Dia: novembro 5, 2008

I had a dream

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obama

Minha vó ficou radiante com a vitória do Obama. “É um moço muito simpático”, avaliou. Dia desses ela comentou algo do tipo sobre o Cauã Reymond. Mas é aquela coisa: se o presidente conseguiu apoio incondicional até da minha vó, que costuma confundir o noticiário com as cenas da novela das oito, o que dizer? O sujeito é um furacão, um galã. Ele merece.

Hoje cedo esse era o assunto quente aqui no bloco. Os aposentados, que ocupam o playground enquanto as crianças saem para a escola, só falavam nisso. “O bom do Obama é que ele não é daqueles negros norte-americanos. Ele é misturado“, disse a voz da insensatez. Até o menino que vende morangos fazia prognósticos sobre a influência do novo governo na política internacional.

Eu, que acompanhei a movimentação dos delegados do Colégio Eleitoral até desabar de sono, fui acordado às três da madrugada com a notícia. “Obama, deu Obama”, e interromperam meu sonho mais perfeito. I had a dream. Eu, 12 anos de idade, afogado numa bacia de chocolate meio-amargo. “Que bom. Tudo se encaminhava pra isso, não?”, e não consegui articular um comentário mais antenado e inteligente. Desmaiei.

Pela manhã vi trechos do discurso da vitória. Obama encarna com tanta convicção o papel de homem público que até o sorriso parece exaustivamente ensaiado para soar natural. E convence horrores. As pessoas choram. Eu mesmo quase chorei – e não sei ainda por que razão.

Todos esperam grandes mudanças. Eu também espero. A partir de agora, Michael Moore passa a dirigir comédias românticas e a Rolling Stone volta a falar sobre música. McCain? Eu não votaria num velhinho com nome de batata congelada – e que troca abraços com o Schwarzenegger. “Eu não sou George W. Bush”, ele disse. Também pudera: só faltaria isso.

A cobertura da imprensa brasileira, aliás, foi de antologia. Um circo. Um espetáculo. Uma festa desvairada a favor de Obama, com presepadas mil (nunca na história da tevê a palavra “histórica” foi usada com tanto despudor), uma tradução simultânea sem pé nem cabeça e aquela comoção linda que se espera de uma transmissão do Oscar. Se minha avó tivesse visto, ela certamente pensaria que os americanos sim, taí um povo que sabe votar com glamour.

That’s showbusiness. E viva a democracia.

Drops de FicBrasília (3)

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* Duas baixas importantes no Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília): Night and day e Ballast, com cópias presas na alfândega, serão exibidos em DVDs de serviço. Uma experiência que eu não desejaria nem ao bebê estridente que fica gritando no apartamento aqui de cima.

* E é estranho assistir a um filme que contém um aviso insistente de que, por lei, aquela cópia não pode ser exibida ao público. Sei lá. Eu me sinto meio… sujo, tio. Tipo: posso baixar na internet e cobrar R$ 12 para uma sessão privê aqui na sala? Com qualidade superior de projeção?

* Youth without youth é outro que está bombando na Mostra Internacional de Cinema da Alfândega. Nem sinal dele, por enquanto.

* Ou seja: O canto dos pássaros pode até não ser uma comédia, mas este festival…

* E o desrespeito com o público? Na sessão das sete, Sinedoque, Nova Iorque começou com nada menos que 30 minutos de atraso, o que certamente complicou a vida de muita gente que pretendia pegar a sessão das nove (o longa tem 124 minutos). De tropeção em tropeção, este é o Fic em que assistirei a menos filmes. 

* Agora sério, mais uma vez: DVD a gente vê no conforto do lar, com pipoca de microondas e travesseiros, certo? O resto é picaretagem.

* Mas cinéfilo é bicho bobo e persistente. Aí vão os três filmes que vi de domingo para cá.

leonera

* Leonera | Pablo Trapero | ***

Eu esperava encontrar em Leonera o sinal luminoso de uma nova fase para Pablo Trapero. Tudo o que li sobre o filme havia me preparado para o perfil visceral, sem ranço sociológico, de uma mulher numa situação-limite. O que vi foi algo até melhor que isso: o filme não marca exatamente um avanço para o cineasta, mas um retorno muito bem-vindo aos métodos usados em Do outro lado da lei, de 2002. Como naquele filme, Trapero parte da observação da realidade (naquele caso, uma polícia sucateado; neste, um caso de exceção dentro do sistema penitenciário) para identificar o embate cotidiano que existe entre as regras fixas definidas pela sociedade e as nossas vidas tão confusas.

Por isso, noto sem medo ou vergonha: existe sim em Leonera um olhar para a vida na Argentina, um registro às vezes quase documental (e ele nos revela uma situação que não conhecemos), ainda que sem a carga de denúncia que esse tipo de reflexão costuma acarretar. Enquanto acompanha a personagem principal – uma presidiária grávida, que terá o filho dentro da cadeia -, Trapero não desvia de uma série de questões que aquela situação específica provoca (por exemplo: seria saudável submeter filhos de presidiários à vida de confinamento da cadeia? Eles seriam mais felizes se afastados das mães?). 

O diretor não faz julgamentos, e esse distanciamento (sem frieza) me parece o tom mais correto para um filme que permite que sintamos o desespero da heroína sem necessariamente defender suas decisões. Leonera é um filme sobre uma mulher – mas que não fecha os olhos para o país que existe ao redor dela.

* Sinedoque, Nova Iorque | Charlie Kaufman | *

Um monumento oco. Eu estava até pensando em entrar na brincadeira metametametametalinguística de Kaufman, mas desisti na cena em que a personagem de Dianne Wiest decide facilitar o trabalho do espectador e traçar didaticamente o perfil psicológico do protagonista, um perturbado autor de peças teatrais empenhado em criar a maior (e mais verdadeira) obra de arte do mundo. Sem as filosofices sobre crises existenciais, não pareceria uma interminável sessão de terapia. Criado sob medida para o público que ainda se espanta com roteiros dentro de roteiros dentro de roteiros dentro de roteiros. Ele existe: na platéia, teve gente comparando a David Lynch.  

* La rabia | Albertina Carri | *

O equivalente argentino a Baixio das bestas: uma tour infernal num rincão podre e abandonado onde homens são bichos e os animais são esquartejados com o auxílio de um competentíssimo diretor de fotografia. O típico exercício de sordidez disfarçado de denúncia social que sempre, sempre será bem visto pelas curadorias de festivais de cinema.