Dia: setembro 1, 2008

Superoito nos palcos da vida

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Em Brasília só se fala no festival de teatro – é o mais importante da cidade, são trocentas peças estrangeiras, badalação em todo canto. Mas diz aí: quem precisa dos palcos quando se tem um grupo social, uma tribo, uma tendência, uma agremiação, uma torcida, uma galerinha, um bando, uma entidade esquisita que apelidarei carinhosamente de Povo do Teatro? Aliás, quem precisa de teatro quando se tem o Povo do Teatro?

Para fazer parte do Povo do Teatro, ninguém precisa dirigir peças, cuidar de figurinos, sacar tudo sobre iluminação ou ter alguma experiência na arte da interpretar. Basta querer fazer parte do Povo do Teatro. É um processo bem democrático, acreditem. Se você quiser ser um dos integrantes desse vasto tecido humano que chamamos de Povo do Teatro, é só se impôr, marcar território. Simples, entendeu? Claro que, depois de optar por participar do Povo do Teatro, algumas regras serão seguidas por livre e espontânea vontade (já que o Povo do Teatro é muito livre e espontâneo).

No Povo do Teatro, tem estudante de Artes Cênicas, cabeleireiro, artista circense, funcionário público, atendente de telemarketing e gente de todas as etnias e profissões e orientações sexuais e time de futebol, já que a vida é um palco – e, nesse palco, sempre cabe mais um.

Onde encontrar o Povo do Teatro? Eis a questão. Durante o festival, indico o Museu da República – aquele prédio ovalado e branco ao lado da Catedral. Toda noite, aquele espaço muito espaçoso se transforma no bunker do Povo do Teatro. Eles se reúnem para comer empada, ouvir música eletrônica e curtir happenings (o hobby preferido do Povo do Teatro, diga-se).

Estive lá nas noites de quinta, sexta e sábado. Não me perguntem o motivo. Eu, que não faço parte do Povo do Teatro, deveria ter caçado algo mais produtivo e (como eles gostam) criativo para fazer. Pois bem: lá estava eu. Só consegui assistir a uma peça do festival (um happening alemão meio reality show meio candid camera meio fashion meio bullshit), mas não me penalizei por isso. No Museu da República, ao ar livre e de graça, pude assistir ao espetáculo mais movimentado da temporada. Cortesia do Povo do Teatro.

Quando eu estava prestes a dar uma mordida na minha empada de camarão, o show começou. Um sujeito despreparado (coitado, não fazia parte do Povo do Teatro) foi abordado por uma linda loura que, mal sabia ele, era uma entre tantas atrizes da multidão. Digamos que a moça tenha se insinuado para o rapaz (a classificação indicativa deste blog é livre, mas na verdade ela já chegou encoxando o moço). Digamos que, depois de um rapidíssimo início de relacionamento (beijos na boca e mão na bunda, para bom entendedor), uma rapariga morena partiu para cima do homem (que, nessa altura, já estava se achando o mais sortudo do planeta). Ele chegou a acenar para a loura com um envergonhado “você se importaria se eu também avançasse na sua amiga?” Com a permissão concedida, iniciou-se o menage.

Depois de beijar uma e outra, duas ou três vezes, com e sem língua, o sujeito descobriu que as duas eram amigas muito próximas que gostavam muito de se beijar. Ele ficou um pouco atormentado com aquela cena à Cine Privê, as duas se abraçando e se atracando e dançando forró, mas decidiu tentar a sorte assim mesmo. Azar o dele: logo foi abandonado pela dupla de performers. Mal sabia ele que estava participando de um quadro em uma espécie de show de variedades. “Não vá se engraçar com o Povo do Teatro“, aconselharia a mãe do rapaz.

O Povo do Teatro não quer saber de compromisso. Quer mesmo é dançar. Nunca vi tanta gente dançando junto. Nem no Chega de saudade, nem no Vem dançar comigo, nem no Faustão. E todos dançam incrivelmente bem. Num determinado momento, o DJ mandou uma salsa. Me senti num musical latino. No instante trance, parecia que eu tinha caído em Ibiza. O Povo do Teatro exibia acessórios coloridos que brilhavam no escuro. Quando um grupo de folclore nordestino entrou em cena, formou-se uma grande roda de maracatu. Eu quase aplaudi de pé.

Aí inventaram de me apresentar a uma amiga de uma amiga de uma amiga da minha namorada – e ela, como não?, fazia parte do Povo do Teatro. Qual não foi minha surpresa quando percebi que a atriz me tirou para uma cena naquele tom afobado e exagerado que companhias amadoras usam para interpretar Hamlet. Fiquei sem saber como agir. Perdidinho. Tentei soar o mais real, o mais eu-mesmo possível. Tossi, deixei frases pela metade, disse um texto tosquíssimo no estilo “vou lá pegar um guaraná diet” – algo que nem o Mário Bortolotto escreveria. Naquela hora, ninguém podia dançar ao ar livre, já que estava chovendo (depois de meses e meses de seca). Isolados num cercadinho, todos decidiram improvisar, armar esquetes curtos, desenvolver pocket shows e elaborar sugestões de stand-up comedies.

