O NEVOEIRO

Postado em Atualizado em

The mist, 2007. De Frank Darabont. Com Thomas Jane, Laurie Holden e Marcia Gay Harden. 125min. ***

O nevoeiro é um filme B estúpido – filmado com a gravidade de uma tragédia grega. As primeiras cenas são narradas com o desleixo de um episódio de soap opera. A partir do momento em que a névoa do mal se instala ao redor dos personagens, cada cena será levada ao limite daquilo que o espectador chamaria de bom senso, cada personagem coadjuvante será enxergado com a lente do exagero. Em muitos trechos (e lá vou eu torrar minha reputação novamente) me lembrou a atmosfera de angústia e isolamento construída em Possuídos, de William Friedkin.

Mas O nevoeiro não é a típica atração de mostra paralela de Cannes: Frank Darabont não pode fugir de alguns elementos que esperamos de uma fita de terror inspirada em Stephen King. Daí os seres gosmentos, as explicações furadas (uma porta se abriu numa outra dimensão, que tal?), o uso meio exibicionista de efeitos visuais – e são tantos os tipos de monstros que a produção poderia ter criado uma série de brinquedos inspirada naqueles insetos anabolizados.

São as limitações que existem nesse tipo de projeto. Mas, com uma habilidade que não vi em nenhum outro filme dirigido por ele, Darabont desenvolve uma premissa absolutamente óbvia – que lembra fitas de zumbi ou Guerra dos mundos ou qualquer outra variação do gênero – como quem se coloca na posição dos personagens: cercados por neblina, eles não enxergam a um palmo dos olhos. Estão condenados a uma aventura de auto-destruição.

A conclusão, sombria como poucas, explica o desprezo com que o filme foi recebido nos Estados Unidos. E a seqüência final, que pode ser interpretada como uma espécie de jogada cruel e babaquinha do roteirista, me parece coerente com o tema central do filme: o desespero dos que não conseguem enxergar boas perspectivas quando engolidos por uma névoa de horror que tudo domina.

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13 comentários em “O NEVOEIRO

    Diego disse:
    setembro 1, 2008 às 3:22 am

    Lembro nada dos monstros, mas lembro bem dos personagens. Melhor assim. (também não lembro nada nada de gravidade alguma no começo)

    Achei o texto meio confuso, mas creio que entendi seu ponto.

    Diego disse:
    setembro 1, 2008 às 3:23 am

    E, bom, como parábola política, é bem incisivo.

    Acho injusto descartar esse componente do filme porque, sei lá, desde 11/09/2001 toda e qualquer produçãozinha besta parece ter algo a falar sobre política. Mas, se for pra tocar no assunto, que seja assim, John Carpenter style, não como Michael Moore ou Paul Haggis.

    Érico disse:
    setembro 1, 2008 às 5:21 am

    Esse negócio da névoa deve ser realmente horrível.

    Tiago respondido:
    setembro 1, 2008 às 10:09 am

    O que eu disse, Diego, é que o começo é narrado com desleixo. E só.

    Você não lembra dos monstros? Dos insetos batendo no vidro? Dos insetos na farmácia? Dos tentáculos?

    Sim, pode ser tomado como parábola política. Mas também como uma série de outras coisas.

    Érico disse:
    setembro 1, 2008 às 5:30 pm

    Pela sua crítica eu lembrei exatamente de O Apanhador de Sonhos, não por acaso também adaptação de Stephen King. Só que o filme é muito ruim (fora os 15 minutos iniciais, até a cena do banheiro).

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 1, 2008 às 5:33 pm

    Então realmente meu texto tá confuso: acho Apanhador de sonhos bem fraco.

    Érico disse:
    setembro 1, 2008 às 8:33 pm

    Não tá confuso, deixa eu explicar melhor: identifiquei os elementos do King nos filmes, os monstros, as explicações forçadas… isso tudo tem no Apanhador de Sonhos, provavelmente porque são adaptações do mesmo autor!

    Já a parte ‘metafórica’ do filme, da névoa com política, etc, que acho que é o que você gostou neste aí, não tem no Dreamcatcher, que tinha a pretensão de ser um filme de horrore só (e acabou por um trashão mesmo).

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 1, 2008 às 8:35 pm

    Eu nem tinha me apegado às metáforas políticas, como o Diego notou. Só pensei nessa idéia mais geral do medo do desconhecido, do pânico provocado pela falta de perspectivas.

    Érico disse:
    setembro 2, 2008 às 12:48 am

    Ok, que seja.

    Leonardo Bernardes disse:
    setembro 2, 2008 às 4:35 am

    Não acho que o filme tenha qualquer conteúdo político — embora, evidentemente, possa ser mobilizado para isso. Ele tem sim um enorme cunho psicológico e nisso é singular.

    Fiquei impressionado como o desenvolvimento, com o extremismo e suas consequências. Achei fascinante e escrevi sobre. Realmente a falta de perspectiva é uma peça chave, mas o núcleo é como essa situação pode ser “contornada”, manipulada de sorte a restituir a ordem — ainda que num outro plano.

    Tiago respondido:
    setembro 2, 2008 às 10:32 am

    Concordo que o conteúdo político não seja explícito, mas acho que dê pra interpretar dessa forma sim.

    rafaéu disse:
    setembro 8, 2008 às 4:27 pm

    Na saída do cinema ontem
    Garota diz: “acho que a mensagem do filme é que você nunca deve perder as esperanças”.

    Lindo. huahuahua

    Texto no blog na madruga de amanhã.

    Rafael disse:
    novembro 2, 2008 às 1:13 pm

    Bemmm nao sei se foi eu que viajei muito vendo esse filme mas mas,esse filme nao é nada confuso e muito objetivo!

    Pensem comigo…O homem errando em seus experimentos com a natureza.

    Pessoas q se jugam de cristo para criar igrejas e mostrar q o mundo ta totalmente errado perante as leis de cristos!

    E no final! Do mesmo jeito q a criatura eh totalmente cruel matando pessoas O homem Foi mt mais matando 4 pessoas e nao Acreditando q ia dar tudo certo no final!

    Certo?

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