Diário de SP | Na Mostra (2)

Postado em Atualizado em

1 | Por enquanto, quase um marasmo.

2 | E, sem brincadeira, se Gomorra e Il divo representam um renascimento do cinema italiano, fico com o morto.

3 | A vida moderna | Raymond Depardon | **

Um documentário que estampa em cada plano o amor do cineasta pelo tema (a vida rural na França) e os personagens (agricultores praticamente em extinção) – mas é um universo tão específico, e retratado de forma às vezes de forma tão casual, que talvez só comova com tamanha intensidade o próprio Depardon. É, acima de tudo, o registro de um reencontro – na narração em off, o diretor avisa que costuma retornar àquela região regularmente -, de uma certa luz que bate no outono e, não tão sutilmente, das rápidas transformações no cotidiano do campo. O melhor está nos créditos finais: lá, Depardon apenas filma os rostos e gestos dessa gente, antes que o tempo a leve.

4 | Música na noite | Ingmar Bergman | **

Um Bergman romântico, melodramático, às vezes siderado (uma das primeiras cenas é um transe surrealista), antes do furacão (e de Monika e o desejo). As legendas eletrônicas desencontradas transformaram parte da sessão num enigma.

5 | Il divo | Paolo Sorrentino | **

A cinebiografia do primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, que sobreviveu aos piores terremotos políticos, é uma charge com taquicardia. Para desenhar o perfil de um homem indecifrável, e as relações do todo-poderoso com a máfia, Sorrentino usa recursos de fitas de gângster, de comédias de humor negro e, em alguns momentos mais histéricos, parece mais infuenciado por Guy Ritchie que por Francis Ford Coppola. A interpretação de Toni Servillo é daquelas que não esqueceremos facilmente – ainda que o roteiro se contente em manipular um protagonista-boneco (é o homem solitário, experiente, meticuloso, frio, invariavelmente sarcástico). A sátira, que começa poderosa, vai perdendo o fôlego até cansar e, finalmente, abraçar o vazio.

6 | Gomorra | Matteo Garrone | *

Se este é o “novo cinema italiano”, então estamos na frente: de Cidade de Deus a Tropa de Elite, já nos mostramos craques em empacotar nossa crise social em formatos de cinema de gênero. O filme-mosaico de Garrone denuncia a máfia do sul da Itália como quem pega emprestado o molde de thrillers norte-americanos como Syriana e Traffic – as histórias entrelaçadas formam um painel ambicioso, “importante”, de um tema perigoso (o autor do livro que inspirou a trama foi ameaçado de morte) e digno de manchetes no noticiário. Mas, além de não acrescentar nada a um modelo de narrativa bastante desgastado, o cineasta trata personagens como elementos para a defesa de uma tese que, no fim das contas, peca pela pobreza dos argumentos. No caso, prefira o produto brasileiro.

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