Dear science | TV on the Radio

Postado em Atualizado em

Se os álbuns do TV on the Radio são contos de fadas doentios, então Dear science é o capítulo em que Alice, depois de quase se afogar nas próprias lágrimas, encontra uma forma de nadar até a terra.

Nas histórias narradas pela banda, ainda existe raiva e amargura. Desta vez, porém, eles tentam encontrar uma estratégia sublime para sobreviver ao caos.

Mas é apenas uma tentativa. Eu, que já ouvi o disco umas dez vezes, ainda não consigo encontrar nele uma obra-prima. E desisti de tentar. Se existe uma marca nesta banda – e por isso trata-se de uma espécie de mascote da crítica -, ela está na forma como ela transforma cada disco num laboratório de idéias, numa lista de possibilidades, num bloco frenético de anotações que talvez não dê em nada. O processo, para o TV on the Radio, conta mais que o resultado.

Por isso, são álbuns incompletos. Lembro da minha decepção com a segunda metade de Return to cookie mountain, que simplesmente não parecia conversar com o início do disco. Era como se as primeiras faixas, grandiosas e redondinhas, aos poucos se desintegrassem em ácido. Em Dear science, o procedimento se repete: novamente, fico com a impressão de que Tunde Adebimpe e Dave Sitek começaram o álbum sem saber como o terminariam.

E isso só será um problema se você quiser assim.

Os álbuns do TV on the Radio não soam coesos. Não soam comedidos. Não soam econômicos. Em compensação, convidam o ouvinte para abandonar os preconceitos e ser carregado por uma aventura. Esse desejo exploratório move Dear science. Daí a idéia que existe por trás do título do disco, uma carta endereçada à ciência com uma defesa dos instintos, de tudo o que não pode ser explicado racionalmente. Para nossa sorte, a banda ainda se move ao sabor da vontade de juntar um ruído com outro, uma melodia ruidosa com um verso delicado, uma referência de Michael Jackson com outra de David Bowie.

Pode parecer um clichê, mas poucas são as outras bandas de rock que colocam em prática a idéia de um laboratório pop (muitas também tentam, mas ao tentar se afastam do pop, caso do Animal Collective). Nem o próprio Bowie, que desenhava racionalmente o conceito dos próprios álbuns, operava nessa freqüência.

Não é um método tranqüilo. Existe um conflito no TV on the Radio que finalmente se faz explícito em Dear science. Para a banda, o maior desafio é se dedicar a um rock percussivo e psicodélico sem se deixar soterrar pelas camadas de efeitos arquitetadas por Dave Sitek – que, quando solto de amarras, ornamentou um bolo de noiva para Scarlett Johansson. É como se, para cada novo ingrediente adicionado ao som da banda, um outro tivesse que ser limado para evitar indigestão.

É essa busca por um equilíbrio possível (mas nada cômodo) que faz de Dear science o disco mais arriscado deles até agora. E talvez o melhor. Apesar de não apresentar canções tão imediatas ou memoráveis quanto as de Return to cookie mountain (não tem outra Wolf like me nem outra Province), o álbum joga o tempo todo com contrastes que, para a banda, sempre foram essenciais. De um lado, o transe de Halfway home (que, no refrão, lembra o clima desiludido do Radiohead de Ok computer) e de Crying. De outro, canções introspectivas e belíssimas como Family tree e Love dog, que chegam a lembrar os também nova-iorquinos do The National.

Aqui o TV on the Radio tenta de tudo – do afro-punk de Red dress ao drum ‘n’ bass, no finalzinho de Shout me out -, mas de forma a travar um diálogo cada vez mais direto com o público. Todo o início de Shout me out, por exemplo, poderia servir de trilha para seriado de tevê. Já Dancing choose é rock paranóico que parece mandar um aceno para o R.E.M. de It’s the end of the world as we know it. Golden age reforça as influências de soul music, mas é como se esse elemento merecesse finalmente espaço para sair da sombra de um paredão sonoro e se destacar.

Esse flerte com a delicadeza aparece também em letras como as de Lover’s day, que soa como uma confissão íntima dividida com o público. “Vou levar você para casa”, promete Tunde. É, não à toa, a última frase de um disco que começa a meio-caminho do lar. Depois de uma viagem cansativa por caminhos extraordinários, o TV on the Radio descansa a cabeça no travesseiro. O destino da próxima aventura? Aposto que até eles fazem questão de desconhecer.

