Aquela velha canção

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Estou convencido: nenhum texto, nenhum comentário, nada consegue me preparar para a experiência de assistir a um filme de Alain Resnais.

É um cinema que não se descreve, se vê.

Ontem assisti a Amores parisienses. Estou maravilhado até agora. É que eu esperava encontrar esse ou aquele filme, e o cineasta – que já se definiu como o mau aluno da classe, que nunca cumpre os deveres da forma como queremos que cumpra – me entregou outra coisa. 

E, teoricamente, eu estava preparado para o filme. Li a sinopse, as críticas. Sabia que o diretor tomava emprestado um recurso do inglês Dennis Potter, em que atores dublam canções populares. Ouvi falar que era um dos “mais leves” (e, para alguns, “mais tolos”) do cineasta. O que encontrei foi, simultaneamente, um dos filmes mais experimentais e mais afetuosos de Resnais.

Não me pergunte como isso acontece. No caso, só vendo. Há textos excelentes sobre ele, mas nenhum dá conta do choque provocado por uma narrativa que alterna freneticamente momentos em que nos distanciamos e nos aproximamos dos personagens. Talvez essa não seja a função da crítica, a de transcrever sensações. Como isto aqui não é uma crítica nem nunca vai ser, me sinto bem livre para perguntar: como explicar os momentos em que os personagens fazem karaokê com melodias alheias como quem sintoniza uma estação ultrapassada de rádio? E o modo abrupto com que essas canções são interrompidas, às vezes com dez ou quinze segundos de interpretação? Não dá. Fica parecendo mais um musical. Pior: fica parecendo muito banal, descartável.

Resnais fez um filme sobre a forma muito particular como canções pop às vezes traduzem nossos sentimentos. A música, no filme, é a voz do inconsciente, da alma dos personagens. Talvez por isso o longa seja tão desdenhado pelos fãs do cineasta, que preferem um Resnais ou francamente emotivo (Medos privados em lugares públicos) ou explicitamente provocador (Na boca, não). Amores parisienses é o encontro desses dois mundos. A fusão dos elementos. Com faíscas e tudo.

3 comentários em “Aquela velha canção

    Lucas Mayor disse:
    setembro 26, 2008 às 4:09 pm

    Você conseguiu ver Na boca, não? Se sim, o que achou?

    Tiago respondido:
    setembro 26, 2008 às 4:52 pm

    Consegui. Gostei bastante, é um filme no nível do Medos privados e do Amores parisienses. O Resnais se inspira numa opereta dos anos 20 e acaba dialogando com os musicais de Hollywood. É bem bacana.

    Érico disse:
    setembro 26, 2008 às 5:54 pm

    É melhor que Hirshima Mon Amour. Mas eu gosto de todos os filmes dele, assisti quase a totalidade, adoro essas experiências mais “descompromissadas” como Smoking/No Smoking, é uma espécie de sofistificação do Kitsch.

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