Mês: setembro 2008

Uma outra estação

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Até ontem: galhos sem folhas, grama alaranjada, flores amarelas nos ipês, céu sem nuvens, horizonte colorido, garganta seca, lábios rachados, crises alérgicas, umidificador, nariz sangrando, caminhadas no parque, toalhas molhadas, poeira, madrugadas friorentas, meio-dia de Saara, sede e mais sede.

De hoje em diante: terra molhada, asfalto escorregadio, acidentes de trânsito, céu acinzentado, horizonte descolorido, gripe chata, guarda-chuva no porta-malas, fondue de chocolate, dvds para o fim de semana, pullover, não vai dar pra sair é que caiu um toró sabe como é, manhãs escuras, sono e mais sono.

Brasília, o paraíso dos metódicos.

Última parada

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O ônibus 174 é o nosso 11 de setembro.

Anotem aí: o Bruno Barreto vai falar muito, muito, muito até o dia em que divulgarem os indicados ao Oscar. Asneira maior que essa, porém, não vai rolar.

Sou/Nós | Marcelo Camelo

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Você já levou um fora do Marcelo Camelo? Eu já. Na época do lançamento de Ventura, tentei perguntar a ele sobre as influências musicais do Los Hermanos. Uma questão bobinha e babaquinha que jornalistas bobinhos e babaquinhas costumam fazer mas que, no fim das contas, sempre me interessou bastante (ainda mais quando feita para uma banda que, no começo de carreira, se dizia influenciada pelo Weezer).

A resposta do moço foi mais ou menos assim:

– Ih, cara, olha, não sei, vá entender, sabe como é, não é bem assim, não é por aí, é que música, música, música… a gente não se inspira tanto em música, sabe? O que são bandas, o que são influências? Influências? Nossas influências podem estar no cinema, na fotografia, na vida.

(E, antes de ter ouvido finalmente o barulho de uma pauta se espatifando no chão, ainda pensei em perguntar sobre cineastas e fotógrafos, mas preferi deixar quieto).

Quando eles lançaram 4, meu disco favorito do grupo, preferi sugerir a entrevista a outro repórter. Naquela altura, eu já estava conformado com o fato de que o Los Hermanos se mostrava uma banda que se irritava com a idéia de conversar sobre música. No início, estranhei o desinteresse (se eu fizesse parte de uma banda, passaria horas divagando inutilmente sobre o assunto). Depois percebi que as coisas são assim e pronto, confrontá-las seria inútil. E, de fato, cada vez mais o quarteto parecia solto ao vento, largado no mar, pronto para se deixar levar por referências que muitas vezes não cabiam no nome de alguma banda estrangeira ou de algum gênero musical.

Acredito na hipótese de que o Los Hermanos nunca adorou entrevistas por medo de acabar condenado a um rótulo, a uma definição apressada, a um slogan desatento.

O disco solo de Marcelo Camelo leva essa aflição a um degrau acima. Soa tranqüilo, mas não é nada disso. Ouça três vezes e você descobrirá um álbum mais detalhista e aventureiro que qualquer um lançado pelo Los Hermanos. Se 4 representou a ruptura definitiva da banda com as expectativas alheias e com o rock – e, ao mesmo tempo, apontou para o desgaste de um longo relacionamento (hoje, o verso “eu preciso andar um caminho só” soa ainda mais apropriado) -, este Sou/Nós amplia a caixinha de música lírica e introspectiva de Camelo. Mas, surpreendentemente, não tem nada de inocente, de despretensioso.

Sou/Nós (e a ambição começa no título) não é um típico álbum solo. Não é desajeitado, não é um encontro casual, não é um bico de férias. Soa mais como um novo ponto de partida. Cada vez mais seguro daquilo que quer para si, Camelo gravou um disco brasileiríssimo com ecos tanto do novo-folk (em Janta, com Mallu Magalhães) quanto do chamber pop de bandas como Lambchop e do renovado The Sea and Cake (na excelente Téo e a gaivota, que, com participação do Hurtmold, abre o álbum cheia de vãos, lacunas, ruídos e uma melodia em estado de graça). E, sim, um álbum que passa pela MPB, com participações de Dominguinhos (em Liberdade) e uma crônica carioca que lembraria o Chico Buarque dos anos 90/2000 mesmo se não falasse em “velhinhos bons de papo” (a marchinha Copacabana).

