O primeiro dia

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Meu apartamento é muito engraçado. Não tem parede entre a cozinha e a sala, não tem box no banheiro (um banho de ducha equivale a um dilúvio), não tem fogão, não tem mesa nem espelho. Nenhum espelho. Saio do chuveiro e só deus sabe o estado do meu penteado.

Ainda assim (e talvez por causa disso tudo), entrei de manhã cedo e ainda não consigo sair daqui de dentro. Por mim, nem sairia. Não consigo me mover. São oito da noite. Logo no primeiro dia de mudança, ganhei um lar. Eu fico. Digam ao povo que fico.

Escrevo isso ainda impressionado, maravilhado com a forma como este apartamentozinho esquisito me ganhou. Foi no fim da tarde, por volta das 17h. Antes disso, nada ia bem. Eu estava no inferno. E um inferno econômico – que, descobri, é o pior tipo de apocalipse. 

Parecia até piada. No mesmo dia, descobri que meu cartão de débito novo ficaria pronto em nada menos que um mês (enquanto isso, tento me acostumar com os avisos de erro de leitura nos caixas eletrônicos), que a revisão do carro sairia por uma soma desesperadora, que o seguro do automóvel vence segunda-feira e que (notem como a coisa só piora) uma escrivaninha mais ou menos decente sai por uns R$ 700. Decidi comprar uma mesa. Uma mesa e nada mais que uma mesa.

Comecei o sábado às voltas com a necessidade de organizar os trabalhos da rapaziada do caminhão de mudança e, mais ou menos ao mesmo tempo, fazer as compras de tudo o que é essencial para o meu dia-a-dia (no tapa, acabei descobrindo o que é essencial). E isso tudo num feriado (só descobri a existência da data comemorativa ontem à noite).

Durante a manhã, desejei sinceramente que o apartamento explodisse. Evaporasse. Seria uma boa desculpa para eu me livrar da decisão de morar sozinho e voltar para o chamego das asinhas dos meus pais. Pensei tanto nisso, e só nisso, que quase não dormi. Esqueci de todo o resto. Esqueci até que eu tinha um blog. Quando somei todos os meus gastos, notei que era um homem falido. Pensei em pedir desculpas para a mulher da imobiliária e desfazer o trato. “Posso assinar o contrado ao contrário?”, e era tudo o que eu queria perguntar.

Acho que foi o orgulho que me fez seguir adiante. Daí que, por volta do meio-dia, eu já estava arrumando meu novo apartamento – como quem joga as malas desejeitadamente na cama de um quarto de hotel. Desinteressado, fiz de conta que não era comigo. Aprendi todos os serviços domésticos em meia hora (algo digno de Guinness Book?). Às 13h eu estava limpando o chão com Veja, um esfregão e um pano encardido. Não sei se eu daria uma boa empregada doméstica, já que derrapei no banheiro e dei de joelho no vaso sanitário.

Quando vi a mini-montanha de caixas no meu quarto, pensei em jogar meus bens mais preciosos (i.e, CDs e DVDs) pela janela. Mas a janela é tão pequena que não serviria nem para o suicídio de um menino de três anos de idade (não que eu tenha pensado na hipótese, mas sei lá, Freud explica, talvez eu tenha me sentido imaturo e impotente como uma criança pequena, de qualquer forma a imagem do petiz suicida me veio à cabeça).

No fim da tarde, depois de ter limpado a sala, o banheiro e o corredorzinho tosco que não leva a lugar algum (mas que dá um bom escritório!), decidi ouvir música. Meu aparelho de som estava ali, jogado no chão (não há estantes por enquanto). Quer decisão mais corriqueira? Saquei meu CD-talismã e, em quinze minutos, o apartamento nasceu de novo. Era outro. Mais amplo, confortável. Meu quarto não parecia ser o quarto de outra pessoa. Não parecia um hotel. Aquela decoração banal dizia muito sobre mim.

Para aproveitar o momento, organizei com lentidão os pratos, os garfos, os copos e o abridor de garrafa. Dobrei as toalhas de banho, ajeitei o tapete da cozinha e o pano de prato. Eu precisava de tempo para entender o processo. O que havia acontecido? Acho que nada. Acho que o resultado da mudança, que parecia impossível, só ele, me mostrou que ainda posso assombrar as pessoas com grandes surpresas – no caso, a pessoa era eu.

Juro que quase caí no choro enquanto guardava o suco de laranja na geladeira (!).

