Offend Maggie | Deerhoof

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Deerhoof, a melhor banda que você não verá no Brasil em 2008. 

Num primeiro momento, os fãs do Klaxons estranhariam os riffs secos, envelopados a vácuo por John Dieterich. Já a seita de Marcelo Camelo faria pouco caso da “japinha que canta esquisito”. Mas, no caso do Deerhoof, a primeira impressão é a que passa. Na quinta música, aposto que Satomi Matsuzaki conquistaria o apoio de alguma torcida. Três ou quatro pessoas – mas cada epidemia tem o ritmo que a convém.

Falem o que quiserem sobre eles. Qualquer bobagem. Não confio em ninguém que tenha ouvido menos de três discos deste trio – agora quarteto! – de San Francisco, Califórnia.

Um álbum após o outro e, com o tempo (e reconheço que alguma paciência), Matsuzaki soará como a voz mais doce do indie norte-americano. Para quem, assim como eu, descobriu o Deerhoof a partir de The runners four (2005), a aproximação se mostrou um pouco mais tranqüila. O próximo álbum, de 2007, se chamou Friend opportunity. Entendi o recado: são discos tão amistosos (já que brincam com referências de punk rock, psicodelia e hard rock setentista) quanto temperamentais (já que nada, nenhuma melodia pára em pé).

Numa primeira audição, Offend Maggie não acrescenta muito a esse joguinho de extremos. Ao contrário de Friend opportunity, que soava compacto e direto, é um disco mais esparramado, com mais portas abertas que fechadas.  O conjunto das faixas é coeso (e poucas vezes foi tão agradável, tão simples ouvir um disco deles), mas cada canção parece narrada como uma aventura completa, com começo e fim.

Duas mudanças na estrutura do grupo explicam a sonoridade do disco. Primeiro, existe um novo guitarrista – e ele provoca algumas pequenas revoluções na cozinha do Deerhoof. Ed Rodriguez cria uma teia ora dissonante ora melodiosa de riffs que às vezes quase descamba para improvisos jazzísticos, às vezes remete ao Sonic Youth dos anos 90 (ouça Numina O, por exemplo).

A outra transformação é que, ao contrário de entrar no estúdio com poucas idéias e desenvolvê-las durante a gravação, a banda ensaiou várias das músicas durante a turnê do disco anterior. O desafio da vez foi elaborar os arranjos sem perder a aura de espontaneidade. Talvez venha daí a sensação de que Offend Maggie soa descomplicado (pelo menos para os fãs), quase acomodado, avesso a explorar novos territórios musicais. É que, desta vez, o Deerhoof prefere olhar para dentro, rever posturas, aparar arestas à procura de um discurso auto-consciente. Em resumo: eles querem se livrar da desculpa de que escrevem música num tresloucado fluxo de consciência.

Talvez nunca tenham escrito – mas Offend Maggie deixa o processo muito mais claro. Como uma extensão de Friend opportunity, Dieterich continua a embalar riffs gigantescos em pequenos pacotes (e The tears of music and love é tão monumental e viciante quanto o título sugere). Mas são os pequenos detalhes que ainda nos confundem: como as letras em japonês de Matsuzaki, o acento folk da linda Buck and Judy, os violões dedilhados de Family of others, a falta de semancol de uma banda que oscila entre a gozação mais esdrúxula (Basket ball get your groove back) e um épico em tom menor (My purple past).

Numa terceira audição, o álbum vira monstro.

O Deerhoof é uma banda que, apesar de cada vez mais decifrável e humanizada, cada vez mais gente-como-a-gente, continua um mistério. Pelo menos para mim. Quanto mais cresce, mais escapa do meu campo de visão. Estamos prontos para eles? Questão mais importante: eles mordem?

Por enquanto sei que não os verei no Brasil em 2008. Mundinho injusto o nosso.

Décimo álbum do Deerhoof. 14 faixas, com produção da própria banda. Kill Rock Stars. ***

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