Numa primeira audição, os temas do disco nos preparam para uma continuação direta de 4. Camelo ainda canta a solidão (doce ou dolorida), o amor, filosofia à beira-mar (“Acho normal ver a vida feito faz o mar num grão de areia”, diz em Mais tarde) e se afirma com um certo acanhamento decidido (“Eu caminho no tempo que bem entender”, avisa, em Vida doce). Mas, esparramadas num álbum inteiro, sem interrupções, as canções do compositor ganham a forma de um retrato integral, de uma jornada particular. Nada que tenhamos ouvido antes.

Marcelo Camelo está solto. E se este disco às vezes soa como trilha sonora (as versões em piano para Solidão e Passeando) ou como o documentário sobre a gravação de um disco (são vários as arestas soltas entre uma música e outra) ou como um cruzamento de Marisa Monte com Arnaldo Antunes (sem Carlinhos Brown, aleluia), é que ele vê a música de uma forma generosa, permeável. O medo de trair os próprios desejos talvez tenha sido o veneno que contaminou o Los Hermanos, mas taí o resultado da coragem: um álbum novo, um homem por inteiro.

Primeiro álbum de Marcelo Camelo. 14 faixas, com produção do próprio compositor. Zé Pereira/SonyBMG. ***

Um crime americano

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An american crime, 2007. De Tommy O’Haver. Com Ellen Page, Catherine Keener e Hayley McFarland. 98min. (sem estrelas)

A humanidade é sórdida, né? Este filme é mais.

A vilã, interpretada por Catherine Keener, tranca uma adolescente no porão de casa e a submete a uma longa, interminável sessão de tortura. É uma sádica, né? O filme é mais.

Com a desculpa de que filma uma “história real”, o diretor Tommy O’Haver acentua os detalhes macabros de uma tragédia que nos levaria a lamentar o mistério da maldade humana. Mas não quer provocar grandes reflexões – nos momentos mais desagradáveis, o filme faz da trama uma historinha de suspense. Para nos comover, recorre a efeitos sonoros de batidas aceleradas de coração. E uma trilha sonora tensa que encontraríamos em seriados policiais.

Já seria detestável, mas, além disso, O’Haver ilustra os anos 60 com todos os lugares-comuns que encontramos num antigo comercial de tevê. O que é tão horripilante quanto. Saí do cinema um tanto enojado, com a impressão de ter perdido minha noite com uma sessão macabra de Supercine. Depois descobri que, nos Estados Unidos, ele foi exibido apenas na tevê por assinatura. O que faz muito sentido.

De alguma forma, o próprio filme funciona como um argumento bem poderoso para defender essa tese de que o ser humano pode mesmo ser extremamente cruel. A começar por Tommy O’Haver. Medo dele.

Sonho (I)

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Sonhei que eu entrevistava a Mallu Magalhães. Na casa dela. E ela era uma garotinha de cinco anos de idade. Que só sabia falar inglês. Quando falava, soltava ruídos abafados daqueles que a gente ouve em ligações telefônicas de longa distância. Na minha primeira pergunta (sobre a participação no álbum do Marcelo Camelo), ela respondeu com uma pergunta: “who is Marcelo Camelo?”. Depois a mãe da menina chegou – uma moça rechonchuda com bobs no cabelo e uma touca de banho cor-de-rosa – e avisou que a filha precisava descansar. “Ela compõe de duas em duas horas. Essa rotina está virando um transtorno, coitada”, e ainda tentei perguntar por que a mãe falava português perfeitamente (com sotaque do interior de São Paulo!), mas aí acordei com o som dos cachorros latindo quando chega o entregador de jornal.

