THAT LUCKY OLD SUN | Brian Wilson

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Quem não se emociona ridiculamente com as harmonias vocais de Brian Wilson que atire a primeira tangerina.

Ok, parem com as tangerinas. Eu, que ainda molho minha cuequinha quando ouço as harmonias vocais de Brian Wilson, me sinto mais solitário dia após dia. Guess I just wasn’t made for these times.

Mas vá lá, para alguém que foi educado musicalmente pela cartilha de Pet sounds (sou da geração que descobriu o clássico no lançamento em CD, então para mim sempre soou como o melhor álbum dos anos 90), Brian Wilson é o maior dos deuses falhos, o mais adorável entre os anti-heróis americanos. E aí não importa que, durante os shows, ele permaneça lá, estático, meio aéreo e apático diante de um teleprompter. A vida é dose, e Brian parece ter sobrevivido a ela.

Quando o beach boy finalmente concluiu Smile, em 2004, pouca gente acreditou no que ouviu. Pra dizer a verdade, eu ainda não acredito. Depois de quase ter sido mastigado e cuspido pela loucura, nosso salvador conseguiu o feito de criar uma obra-prima a partir de cacos de uma obra-prima. Ops. No mesmo ano, porém, lançou um disquinho medíocre que funcionou como um banho de realidade: Gettin’ in over my head era o típico Brian Wilson solo, quase tão frustrante quanto o típico Paul McCartney solo.

That lucky old sun é, sim, um típico Brian Wilson solo. Mas, ao se deixar renovar pela fome criativa de Smile, o surfista blindado conseguiu finalmente dar forma a obsessões que nunca soaram tão antigas. É, de verdade, o melhor álbum de Wilson desde Surf’s up (1971). O problema é que, produzido em 2008, o resultado parece fincado num passado muito distante.

O que significa o seguinte: quem não se emociona ridiculamente com as harmonias vocais de Brian Wilson e não sente nenhuma falta dos Beach Boys tratará o álbum com certo desprezo. Será inevitável. That lucky old sun parecerá até bastante óbvio: bronzeado artificialmente, excessivamente reverente a uma estética sessentista, mais uma declaração de amor à Califórnia, um resumo-da-ópera forjado com algumas décadas de atraso. O pior, para o fã, será reconhecer que o disco é também tudo isso.

Também. Quem conhece a trajetória de Wilson sabe que a egotrip é mais importante que isso – e não tem (quase) nada de oportunista. Para Wilson, That lucky old sun é quase um testamento. Em 17 faixas, há lembranças de praticamente toda a carreira dos Beach Boys – principalmente da fase pós-Smile, de álbuns descansados como Wild honey (1967) e Sunflower (1970). Até os momentos constrangedores (como Mexican girl, que parece uma daqueles odes femininas do Roberto Carlos traduzidas pro inglês) fazem sentido num ciclo de canções pontuado por delírios do antigo parceiro Van Dyke Parks.

Quem não é fã que pule logo da canoa – ou salte para a faixa 12, Oxygen to the brain. A partir daí, o passeio à beira da praia se transforma em um flashback não menos que comovente, com versos sobre páginas rasgadas, capítulos perdidos, surtos de melancolia, ídolos pop que tomam o caminho errado e saudades do tempo em que a maior das vontades de Wilson era poder formar um grupo vocal com os irmãos. “Todas essas pessoas me fazem sentir tão sozinho”, confessa. Ah, se fosse fácil. Been too long, um corinho curto, é de cortar o coração em cinco pedaços.

É uma história triste, triste, triste, um filme de Wes Anderson. Mas você só vai perceber isso lá pela quinta audição de That lucky old sun. Até lá, este parecerá um dos álbuns mais brandos, mais inofensivos e amarelados do ano. Aos 66 anos, Brian Wilson ainda sonha sozinho, ainda habita um planeta de sabão, ainda celebra a inocência sem fim. Vai ver não sofria de um simples mal de juventude.

Oitavo álbum solo de Brian Wilson. 17 faixas, com produção de Brian Wilson. Capitol Records. ***

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6 comentários em “THAT LUCKY OLD SUN | Brian Wilson

    Daniel Pilon disse:
    setembro 5, 2008 às 8:36 pm

    Eu não tava achando grande coisa no começo, mas depois passei a gostar. E Forever My Surfer Girl me causa esse tipo de emoção que você citou.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 5, 2008 às 8:40 pm

    Nas primeiras audições também não gostei muito. Depois melhorou.

    Filipe disse:
    setembro 7, 2008 às 5:05 am

    Os solos do Wilson costumam ser melhores do que as criticas que recebem, o Imagination foi a melhor compra em promoção de 7 reais que eu já fiz hehe

    Tiago respondido:
    setembro 7, 2008 às 12:35 pm

    Gosto de Imagination. Mas nem tanto. Acho que o problema dos solos do Wilson é a forma como são produzidos: é tudo muito estéril. Esse novo resolve um pouco isso, até pq o Wilson se deixou guiar por uma turma de músicos que, antes de mais nada, é fã dos Beach Boys e faz tudo pra reproduzir a sonoridade dos anos 60.

    Ronivon Rocha disse:
    novembro 20, 2008 às 12:59 am

    Sou fã do Brian, mas confesso que quando ouvi o disco pela primeira vez nao gostei. Depois, uma ouvidinha aqui outra ali, aquele som começou a parecer muito íntimo. Os detalhes dos vocais, as sobreposições, as letras, enfim, tudo começou a fazer sentido.
    E na entrevista que concedeu à revista Rolling Stone ele declarou que sabe que não há muito tempo pela frente, talvez por isso o disco tenha esse clima de celebração da vida e de declarar amor a sua terra.
    Atualmente a minha preferida é “Midnight’s Another Day”.
    Já estou encomendando o CD que vem com um DVD com o Making of.
    No final das contas, é um baita disco!

    Leonardo disse:
    março 15, 2010 às 12:28 pm

    Fantástico; Genial ; Impagável ; Emocionante…..etc…

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