Superoito nos palcos da vida

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Em Brasília só se fala no festival de teatro – é o mais importante da cidade, são trocentas peças estrangeiras, badalação em todo canto. Mas diz aí: quem precisa dos palcos quando se tem um grupo social, uma tribo, uma tendência, uma agremiação, uma torcida, uma galerinha, um bando, uma entidade esquisita que apelidarei carinhosamente de Povo do Teatro? Aliás, quem precisa de teatro quando se tem o Povo do Teatro?

Para fazer parte do Povo do Teatro, ninguém precisa dirigir peças, cuidar de figurinos, sacar tudo sobre iluminação ou ter alguma experiência na arte da interpretar. Basta querer fazer parte do Povo do Teatro. É um processo bem democrático, acreditem. Se você quiser ser um dos integrantes desse vasto tecido humano que chamamos de Povo do Teatro, é só se impôr, marcar território. Simples, entendeu? Claro que, depois de optar por participar do Povo do Teatro, algumas regras serão seguidas por livre e espontânea vontade (já que o Povo do Teatro é muito livre e espontâneo).

No Povo do Teatro, tem estudante de Artes Cênicas, cabeleireiro, artista circense, funcionário público, atendente de telemarketing e gente de todas as etnias e profissões e orientações sexuais e time de futebol, já que a vida é um palco – e, nesse palco, sempre cabe mais um.

Onde encontrar o Povo do Teatro? Eis a questão. Durante o festival, indico o Museu da República – aquele prédio ovalado e branco ao lado da Catedral. Toda noite, aquele espaço muito espaçoso se transforma no bunker do Povo do Teatro. Eles se reúnem para comer empada, ouvir música eletrônica e curtir happenings (o hobby preferido do Povo do Teatro, diga-se).

Estive lá nas noites de quinta, sexta e sábado. Não me perguntem o motivo. Eu, que não faço parte do Povo do Teatro, deveria ter caçado algo mais produtivo e (como eles gostam) criativo para fazer. Pois bem: lá estava eu. Só consegui assistir a uma peça do festival (um happening alemão meio reality show meio candid camera meio fashion meio bullshit), mas não me penalizei por isso. No Museu da República, ao ar livre e de graça, pude assistir ao espetáculo mais movimentado da temporada. Cortesia do Povo do Teatro.

Quando eu estava prestes a dar uma mordida na minha empada de camarão, o show começou. Um sujeito despreparado (coitado, não fazia parte do Povo do Teatro) foi abordado por uma linda loura que, mal sabia ele, era uma entre tantas atrizes da multidão. Digamos que a moça tenha se insinuado para o rapaz (a classificação indicativa deste blog é livre, mas na verdade ela já chegou encoxando o moço). Digamos que, depois de um rapidíssimo início de relacionamento (beijos na boca e mão na bunda, para bom entendedor), uma rapariga morena partiu para cima do homem (que, nessa altura, já estava se achando o mais sortudo do planeta). Ele chegou a acenar para a loura com um envergonhado “você se importaria se eu também avançasse na sua amiga?” Com a permissão concedida, iniciou-se o menage.

Depois de beijar uma e outra, duas ou três vezes, com e sem língua, o sujeito descobriu que as duas eram amigas muito próximas que gostavam muito de se beijar. Ele ficou um pouco atormentado com aquela cena à Cine Privê, as duas se abraçando e se atracando e dançando forró, mas decidiu tentar a sorte assim mesmo. Azar o dele: logo foi abandonado pela dupla de performers. Mal sabia ele que estava participando de um quadro em uma espécie de show de variedades. “Não vá se engraçar com o Povo do Teatro“, aconselharia a mãe do rapaz.

O Povo do Teatro não quer saber de compromisso. Quer mesmo é dançar. Nunca vi tanta gente dançando junto. Nem no Chega de saudade, nem no Vem dançar comigo, nem no Faustão. E todos dançam incrivelmente bem. Num determinado momento, o DJ mandou uma salsa. Me senti num musical latino. No instante trance, parecia que eu tinha caído em Ibiza. O Povo do Teatro exibia acessórios coloridos que brilhavam no escuro. Quando um grupo de folclore nordestino entrou em cena, formou-se uma grande roda de maracatu. Eu quase aplaudi de pé.

Aí inventaram de me apresentar a uma amiga de uma amiga de uma amiga da minha namorada – e ela, como não?, fazia parte do Povo do Teatro. Qual não foi minha surpresa quando percebi que a atriz me tirou para uma cena naquele tom afobado e exagerado que companhias amadoras usam para interpretar Hamlet. Fiquei sem saber como agir. Perdidinho. Tentei soar o mais real, o mais eu-mesmo possível. Tossi, deixei frases pela metade, disse um texto tosquíssimo no estilo “vou lá pegar um guaraná diet” – algo que nem o Mário Bortolotto escreveria. Naquela hora, ninguém podia dançar ao ar livre, já que estava chovendo (depois de meses e meses de seca). Isolados num cercadinho, todos decidiram improvisar, armar esquetes curtos, desenvolver pocket shows e elaborar sugestões de stand-up comedies.

Me incomodei. Não entendi o que era aquilo. E aí fui para casa. A vida é um espetáculo, eu sei, mas nesse ponto sou neo-realista. Sou quase um documentário. E taí meu ponto fraco, culturalmente falando: odeio teatro interativo.

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4 comentários em “Superoito nos palcos da vida

    SEMIONATO disse:
    setembro 2, 2008 às 5:21 am

    muito bom. seu portugues é impecavel, quer ser revisor freela da nova fronteira?

    Tiago respondido:
    setembro 2, 2008 às 10:30 am

    Puts. Não?

    Eu já acho que tem muito erro de português no blog, mais do que eu gostaria. É esse o problema de se escrever na pressa, entre uma coisa e outra, sem tempo pra absolutamente nada. Sabe aquela frase, acho que do John Lennon, sobre a vida ser o que acontece enquanto fazemos planos? Pois bem, este blog é o que acontece enquanto faço planos.

    Ed disse:
    setembro 2, 2008 às 2:27 pm

    Tiago, você ouviu o novo disco de Brian Eno & David Byrne?

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 2, 2008 às 4:29 pm

    Ainda estou ouvindo…

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