Me incomodei. Não entendi o que era aquilo. E aí fui para casa. A vida é um espetáculo, eu sei, mas nesse ponto sou neo-realista. Sou quase um documentário. E taí meu ponto fraco, culturalmente falando: odeio teatro interativo.

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OS DESAFINADOS

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Os desafinados, 2008. De Walter Lima Jr. Com Rodrigo Santoro, Cláudia Abreu e Ângelo Paes Leme. 131min. *

O que se vê na tela pode parecer o oposto disto, mas Os desafinados é um projeto bastante pessoal de Walter Lima Jr. Lembro quando eu ainda era um jornalista de fraldas, há uns seis anos, de ter entrevistado o diretor durante o Cine Ceará. Ele estava numa fase difícil, de projetos televisivos com pouca ou nenhuma relevância, e o plano de retornar ao Brasil da bossa nova não soava como uma estratégia comercial vazia, mas como uma oportunidade prazerosa de dar a volta por cima.

Quem já conversou com o cineasta sabe que ele realmente se emociona com a idéia de um cinema marcado pelo apuro técnico e por traquejo narrativo. No caso dele, não existe nada fake no gosto por uma história bem contada (e, aos que querem um novo Lira do delírio, só resta ficar esperando sentado).

Acontece que, sabe-se lá por que razão, não é fácil enxergar essa dedicação de Walter em Os desafinados. Aqueles que acompanharam o longo processo de produção do longa certamente encontrarão aqui e ali, em algumas cenas e referências musicais, um pouco do flashback afetuoso que ele pretendia filmar. Mas nada explica a frouxidão e (pois é!) o tom impessoal de um longa (excessivamente longo, por sinal) que mais parece um amontoado de rabiscos para um seriado de tevê.

Num mesmo balaio, o diretor tenta combinar homenagens à bossa nova, ao cinema novo e às vítimas das ditaduras da América Latina. Como versão simplificada para um período histórico, chega a lembrar a assepsia de A dona da história, de Daniel Filho. E a leveza que se espera de um filme-bossa-nova (como descreveu o próprio diretor) parece desculpa para superficialidade.

Pelo menos foi o que encontrei. A sessão estava lotada. Muita gente gostou do que viu. E, se fizer sucesso, aguardo um filme sobre a feitura deste filme. Aí sim, talvez, emocionante, surpreendente coisa e tal.

O NEVOEIRO

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The mist, 2007. De Frank Darabont. Com Thomas Jane, Laurie Holden e Marcia Gay Harden. 125min. ***

O nevoeiro é um filme B estúpido – filmado com a gravidade de uma tragédia grega. As primeiras cenas são narradas com o desleixo de um episódio de soap opera. A partir do momento em que a névoa do mal se instala ao redor dos personagens, cada cena será levada ao limite daquilo que o espectador chamaria de bom senso, cada personagem coadjuvante será enxergado com a lente do exagero. Em muitos trechos (e lá vou eu torrar minha reputação novamente) me lembrou a atmosfera de angústia e isolamento construída em Possuídos, de William Friedkin.

Mas O nevoeiro não é a típica atração de mostra paralela de Cannes: Frank Darabont não pode fugir de alguns elementos que esperamos de uma fita de terror inspirada em Stephen King. Daí os seres gosmentos, as explicações furadas (uma porta se abriu numa outra dimensão, que tal?), o uso meio exibicionista de efeitos visuais – e são tantos os tipos de monstros que a produção poderia ter criado uma série de brinquedos inspirada naqueles insetos anabolizados.

São as limitações que existem nesse tipo de projeto. Mas, com uma habilidade que não vi em nenhum outro filme dirigido por ele, Darabont desenvolve uma premissa absolutamente óbvia – que lembra fitas de zumbi ou Guerra dos mundos ou qualquer outra variação do gênero – como quem se coloca na posição dos personagens: cercados por neblina, eles não enxergam a um palmo dos olhos. Estão condenados a uma aventura de auto-destruição.

A conclusão, sombria como poucas, explica o desprezo com que o filme foi recebido nos Estados Unidos. E a seqüência final, que pode ser interpretada como uma espécie de jogada cruel e babaquinha do roteirista, me parece coerente com o tema central do filme: o desespero dos que não conseguem enxergar boas perspectivas quando engolidos por uma névoa de horror que tudo domina.