Novamente Kings of Leon

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Surely, we can do better for the platonic ideal of a rock band than four guys gunning for a spot rightfully inhabited by My Morning Jacket but instead coming up with the best songs 3 Doors Down never wrote.

Escreveram na Pitchfork uma boa resenha sobre o álbum novo do Kings of Leon. Acho que vocês deviam lê-la. Nem que por curiosidade, vai. O primeiro parágrafo é dedicado a uma certa música que está bombando nas paradas. Sabe qual? Então.

São Paulo me diz não

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Quando conheci São Paulo, a cidade parecia até uma antiga lembrança. Era como se eu a conhecesse de algum lugar. De algum filme. De um programa de tevê. De uma peça publicitária. De um canto aí.

E era uma daquelas memórias amareladas (que, na prática, não existem).

Depois de um tempo, feliz com essa estranha sensação de familiaridade, comecei a tratar a cidade como se ela também fosse um pouco minha. Um pouco. 0,001%, o que fosse. Sem ataques de ciúmes, eu. Eu, o carioca da gema debochado inconveniente exilado; eu, o sujeitinho que não sabia mais a que lugar pertencia; eu, órfão de cidade-natal e talvez também de pai. Eu tentei buscar naqueles cruzamentos irregulares alguma espécie de porto seguro. Acinzentado, como manda o clichê, mas agradável.

Não sei se por um momento me senti em casa. Mas aí voltei. Pronto a trocar alianças. E a cidade decidiu, num rompante, colocar nossa relação em pratos limpos: ‘não é bem isso’, ela me disse. Fiz que não ouvi.

Fiquei por aqui, crente de que ela me queria de volta. Ou me quereria de volta, vá saber. Será que quis? Desembarquei com a esperança de reatar o caso antigo, mas ela já me olhava com um certo desdém. Me isolava em quartos de hotel. Me deixava perdido nas ruas tortas. Me soltava no gelo dos quartos sem sistema de aquecimento. Uma rejeição lenta que preferi tomar como um mal-entendido. ‘Você sabe o que está fazendo?’, perguntei. A resposta: silêncio. ‘Você tem absoluta certeza de que vamos terminar tudo? Tão cedo? Não nos conhecemos direito. Foram três ou quatro noites tão intensas, tão felizes-pra-sempre’, ainda tentei, com a persistência que tenho para dar e vender.

Avancei novamente. Repeti um flerte meio envergonhado. Mas depois, nada. A cidade não me quer perto. Prefira que eu não a visite. Não tem tempo. Muito trabalho, afazeres, fazer o quê? Está enrolada, há contas a pagar, louças pra lavar, roupas sujas e essa poeira e o frio que faz nesta época do ano. Está presa no engarrafamento. Está cheia de conhecer gente nova. Precisa de um tempo. Quer folga. ‘Mereço novos ares!’. Está farta. Prefere outro estrangeiro.

Só que eu, eu aqui, eu não cansei. Taí a minha teimosia (uma arma pra te conquistar?). Tento um novo aceno. Que, novamente, esbarra na parede do meu quarto e desaba morto no chão.

Hoje em dia, São Paulo só me diz não.

Glasvegas | Glasvegas

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O primeiro álbum do Glasvegas começa numa arena lotada de gente e termina trancado num quarto escuro. A primeira faixa, Flowers and football tops, é um hino engajado que lembra o U2 de Unforgettable fire. A última, Ice cream van, se arrasta como uma ode dolorida ao My Bloody Valentine.

Isto é: no fundo, este mascote da crítica britânica não destoa muito do Coldplay de Viva la vida. A diferença talvez esteja no fato de que, enquanto Chris Martin organiza essas referências como potes de geléia na prateleira, James Allan mistura os ingredientes num caldo espesso – o que rende um álbum mais uniforme, ainda que não menos previsível.

