RocknRolla – A grande roubada

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RocknRolla, 2008. De Guy Ritchie. Com Gerard Butler, Tom Wilkinson e Thandie Newton. 114min. *

Dica para quem, como eu, procura apartamento para alugar: assistir a RocknRolla, uma comédia cruel sobre os crimes, golpes e canos fumegantes do violentíssimo mercado imobiliário de Londres, não é a maior diversão.

Saí do cinema com uma pergunta quicando no cérebro: existe alguma conexão entre esta pulp fiction de Guy Ritchie e a realidade? O filme parte da premissa de que o negócio de imóveis na Inglaterra se transformou em uma máfia tão sangrenta quanto o tráfico de drogas. É isso mesmo? 100%?

O cinema de Ritchie parece existir em um universo tão diferente do meu que até agora não consigo me importar com nenhuma informação contida em RocknRolla. Nah, é tudo gozação, entretenimento, tiros, piadas e guarda-roupa estiloso.

Ritchie não se leva a sério, é um fanfarrão, e talvez essa seja uma de suas maiores qualidades. Por que eu o levaria? Mas o ponto de partida do novo filme do cineasta não deixa de provocar alguma curiosidade. Ritchie usa um contexto aparentemente inspirado na realidade (se é que podemos bater o martelo em relação a isso…) para compor o típico filme de golpe cartunesco e pateta que costuma fazer. Claro que, no fim das contas, qualquer ambição de conectar a narrativa ao nosso mundo será soterrada pelos truques do diretor.

Penso assim: se tivesse colocado pelo menos um dos pés no chão, RocknRolla poderia ter sido um filme bastante diferente de Jogos, trapaças e dois canos fumegantes e Snatch – Porcos e diamantes. Talvez não melhor, nem tão divertido ou rentável quanto, mas diferente. Vazio como está, opera como mais um fetiche de Ritchie – o tipo de thriller intrincado e bem humorado que, por volta de 1995, caía feito manga madura do pomar dos estúdios supostamente independentes.

Se não podemos esperar de Ritchie uma espécie de Syriana (muito menos um Gomorra) sobre o submundo londrino, então tá: tentemos embarcar na típica graphic novel filmada que o diretor repete desde o início da carreira. Trata-se de um filme melhor que Swept away – mas isso lá é elogio? Qualquer filme do mundo tem o dever de ser pelo menos um pouquinho melhor que Swept away. Trata-se de um retorno a uma fórmula que o público parece ter aprovado – mas não conheço ninguém que considere Jogos, trapaças e dois canos fumegantes uma obra-prima. Alguém?

Em vez de seguir em frente, Ritchie comete o erro de tomar o filme mais bem sucedido da carreira como uma espécie de referência cristalizada de qualidade e marca autoral. Não é. RocknRolla é uma espécie de auto-análise: cá estão a galeria de personagens exóticos (e muito bem vestidos), a trilha sonora de punk rock, as subtramas que praticamente se devoram antes que consigamos decifrá-las, os tipos marginais-chiques que traem e são traídos por armações mirabolantes e golpes do acaso. Só faltou uma razão para repetir um formato pop-espertinho que, num certo momento, parece ter incomodado o próprio Ritchie. Tanto que ele tentou partir para outra.

Uma forma de neutralizar o próprio veneno seria, creio eu, aprofundar as relações desse cinema fantasioso com a nossa vida, o nosso mundo. Qual é a extensão do crime no mercado de imóveis na Inglaterra? Como ele afeta as pessoas que compram ou alugam apartamentos? O que isso significa para a economia do país? RocknRolla não quer, talvez não consiga, provocar nenhuma discussão sobre temas palpáveis, e tem o direito de não querer. Este é o filme que Guy Ritchie preferiu fazer. O problema é que este filme eu já vi.

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2 comentários em “RocknRolla – A grande roubada

    Lucas Mayor disse:
    novembro 6, 2008 às 6:09 pm

    “Uma forma de neutralizar o próprio veneno seria, creio eu, aprofundar as relações desse cinema fantasioso com a nossa vida, o nosso mundo. Qual é a extensão do crime no mercado de imóveis na Inglaterra? Como ele afeta as pessoas que compram ou alugam apartamentos? O que isso significa para a economia do país? RocknRolla não quer, talvez não consiga, provocar nenhuma discussão sobre temas palpáveis, e tem o direito de não querer. Este é o filme que Guy Ritchie preferiu fazer. O problema é que este filme eu já vi.”

    Tá falando sério?

    Realmente esperava algo do Guy além de algumas boas risadas e tramas que se esfarelam?

    Tiago respondido:
    novembro 6, 2008 às 6:17 pm

    Hahaha, tô sim.

    É que saí do cinema querendo ver outro filme sobre o tema que o Ritchie filmou. Shame on me. Mas é só mais um filme com as fórmulas dele e ponto final. Tem quem goste.

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