Um filme na minha cabeça

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Sempre que me perguntam sobre o início da minha relação estável e duradoura com o cinema, mudo de assunto – é um tema de foro íntimo e que, por isso, não interessa a ninguém. Não vou ficar filosofando sobre as minhas sandálias.

Mas hoje me perguntaram novamente e eu resolvi falar. A conversa de bar virou sessão de terapia e aí, até por razões de economia (eu não teria que pagar a consulta mesmo), vi minha vida passar feito um filme na minha cabeça. E eu nem estava em coma.

‘Qual a importância do cinema pra você, Tiago? De verdade?’

‘De verdade?’, eu perguntei, já que estava pronto pra inventar uma mentira qualquer.

E aí falei a verdade. Que ver filmes era uma atividade freqüente na época em que eu tinha uns 10 ou 11 anos de idade e morava no Rio de Janeiro e tinha um milhão de amigos e ia ao único cinema do bairro assistir aos filmes de kickboxer e de lambada. E que a mudança para Brasília provocou uma ruptura tão brutal nessa história toda que ir ao cinema acabou funcionando talvez, quem sabe, pode ser, entende? como um elo sentimental entre a vida que passei a levar e a vida que eu levava até então. Entre minha rotina solitária em uma nova cidade e algumas lembranças boas de um período anterior.

E que provavelmente por causa disso, desde a minha adolescência, eu entro em qualquer sala de cinema do mundo e me sinto em casa. É um alívio. E fico bem. Mais que uma válvula de escape, o cinema foi, quem sabe?, uma forma que encontrei de continuar me comunicando com uma antiga sensação.

Aí, depois de dizer isso tudo, todas essas bobagens, tanta hesitação e refletir sobre o meu umbigo sujo e acabar me surpreendendo com a minhas próprias conclusões, me perguntaram sobre a necessidade de escrever blogs. 

Mudei de assunto. Por que estava tarde. E já que ninguém merece. 

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5 comentários em “Um filme na minha cabeça

    Samir disse:
    setembro 14, 2008 às 12:02 am

    Cara, não nos conhecemos, mas acompanho esse blog todo dia já faz mais de ano – ou pelo menos desde a versão anterior dele. E não sou muito de comentar. Mas preciso dizer que esse é um dos melhores textos que já li, sobre a relação que se cria com o cinema. No final, é menos uma sensação de qual a história que se conta, mas qual a sensação que o filme passa. Metade (ou mais) da crítica não se toca disso. Abraço.

    Tiago respondido:
    setembro 14, 2008 às 12:59 am

    Valeu, Samir.

    O engraçado é que eu estava lendo agora um debate que rolou na Contracampo por volta de 2002 sobre crítica de cinema. Sobre o papel da crítica. São textos muito duros, alguns muitos interessantes (infelizmente não vou poder pegar o link agora, estou um pouco atrasado pra um show). Aí tem uma enquete com vários críticos e uma das perguntas é essa, sobre a relação do crítico com o cinema. E ninguém assume essa ligação sentimental que existe com o simples ato de entrar numa sala de exibição e ver um filme. Comigo essa relação sempre foi muito forte, lembro de grandes sessões da minha adolescência (elas renderiam uns 20 posts), mas não sei se acontece com muita gente.

    Mas não sei se o texto deixou isso claro: essa ligação é uma experiência anterior aos filmes, a qualquer filme. Claro que, quando se vê um filme e se comenta sobre ele, são outros os argumentos em jogo. Para quem escreve sobre o assunto, é preciso ver ler, pesquisar etc. Não é nada tão transcendental quanto talvez eu tenha deixado transparecer.

    De qualquer forma, eu estava lendo o comentário do Bruno sobre o texto do ‘Ensaio sobre a cegueira’, que ele classifica como ‘crítica’. Não sei, discordo, acho que neste blog o máximo que existe é um monte de observações desencontradas e apressadas sobre filmes e discos e, no fim das contas, é tudo uma desculpa pra que eu escreva sobre meus conflitos, minhas experiências, a forma essas coisas me ajudam a amadurecer (se é que estou amadurecendo), a ser uma pessoa melhor. Tudo muito egocêntrico. Não quero banalizar a crítica. Não escrevo críticas neste blog.

    Tiago respondido:
    setembro 14, 2008 às 1:00 am

    Ah, e eu já conhecia seu blog. É bem bacana.

    Thais Ninomia disse:
    setembro 15, 2008 às 5:02 pm

    Tiago,

    Acho que para as pessoas que têm um gosto especial pelo cinema, o prazer de se sentar numa sala de projeção vai além de um divertimento de duas horas com cheiro de pipoca. Ele, o cinema, acaba por se confundir com a fato de se estar neste turbilhão de acontecimentos que é a vida, seus dramas, suas comédias, suas narrativas nem sempre lineares.

    Adorei a sua tentativa de explicar a sua relação com o cinema. Digo “tentativa” não porque você não soube explicá-la. Muito pelo contrário. Seus textos são sempre muito bons. Digo “tentativa” porque, como você disse no início, é um “tema de foro íntimo” e, por mais que se tente expressar questões de “foro íntimo” para as outras pessoas, é provável que não se faça jus ao que de fato se sente.

    Seja como for – e talvez por ter um gosto especial pelo cinema também –, fui cativada pelo sentimento genuíno que reverbera o seu texto.

    Abraço,

    Thaís

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 15, 2008 às 5:37 pm

    Valeu, Thaís, obrigado! Foi uma tentativa mesmo, você está corretíssima.

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