Talvez para o público de Katy Perry, uma banda como essas – que assume as próprias ambições com convicção, sem medo do ridículo – provocará o efeito de um choque térmico. Mas não para quem conhece (para ficarmos num único exemplo) o Twilight Sad, que vai mais longe nesse sentimentalismo quase histérico (um emocore de gente grande) sob camadas e camadas de distorção. O que esses escoceses fazem, para o bem e para o mal, é reativar o rock-widescreen de ídolos nocauteados como Oasis e Manic Street Preachers.

Ainda que, em alguns trechos, acabem parecendo com o Stereophonics.

A produção de Rich Costey (de Absolution e Black holes and revelations, do Muse) dá à banda um porte monumental – o disco às vezes deixa a impressão de ter sido gravado numa convenção de hooligans enlouquecidos. Nada que fuja do esperado, aliás: este ano, vide Bloc Party e Friendly Fires, a grandiloqüência se faz regra. O que mais interessa, até para variar, é quando o Glasvegas tenta escapar desse tipo de armadilha. Como em Stabbed, que evoca Beethoven para narrar uma crônica sombria de violência juvenil.

Para quem superar a ressaca dessa pompa épica, o álbum revelará alguns hits parrudos, fortes pela forma comovida como são interpretados. Principalmente as duas primeiras faixas, Flowers and football tops e Geraldine. Equivalem a um bom filme de Ken Loach: são quadradinhas, mas que não as acusem de desonestidade.

Primeiro álbum do Glasvegas. 11 faixas, com produção de James Allan e Rich Costey. Columbia. **

O tempo, o vento e o cinema

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Com atraso imperdoável, finalmente fui apresentado a Apichatpong Weerasethakul. Reparem o estrago que o tailandês provocou nas minhas listas de melhores.

Três dos quatro longas-metragens do cineasta passaram na salinha simpática do CCBB aqui de Brasília, na mostra Oriente desconhecido (que só não pode ser chamada de insuperável por dois motivos simplezinhos: faltou o fundamental Misterioso objeto ao meio-dia; e esta terça começa a do Resnais). Mal dos trópicos e Síndromes e um século, ambos pela primeira vez na cidade, foram exibidos em película-graças-a-deus.

Quatro filmes, quatro obras-primas. Sinceramente, eu não estava tão preparado para isso.

Aposto que não fui o único a sair das sessões com a carteirinha do fã-clube. “É o filme mais esquisito que vi na minha vida”, houve quem notasse, abismado com a longa caminhada matagal adentro em Eternamente sua. E não há dinheiro que pague a sensação de acompanhar os ruídos assustados da platéia quando os créditos iniciais do filme irrompem na tela aos 45 minutos de projeção. O início da segunda parte de Mal dos trópicos provocou igual espanto. “Pra onde esse maluco tá nos levando?”, perguntou um sujeito da poltrona à minha frente.

É a pergunta de um milhão de dólares.

Firulas à parte, é um cinema destemido. Que convida o público a adentrar a floresta – não são poucos os que saem de lá estranhamente transformados. Dos quatro (o primeiro dele assisti em DVD), Eternamente sua é o mais suave e mais brutal. Como o diretor consegue encontrar estranheza na aparente simplicidade? Pergunte a outro. O longa persegue um casal de namorados numa tarde de fuga. E é isso. “Sei que você se preocupou demais no trabalho. Por isso pensei em dar uma escapada”, avisa o protagonista. As questões políticas que envolvem esse desligamento da realidade são muitas, e o diretor deixa que elas pulsem fora do quadro. Lá dentro, apenas o retrato de alguns instantes de prazer.

E Mal dos trópicos me parece a maior dessas obras-primas. Um filme que vale pela melhor melodia de Brian Eno. 

Cada longa renderia um texto demorado, então prefiro não cair no erro de simplificar a história toda. Na verdade, desculpem-me aí, ainda não dou conta de abraçar esses filmes.

