Drops de FicBrasília (2)

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* E cá estamos nós no festival que pedimos a deus.

* O curioso sobre o Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília) é que a programação impede o cinéfilo de assistir a mais de dois filmes minimamente interessantes por dia. Podemos optar pela sessão iniciada por volta das 19h ou por aquela que começa em torno das 21h. É isso. Às 17h, só filmes em DVD.

* Como era de se esperar (e isso infelizmente não é privilégio de Brasília), a mostra marca o domínio absoluto das projeções toscas de DVD e, principalmente, daquele digital que nos deixa com saudades do radinho de pilha. Quando é que alguém vai interditar a Rain, hem?

* Isso sem contar as gafes de sempre – que, de tão comuns, o espectador encara com bom humor. Na sessão de um documentário sobre Michael Moore, em DVD, faltaram legendas – além disso, foram exibidos cinco trailers do DVD antes do longa. E na de Filth and wisdom, ficamos uns cinco minutos assistindo à montanha verde do descanso de tela do Windows. Me senti num show do Kanye West. 

* Ainda bem que há os filmes em película. Para os que moram em Brasília, uma dica: quase todos os sobreviventes passam no Academia Hall, a salona para três mil pessoas.

* Outra decepção do festival (a mais grave de todas, creio eu) é o desprezo do público, que não está nem aí para filmes como O canto dos pássaros ou Liverpool, com sessões quase às moscas. Assim nem dá para cobrar uma mostra mais parruda.

* Os filmes? Por enquanto: um pequeno milagre e três pecados.

 

* O canto dos pássaros | Albert Serra | ***

Um daqueles filmes maravilhosamente estranhos que só encontramos em mostras de cinema (daí a vontade de congelar o momento da sessão para poder retornar a ele num outro dia qualquer), o longa de Serra é um paradoxo: de tão simples, exige dedicação absoluta do público. Aos que se permitem levar pela fé cinematográfica do diretor, é uma bela viagem: além de narrar uma versão radicalmente pessoal para uma história de domínio público (o encontro dos três reis magos com o menino Jesus), Serra deixa a lente aberta para captar, nas texturas e formas da natureza, uma intervenção divina a cada plano. Como faço para ver o anterior dele, Honor de cavalleria?

* The wackness | Jonathan Levine | *

O vencedor do prêmio de público em Sundance é um indie que, na linha de Juno e Pequena Miss Sunshine, trata personagens outsiders com o sentimentalismo e de uma típica comédia romântica de multiplex. No papel de um terapeuta doidão, Ben Kingsley poderia até conseguir uma indicação ao Oscar (com uma campanha agressiva, claro). Mas é um filme medroso, que parece tomar sempre o caminho mais acessível para amenizar o desconforto de algumas situações da trama. Começa como o perfil de um traficante adolescente (e como um retrato do submundo nova-iorquino dos anos 90) e termina como um conto de primeiro amor como tantos que já vimos. 

* Ninho vazio | Daniel Burman | *

Se as crônicas familiares de Burman pareciam cada vez mais flácidas (já havia uma queda entre O abraço partido e Leis de família), Ninho vazio é tedioso: revela a saturação prematura de um estilo. É como se o diretor se contentasse com pouco: no caso, identificar as crises de um casal em ponto morto, que precisam reconstruir a própria rotina depois que os filhos crescem. Prova de que uma boa observação do cotidiano não é para qualquer um. 

* Filth and wisdom | Madonna | sem estrelas

Um filme precário, errado – há trabalhos de alunos primeiro semestre de Cinema que dão um banho nesse painel de peixes fora d’água. O pior é que o projeto não seria de se jogar fora – misturar um documentário sobre o Gogol Bordello com uma trama de ficção sobre a dura vida de migrantes, quem sabe, poderia ter rendido um musical divertido. Mas Madonna, que poderia ter convocado um Michel Gondry ou um Spike Jonze como assistente, confunde sabedoria com filosofia de livros de auto-ajuda. E há coisas que nem um diretor competente salvaria: o falatório insuportável do personagem de Eugene Hutz, cheio de pérolas do auto-conhecimento, certamente foi escrito pela pop star.

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5 comentários em “Drops de FicBrasília (2)

    Thaís Ninômia disse:
    novembro 1, 2008 às 5:15 pm

    Ainda estou achando difícil “casar” os horários de alguns filmes que quero assisitir, a maioria concentrada só no “horário nobre”…

    Você então estava na sessão do “Fabricando Polêmica”? Acabei desistindo… muita confusão… (hehehe).

    “Liverpool” está nos meus planos. Fiquei curiosa com “O canto dos Pássaros”.

    Abraço

    Filipe disse:
    novembro 1, 2008 às 6:12 pm

    O Luis Soares Junior baixou o Honor, então imagino que deve dar de conseguir na web com pelo menos legendas em inglês.

    Tiago respondido:
    novembro 1, 2008 às 8:21 pm

    Não estava na sessão, Thaís, mas ouvi falar que foi o caos. Parece que o responsável pela legenda eletrônica avisou ao público que “ficou sem tempo” pra legendar o filme, foi isso?

    Vou procurar, Filipe, obrigado.

    Thaís Ninômia disse:
    novembro 3, 2008 às 5:25 pm

    Saí da sala pra tentar saber com a coordenação sobre o que estava acontecendo. Quanto voltei, alguém estava tentanto explicar o problema. Daí não ouvi a tal explicação direito. Só sei que com menos de 10 minutos de filme, a legenda foi-se e não voltou mais (isso depois de todos os trailers que um dvd tem direito, como vc colocou no seu post). Já que a coordenação ofereceu a opção de cortesias para quem não quisesse esperar a situação se normalizar, preferi desistir do documentário.

    Tiago respondido:
    novembro 3, 2008 às 5:31 pm

    Acho que você fez bem, Thaís. Conheço gente que viu com legendas e não gostou.

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