Terceiro álbum do TV on the Radio. 11 faixas, com produção de Dave Sitek. 4AD/Interscope. ****

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15 comentários em “Dear science | TV on the Radio

    Diego disse:
    setembro 10, 2008 às 10:44 pm

    Ae, eu estava errado! Belo texto, Tiagão. Só discordo de uma coisa: há uma meia dúzia de canções grudentas aí, a começar por Halfway Home. É difícil ver coesão nos discos dos caras, mas numa escala que medisse esse tipo de coisa, “Dear Science” provavelmente estaria em primeiro lugar.

    Tiago respondido:
    setembro 10, 2008 às 11:17 pm

    Só acho que há uma grande distância entre ‘Golden age’, por exemplo, e ‘Family tree’.

    Tiago respondido:
    setembro 10, 2008 às 11:18 pm

    Puts, agora estou pensando aqui nos outros discos… Sim, talvez o Dear science seja o mais coeso, mas ainda assim eu não consegui prever como seria a faixa que viria a seguir.

    Rodrigo disse:
    setembro 10, 2008 às 11:35 pm

    Ainda tô digerindo, mas também gostei muito, apesar de não achar que seja tão bom quanto o Cookie Mountain. É com certeza uma das bandas mais interessantes da atualidade, fácil.

    Tem umas três canções que eu acho que são até do mesmo nível de uma Wolf Like Me (que não é a minha favorita do Cookie, aliás): Halfway Home, Golden Age e Lover’s Day. Elevam o disco prum outro nível.

    Tiago respondido:
    setembro 10, 2008 às 11:54 pm

    Mas mesmo essas, se vc for notar, não são tão imediatas assim. Digo isso pq, mesmo depois de ter ouvido o disco muitas vezes e ter gostado bastante dele, não consigo me lembrar de muitas das músicas (não vejo nada no álbum como exatamente grudento). A digestão tem que ser lenta mesmo.

    Diego disse:
    setembro 10, 2008 às 11:59 pm

    Ah, isso é absurdamente relativo, né? Halfway Home e Family Tree grudaram da primeira vez em que ouvi.

    Tiago respondido:
    setembro 11, 2008 às 12:05 am

    Sim, vc tá certo. Absolutamente relativo.

    Não é ciência exata.

    Daniel Pilon disse:
    setembro 11, 2008 às 12:43 am

    Belo texto, mesmo. Mas, pelo menos por aqui, umas 3 ou 4 grudaram sim. Principalmente Shout me Out. Para confirmar que não é uma ciência exata, hehe.

    Tiago respondido:
    setembro 11, 2008 às 12:56 am

    É uma das minhas três favoritas do disco, Pilon.

    As outras: Halfway home e Family tree.

    Érico disse:
    setembro 11, 2008 às 8:35 pm

    É o melhor álbum do ano, mas eu não tô dando pulos de empolgação.

    Rodrigo disse:
    setembro 11, 2008 às 10:53 pm

    Algumas também grudaram na minha cabeça. Você tá sozinho, Tiago, haha.

    Tiago respondido:
    setembro 12, 2008 às 2:06 am

    Juro que agora, depois de ouvir o disco mais algumas vezes, ainda não consigo assobiar nada. Talvez o refrão do Family tree.

    johnny_pt disse:
    outubro 7, 2008 às 4:06 pm

    Meu amigo, não concordo com o texto que colocou. Pelo menos se apenas se referir a este album. Mas quando o senhor disse que nem o David Bowie conseguia dar um conceito aos seus albuns, mesmo sendo ele que os designava, percebi o tipo de crítica que o senhor quis transmitir: o problema aqui não é o Dear, Science dos TVOTR. O problema aqui são todos os albuns comerciais sem essencia e que são feitos com meia dúzia de palavras, uma duzia de acordes e uma mera produção.

    Na minha opinião, essa crítica seria boa caso fosse falada no geral, porque, para mim, Dear, Science foi um album que me agradou imenso.

    Sem mais assunto de momento, espero ter expressado bem a minha opiniao.

    Tiago respondido:
    outubro 7, 2008 às 4:17 pm

    Você entendeu errado, Johnny. Eu não escrevi que o David Bowie não conseguia dar um conceito aos seus álbuns, pelo contrário – escrevi que o TVOTR dá saltos no vazio que nem o Bowie dava (justamente por amarrar muito bem o conceito dos álbuns dele).

    E não acho que Dear Science seja um problema: gosto bastante do disco.

    Ricardo Tanabi disse:
    novembro 17, 2008 às 1:41 pm

    Caros apreciadores do TVOTR,

    Li sobre a banda numa nota na revista Rolling Stones, e estou muito afim de conhecer o som. Li os comentários e fiquei na dúvida em qual disco aquirir para ter um primeiro contato com o som. Sou meio antiquado e ainda mantenho o hábito de ter os CDs originais. Nesse sentido qual dos 2 seria mais digerível? Dear Science ou Cookie Montain?

    Abs

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