Numa entrevista, o diretor comenta o desejo de estimular a criação de filmes verdadeiramente independentes num país cujo cinema é controlado por poucos grupos, que detêm o circuito exibidor. Talvez esse contexto ajude a explicar por que o cinema de Apichatpong pareça tão disposto a negar certas convenções (são narrativas descalibradas de propósito) e se deixar influenciar por outras expressões artísticas. À primeira vista, parece um cineasta movido por interesses radicalmente pessoais. Mas aí você assiste a Misterioso objeto ao meio-dia, um documentário de ficção (ou vice-versa) construído com idéias de pessoas comuns, e nota que este é um cinema em constante processo de cooperação, de improvisação. Um cinema que ouve, sente e experimenta o mundo. Que sai para a aventura.

“É transcendental”, ouvi dizerem, ao fim de Síndromes e um século. E também, no fundo, muito simples. O que há de tão exótico no sol vigilante que ilumina o casal de amantes em Eternamente sua ou o vento que balança as árvores em Mal dos trópicos? Os mistérios desses filmes de amor também estão aqui dentro, em nossas vidas.

Ensaio sobre o nevoeiro

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“Está visto que aqui já ninguém se pode salvar. A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.”

José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira. Que renderia uma bela epígrafe pra O nevoeiro.

Meu segredo é que sou rapaz esforçado

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Vi ontem o show do Jards Macalé e foi lindo. Quase ninguém no teatro, mas foi o máximo. Aliás, um constrangimento. Quase ninguém no teatro. Umas dez pessoas. Mas, tirando isso, foi um negócio.

Ele fez uma paródia do Gilberto Gil, imitou o João Gilberto e exigiu que parem de chamar o Galeão de Aeroporto Internacional Tom Jobim (já que, e fica muito engraçado quando ele conta, cada vôo atrasado difama o nome do sujeito).

Aí vim pra casa e ouvi uma fita-cassete que eu gravei quando eu tinha 16 pra 17 anos de idade. Uma tristeza infernal. Mas, no meio do repertório sofrível, encontrei uma musiquinha bonita meio Elliott Smith meio Mallu Magalhães chamada Se você voltar. Não é que, se eu tivesse me dedicado à arte um pouco mais, talvez eu tivesse virado um ídolo indie (mas na época não havia MySpace, daí que dificultava tudo)?

Antes do Macalé vi o Ensaio sobre a cegueira. E fiquei pensando com os botões que não uso: que preguiça de escrever uns muitos parágrafos pra um daqueles textos enfadonhos com foto retangular no topo! E aí pensei no monte de compromissos que tenho e que não interessam a quase ninguém. E que daqui a uns dias entro de férias e ainda estou que nem a heroína daquele filme do Rohmer, feito estátua diante de uma pista larga de areia sem saber pra onde ir.

Como diria o poeta, meu segredo é que 

Ensaio sobre a cegueira

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Blindness, 2008. De Fernando Meirelles. Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga e Danny Glover. 125min. **

Cinco minutos antes de entrar na sala de cinema para assistir a esta adaptação de Ensaio sobre a cegueira, fechei o livro de José Saramago na página 172. Ou seja: eu ainda estava na metade da história, mais ou menos no momento em que os cegos malvados submetem as mulheres infectadas a uma sessão grotesca de tortura sexual.

Até então, o único cineasta que eu imaginaria ser capaz de filmar esse conflito dantesco, essa alegoria escatológica para o fim dos tempos era Pier Paolo Pasolini. Só ele. E à época de Saló.

Mas aí entrei no cinema e tudo que consegui ver foi um filme de Fernando Meirelles. Às vezes, nem isso.

Abro os jornais e está quase sempre lá: se discute o grau de fidelidade com que o diretor de Cidade de Deus traduziu o livro para as telas. As situações foram todas mantidas? Os detalhes mais violentos, preservados? Os personagens continuam mesmo sem nome? E os estupros coletivos, acabaram abandonados na sala de edição? O desfecho foi alterado? O manicômio ainda tem a aparência de um campo de concentração?

Respeito o interesse, mas confesso: não há debate que me entedie mais.