Agora, aqui, neste momento, digito estes parágrafos sentado num tapete velho, apoiado na mesinha que servirá para o café da manhã, o almoço, o jantar, o jogo de baralho. Chove horrores. E é a quinta vez que ouço o mesmo CD. Não sei o que faz com que eu me sinta o homem mais realizado do mundo. Mas é isso. É só mais um sentimento engraçado que não dou conta de explicar.

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20 comentários em “O primeiro dia

    cavalca disse:
    novembro 15, 2008 às 10:35 pm

    Parabéns pela nova morada. E, sem perceber, copiei o layout do teu blog no meu. Desculpa aê.

    Diego disse:
    novembro 15, 2008 às 10:35 pm

    “Juro que quase caí no choro enquanto guardava o suco de laranja na geladeira”

    Aconteceu o mesmo quando minha geladeira chegou e, 6 horas depois, bebi Coca-Cola gelada. Foda.

    Diego disse:
    novembro 15, 2008 às 10:37 pm

    Daqui a pouco você vai descobrir que precisa de panos de prato e panos de chão e que aquele rodinho de pia é um dos utensílios de cozinha mais úteis do mundo. E falo muito sério.

    Diego disse:
    novembro 15, 2008 às 10:38 pm

    E que, meu deus, um escorredor de louças faz falta! Muita!
    E que limpar seu próprio quarto, sala e banheiro dá prazer (se com boa trilha sonora).

    Tiago respondido:
    novembro 15, 2008 às 10:39 pm

    Anotado, Diego, hehe.

    Valeu, Cavalca. E pode copiar. Nem foi eu quem inventou mesmo…

    Diego disse:
    novembro 15, 2008 às 10:41 pm

    Até lavar as próprias cuecas na mão pode te dar algum prazer, se você não se curvar muito no tanque e ganhar uma puta dor nas costas depois.

    Tiago Superoito respondido:
    novembro 15, 2008 às 11:03 pm

    Puts, Diego, eu ia fazer isso amanhã!

    rafagoom disse:
    novembro 16, 2008 às 3:03 am

    Eu me emocionei com seu post!
    Parabéns pelo crescimento. Não vejo a hora de fazer o mesmo. Força!

    \o/

    Jackie Morena disse:
    novembro 16, 2008 às 1:16 pm

    Te compreendo, passei por isso a um ano atrás … É encantador mesmo, a sensação de ter o seu espaço… Mas só pra constar, nunca acabam as coisas a adquirir …sempre falta algo, é impressionante!!!! rsrs

    caroug disse:
    novembro 16, 2008 às 4:45 pm

    Vi seu blog na página inicial do wordpress, e o primeiro parágrafo já me chamou a atenção.
    Eu sempre tenho a idéia de que homens são seres cascaudos incapazes de de sensibilizar qualquer coisa que seja, e fico muito feliz quando vejo que estou errada!

    Tiago respondido:
    novembro 16, 2008 às 9:22 pm

    Rafa, e bota força nisso, hehe.

    Jackie, entendo muito bem o que você diz. Sempre falta algo. Por aqui falta quase tudo.

    Caroug: pois é, às vezes acontece :)

    Érico disse:
    novembro 17, 2008 às 1:13 am

    Acho que não é o apartamento. Acho que é morar sozinho.

    Carol disse:
    novembro 17, 2008 às 8:52 pm

    Espero passar por isso um dia ^^ …e só por curiosidade…qual é o seu CD-talismã??

    Tiago Superoito respondido:
    novembro 18, 2008 às 10:04 am

    É ’29’, do Ryan Adams, Carol.

    Michel Simões disse:
    novembro 18, 2008 às 3:34 pm

    Toalha de papel, nunca deixe faltar toalha de papel

    Chico disse:
    novembro 18, 2008 às 8:52 pm

    Esses começos são excepcionais.

    Danilo M. disse:
    novembro 21, 2008 às 1:59 am

    O foda é descobrir que pão e leite não brotam no armário!

    Tiago respondido:
    novembro 21, 2008 às 11:48 am

    E que as roupas não aparecem no armário lavadas e passadas, feito passe de mágica, Danilo.

    Danilo M. disse:
    novembro 21, 2008 às 2:31 pm

    Podscre cara, é triste!

    Paula disse:
    fevereiro 28, 2009 às 5:54 pm

    Adorei!
    Sei que estou lendo isso aqui depois de muito tempo que foi postado, mas estou passando mais ou menos pela mesma situação. Comprei meu apartamento mas não para morar sozinha, mas sim pra casar. Tudo é novo e, de repente, pensar em faxina, pilhas intermináveis de louça e roupas a serem lavadas e passadas não parece mais a pior coisa do mundo. Ter seu próprio canto realmente é prazeroso.
    É bom ver que não estou sozinha no mundo…hehe

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