.

Há quem defenda a comissão de seleção com o argumento (meio simplório) de que os documentários estão em alta e o festival soube captar essa tendência. Há quem a ataque com a suspeita de que o critério de ineditismo aplicado pela organização da mostra acabou prejudicando o público, que assistirá à rebarba de outros festivais.

Dá para concordar com um e com outro. Mas o que ouço por aí é que pouca gente tem esperança de encontrar um grande filme no cardápio da mostra. A ausência de cineastas conhecidos (e relevantes) e de temas minimamente curiosos chega a provocar frio na espinha. Ano passado fizemos filas para ver os filmes de Julio Bressane, Carlos Reichenbach e José Eduardo Belmonte. E agora? O máximo que temos é Kiko Goifman, um (imprevisível) Geraldo Sarno e um filme-jogo com 11 opções de desfecho.

Quem acompanha este blog sabe que (por motivos profissionais, mas também por uma quase obsessão) minha vida pára durante o Festival de Brasília. Até terça que vem, este será meu eixo. Reconheço que os quatro leitores deste sitezinho metido a bacana não estão nem aí para o novo longa de Rosemberg Cariry. Mas um festival (e este festival especialmente) nunca é feito só de filmes. Há também as insanas batalhas travadas entre repórteres e cineastas, para ficarmos num exemplo infame de uma história que costuma se repetir ano a ano.

Torço para estar enganado. É óbvio que o rapaz aqui, que enfrentará maratonas de trabalho enlouquecedoras, preferiria passar o tempo diante de bons filmes (a vida é breve). Só que nem sempre tenho esse tipo de sorte – e prometo não usar o blog como muro de lamentações. Quer dizer: vou tentar, ok?

São Bernardo | Leon Hirszman | « « « « 

Se podemos esperar o pior possível dos longas em competição, a boa notícia veio logo na abertura do festival. Foi uma das melhores em muitos anos. Desconfio até que tenha sido a melhor de que participei (e freqüento a mostra desde 1992). Exibido em cópia restaurada, São Bernardo ganhou a pompa que faz por merecer. É uma obra-prima, e espero que seja relançada também nos cinemas (o DVD chega às lojas esta semana).

O filme de Leon Hirszman, adaptação da obra de Graciliano Ramos, tem um quê premonitório. É uma alegoria para as trevas do capitalismo (muito antes de Sangue negro, o fazendeiro Paulo Honório é o self-made man bruto, mesquinho, condenado à solidão) que usa a narração em off do protagonista como um contrponto para as imagens de miséria e submissão provocadas por ele (muito antes de Tropa de elite, taí um filme cuja voz se opõe à do narrador). 

No início da sessão, a filha de Leon, Maria Hirszman, disse que se tratava de um filme “atualíssimo”. Está coberta de razão. Mas não é um filme que se mantém vivo apenas como reflexo dos jogos de poder na vida brasileira (e, se cumprisse apenas esse requisito, já seria formidável). O uso de planos longos e silêncios como recursos para abafar e assombrar o discurso do protagonista é uma lição para a onda de filmes ‘de arte’ que abusam de imagens lentas, mas sem estofo.

Enfim: uma preciosidade que deve ser redescoberta urgentemente. E um filme de ficção que é uma aula para os documentários sobre a vida brasileira que vemos por aí.