Sim, já que uma adaptação literária sempre será, no máximo, uma adaptação literária. Não é um joguinho tolo de palavras. Um filme inspirado num livro será (e me sinto meio idiota escrevendo isso, já que me parece tão óbvio) apenas uma interpretação para a obra. Nada além disso. A menos que você espere de um filme a simples narração de uma história.

Quer uma prova de como são mundos totalmente diferentes? O Ensaio sobre a cegueira de Meirelles é bastante fiel aos eventos narrados no Ensaio sobre a cegueira de Saramago. Os primeiros capítulos, em que um grupo de anônimos se descobre vítima do “mal branco”, são compilados na velocidade de um teaser. Mas está tudo lá. A narrativa abre com um sinal de trânsito, tal como o livro. Quando o primeiro homem cega, um pedestre avisa que pode ser problema “dos nervos”. São as palavras de Saramago.

Mas, ainda comparando maçãs com tomates, toda a atmosfera de desespero, de desamparo, de angústia que paira sobre o livro acaba minimizada pelo filme. Por que isso acontece? Difícil explicar. Talvez tenha a ver com o fato de que a literatura permite que acreditemos piamente num pesadelo como esse (da forma tensa como sofremos com nossos sonhos). E que as imagens o banalize, reduza seu impacto -para piorar, teremos como referência uma série de outros filmes apocalípticos, como Extermínio ou Filhos da esperança.

Pode ser. Mas digo isso apenas para ilustrar o perigo desse tipo de paralelo entre uma obra e outra. O filme de Meirelles poderia (ou melhor, deveria) andar com as próprias pernas. Não é cobrar muito.

Mesmo seguindo quase literalmente os passos do original, o filme não atinge a intensidade do livro por uma série de razões. Mas me pergunto: por que Meirelles não consegue (e isso me parece mais grave) encontrar o tom para uma trama com a estrutura de uma descida ao inferno? Por que ele não consegue bancar completamente esse premissa, explorá-la em profundidade? Por que ele parece amedrontado por ela?

Durante a produção do longa, Meirelles falou em amaciar a violência do longa para não espantar o público. A opção (não serei eu a dizer se certa ou errada) está lá, colada em cada uma das cenas. As imagens passam uma sensação de assepsia capaz de amenizar o peso até da seqüência em que cegos derrapam nas fezes espalhadas pelo corredor. A fotografia de César Charlone, que embranquece quase todo o filme, é no máximo uma boa idéia – que, além de provocar cansação durante a projeção, acaba empetecando a crueza das situações.

Nesse sentido, é um filme de Fernando Meirelles. Mas eu gostaria de ter visto algo como O jardineiro fiel, em que o diretor precisou se aventurar para além da trama original para encontrar o filme que procurava. Talvez por excesso de reverência do diretor ao escritor, não consegui encontrar o olhar de Meirelles neste Ensaio sobre a cegueira – e muito pouco do de Saramago.

Só vi de relance, nas cenas finais. No desfecho, transparecem tanto a ironia amarga do escritor quanto a esperança desconfiada do cineasta. É um momento de beleza dentro de um filme correto, que cumpre um papel quase burocrático de adaptar uma obra literária (e que, em alguns trechos, parece mesmo o piloto para um novo seriado global-chic de J.J. Abrams).

Ao sair da sessão, continuei a ler o livro de Saramago. Como se nada de extraordinário tivesse acontecido.

Um filme na minha cabeça

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Sempre que me perguntam sobre o início da minha relação estável e duradoura com o cinema, mudo de assunto – é um tema de foro íntimo e que, por isso, não interessa a ninguém. Não vou ficar filosofando sobre as minhas sandálias.

Mas hoje me perguntaram novamente e eu resolvi falar. A conversa de bar virou sessão de terapia e aí, até por razões de economia (eu não teria que pagar a consulta mesmo), vi minha vida passar feito um filme na minha cabeça. E eu nem estava em coma.

‘Qual a importância do cinema pra você, Tiago? De verdade?’

‘De verdade?’, eu perguntei, já que estava pronto pra inventar uma mentira qualquer.

E aí falei a verdade. Que ver filmes era uma atividade freqüente na época em que eu tinha uns 10 ou 11 anos de idade e morava no Rio de Janeiro e tinha um milhão de amigos e ia ao único cinema do bairro assistir aos filmes de kickboxer e de lambada. E que a mudança para Brasília provocou uma ruptura tão brutal nessa história toda que ir ao cinema acabou funcionando talvez, quem sabe, pode ser, entende? como um elo sentimental entre a vida que passei a levar e a vida que eu levava até então. Entre minha rotina solitária em uma nova cidade e algumas lembranças boas de um período anterior.

E que provavelmente por causa disso, desde a minha adolescência, eu entro em qualquer sala de cinema do mundo e me sinto em casa. É um alívio. E fico bem. Mais que uma válvula de escape, o cinema foi, quem sabe?, uma forma que encontrei de continuar me comunicando com uma antiga sensação.

Aí, depois de dizer isso tudo, todas essas bobagens, tanta hesitação e refletir sobre o meu umbigo sujo e acabar me surpreendendo com a minhas próprias conclusões, me perguntaram sobre a necessidade de escrever blogs. 

Mudei de assunto. Por que estava tarde. E já que ninguém merece. 

Everything is borrowed | The Streets

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Há pouco mais de um mês, Mike Skinner anunciou um álbum dark e futurista, inspirado em Berlin, de Lou Reed. É uma pena que os fãs terão que esperar mais algum tempo para ouvir esse disco, que possivelmente se chamará Computers and blues. Mas, se até o próprio Skinner já está interessado em falar sobre o próximo projeto, por que deveríamos nos preocupar com o quarto disco do Streets, Everything is borrowed?

Como uma espécie de antídoto para as lamúrias sobre a vida de celebridade (de The hardest way to make and easy living, de 2006), o novo álbum é definido por Skinner como “otimista e pacífico”. Tudo bem se você também não se entusiasmar muito com a idéia.

Aos 29 anos de idade, aquele que já engoliu a alcunha de “Eminem inglês” hoje parece ter se adaptado do papel de cidadão respeitável. Nos primeiros (ótimos) discos, ele narrava crônicas de uma Inglaterra encardida, que acordava cedo para pegar o ônibus e dormia tarde depois de se esborrachar nos pubs. O hip hop pobretão, gravado no laptop e na raça, combinava com o discurso desiludido-mas-sacana de uma jovem classe operária, sem passe para o paraíso.

Os discos do Streets perderam em urgência quando Skinner se afastou do próprio universo. A inevitável fase de crescimento (e de gastança) o colocou num beco sem saída. Quem se identificaria com as preocupações de The hardest way to make an easy living, que parece se comunicar apenas com novos ídolos pop inconformados com a futilidade do high society? Em Everything is borrowed, Skinner tenta resolver o problema com versos genéricos, com uma poesia censura-livre, politicamente correta. Mais uma vez, sem sabor.

“Vim para este mundo com nada, e o deixarei com nada além de amor. Todo o resto peguei emprestado”, ele cantarola na faixa de abertura, que tem doçura de um hit de Kanye West, mas deve agradar em cheio aos fãs de James Blunt. “Não é o planeta que está em perigo, mas as pessoas que vivem nele”, continua, em The way of the Dodo. Entre um panfleto bem-intencionado e outro, narra a historinha de um sujeito que fará de tudo para levar a moça pra cama. E compõe um hino de torcida de futebol sobre como deve ser legal viver no inferno (por causa das companhias, claro).

Business as usual. E que venha o quinto álbum.

Quarto álbum do Streets. 11 faixas, com produção de Mike Skinner. 679 Recordings/Vice Records. *

Procura-se

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Baixista, baterista e vocalista para formar banda de power pop com influências de New Pornographers, Phoenix e Jonas Brothers.

(E que não tenham vergonha de interpretar uma versão sujinha de I kissed a girl.)

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